Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
<  Dezembro 2007  >
S T Q Q S S D
          1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
31
Terra Blog

21.08.07

A IMPORTÂNCIA

          

 

Só o futebol é capaz

 

              "Dane-se a orientação sexual dele, o importante é que jogue bem". A frase, com variação de termos, tem sido constantemente repetida por muitos são-paulinos sobre a suposta homossexualidade do jogador Richarlyson. Mais do que seu conteúdo, que é evidente independentemente de crenças e valores, a declaração nos alerta para uma constatação importante: o futebol é o principal canal de debates da nossa sociedade.

          É curioso que indivíduos que fora do estádio normalmente se fecham para o tema da homossexualidade, com posturas intolerantes ou indiferentes, sejam levados a pensar sobre o assunto e até mesmo a formar opinião sobre ele somente através do esporte bretão, que é justamente onde eles menos esperavam ter que se deparar com as questões polêmicas da sociedade. O fato é que o futebol provoca reflexões que as pessoas se recusam ou se omitem a travar em outras esferas sociais.

           Porque predominantemente o brasileiro se esquiva a falar de violência urbana, mas é capaz de tecer longos comentários sobre a violência nos estádios de futebol - nas arquibancadas ou nos campos. Ele se nega a opinar sobre inflação, mas protesta veementemente quando a federação eleva o valor do ingresso sem que o seu salário acompanhe o aumento. Ele não quer saber sobre a corrupção no Planalto Central, mas pode descrever com riqueza de detalhes os escândalos de corrupção entre dirigentes de clubes e federações.

            Preconceitos como racismo, machismo e a falta de inclusão social do deficiente também só assombram quando acontecem no mundo da bola.

           E não é apenas a inércia de pensamento, mas também de sentimento que o futebol movimenta. Muitas pessoas só se permitem desfrutar de determinadas sensações quando assitem ao jogo do seu time de coração. Aí é um tal de quem nunca chora chorar, de quem nunca grita gritar, de quem nunca teme temer, de quem nunca abraça abraçar, de quem nunca ama amar... O futebol é, pois, uma licença em que as pessoas se permitem pensar e sentir o mundo, quando a regra do cotidiano é justamente o oposto.

           A pergunta inevitável é: por que ele? Logo ele, que não se reivindica mais do que um esporte! (embora sua relevância social deixe cada vez mais evidente que não passa de pura modéstia). Não existe uma resposta pronta, evidentemente, pois o futebol - assim como a vida - não é preciso. Talvez seja porque ele é uma válvula de escape, como insistem alguns pensadores. Ou talvez porque a identificação do torcedor com ele seja maior do que com o mundo, já que no futebol todas as opiniões e sentimentos são importantes. E, pasmem, têm o mesmo valor. Já no mundo...

 

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 01:04:08

05.08.07

O FUTEBOL FEMININO

O dia seguinte


           Nunca vi o Maracanã bonito daquele jeito. Os mais antigos juram – e os números atestam – que já esteve mais cheio e, quem sabe, até mais colorido. Mas os tempos, e o mundo, eram outros. Devido às brigas, aos horários, à evasão de nossos craques e a conseqüente má qualidade dos campeonatos, ao conforto do sofá da sala e próprio valor do ingresso, há tempos o Maraca não recebia tanta gente. E o mais fascinante é que aquele espetáculo mágico de bandeiras, bexigas, cantos, palmas e coreografias oriundo das arquibancadas reverenciava a seleção brasileira de futebol... feminino.


            E como jogam aquelas meninas! Jogam pra frente, com audácia, mais preocupadas em balançar as redes do que em não sofrer gols – e podem jogar ofensivamente porque perder, para quem é desacreditado, também não prejudica demais. Driblam, gingam, dão toques de efeito - e precisam jogar bonito, porque ainda estão convencendo aquela platéia de que o futebol também é feminino. Jogam como se brincassem, com irreverência, de forma alegre e espontânea - e estão certas em se divertir, porque afinal estão desfrutando de um prazer que foi negado às suas antecessoras. O futebol delas é tão brasileiro que contagia até mesmo os estúpidos que torcem o nariz para reconhecer que elas sabem tratar bem a bola.


           Pena que o jogo acabou (se bem que com uma bonita goleada por 5 a 0 e a medalha de ouro no peito). O Maracanã esvaziou, e pode demorar muito tempo para ficar bonito daquele jeito outra vez. A festa terminou, e possivelmente só se repita daqui há um ano, nas Olimpíadas, três, na Copa do Mundo, ou quatro, no próximo Pan. As pessoas foram embora para as suas casas e talvez nem se lembrem no dia seguinte – ou não se permitam lembrar - de que as mulheres protagonizaram naquela tarde o futebol mais bonito que suas retinas testemunharam nos últimos tempos. Pena que depois de todo êxtase, existe o dia seguinte.


(é como se, ao se curar de um porre, perceber que preferia estar entorpecido porque o mundo real é bem mais desconexo; por incrível que pareça).


           Mas um delírio pode mudar a vida das pessoas; ou não. Se mudar, elas vão entender que já está mais do que na hora do Brasil criar ligas e federações de futebol feminino; de realizar regularmente campeonatos; dos clubes possuírem departamentos específicos, montarem equipes e profissionalizarem as suas atletas; dos patrocinadores investirem e nos ajudarem a manter aqui no país as nossas craques; da imprensa transmitir, divulgar e informar sobre as competições; do torcedor lotar as arquibancadas para prestigiar as belíssimas exibições, não apenas quando a vitória vale a medalha de ouro.


            Se não mudar... bem, aí as pessoas vão continuar fazendo pouco caso da habilidade incontestável dessas meninas, a dar ouvidos para os ignorantes que estufam o feito para repetir a bestialidade de que "futebol pé coisa para macho" e ser jogadora de futebol no Brasil continuará sendo um ato isolado de otimismo; ou de amor.

 

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 14:38:26

19.06.07

O FUTEBOL EUROPEU

 
Espanhol aonde???

    O brasileiro Robinho tocou a bola para o argentino Higuaín, que rolou para o meio da área e o espanhol Reyes completou para o fundo do gol. A jogada descrita não faz parte de um comercial de televisão, uma partida bneficiente reunindo  craques de todo o planeta ou mesmo uma exibição da seleção mundial. Trata-se do gol de empate do Real Madrid contra o Mallorca, na partida em que o time merengue sagrou-se campeão espanhol.

    Dos onze jogadores que iniciaram o confronto pela equipe madrilena, apenas Casillas, Michel Salgado, Sergio Ramos e Raul, o capitão, são espanhóis. Os outros sete em campo no momento do apito inicial eram estrangeiros, sendo três brasileiros (Roberto Carlos e Émerson são os outros), um italiano, um inglês, um holandês e até um malinês, o volante Diarra. Mesmo na arquibancada, o casal de astros estadunidenses Tom Cruise e Katie Holmes vibrava com o time de Capello e internacionalizava ainda mais a conquista.

  Com todo respeito ao nacional da Espanha, que foi emocionante até a última partida, seu campeão pode ser tudo, menos espanhol.
                                                                                 

    Há quem exalte esta salada mixta de pátrias e origens, enaltecendo os efeitos da globalização. 'Se o planeta não tem mais fronteiras, por que o mundo da bola haveria de ter?', se perguntam. E assim, naturalizam o êxodo  desenfreado de craques para os grandes clubes europeus, se esquecendo que a globalização tem um custo. Que costuma ser alto.

    Primeiro porque não é universal. Contempla a poucos, serve apenas a uma minoria, apesar de se travestir em direito amplo e irrestrito. Evidentemente qualquer time pode contratar ídolos de outras naturalidades, se quiser. E se tiver dinheiro. Dinheiro para enviar olheiros para outros países, dinheiro para sustentar uma estrutura que permita receber esses 'imigrantes', dinheiro para atrair e pagar os salários (que precisam minimamente ser mais altos dos que o boleiro recebia em seu país de origem). E o que é pior, dinheiro para concorrer com as ofertas das grandes potências econômicas do universo esportivo.

    O resultado disto é que os times com menor poder aquisitivo (que curiosamente se concentram em sua maioria na América do Sul, com destaque para aquele paisinho verde-e-amarelo) assistem impotentes à evasão de seus principais atletas. E este é o segundo preço que se paga por um mercado interplanetário, que se auto-regula e ultrapassa os limites territoriais.

    Cada vez que se abre a janela de transferência para o futebol europeu, os times brasileiros são violentamente amputados. E isso pode acontecer nos períodos de pré-temporada nacional ou em meio às competições, já que os cameponatos do outro lado do Atlântico terminam no meio do ano, quando os nossos ainda estão em andamento. A Fifa bem que tentou propor o debate sobre a tão unificação dos calendários, mas se amedrontou diante da recusa eufórica dos donos da grana.

    Assim, perde o torcedor latino-americano, que vê seus torneios serem enfraquecidos pela evasão de grandes jogadores e tem que se contentar com disputas medíocres, muito aquém da grandeza incontestável de seu futebol. Mas perdem também as seleções dos países europeus, já que os clubes são povoados por craques das mais variadas nações e muito poucos são revelados em territórios nacionais. (A Itália foi campeã do mundo, é verdade, mas verdade seja dita: essa Copa na Alemanha não deve ser referência para ninguém...).

    Por isso, conclamo os europeus a se somarem na árdua missão de convencer a Fifa de que é necessário impôr o limite ao número de jogadores estrangeiros nos clubes. É uma forma de assegurar que suas pátrias amadas revelem talentos e sejam bem representadas perante o globo terrestre nas competições internacionais. Abraçar esta causa é, pois, um dever patriótico. Mais que isso, representa a verdadeira globalização: a do bom senso. Que todos no mundo se unam na corrente pela nacionalização de seus atletas e no investimento de soluções caseiras para a crise no futebol mundial. Torcedores de todo o mundo, uni-vos!
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 18:21:08

15.05.07

OS PÊNALTIS



Sentença

          Priiiiiiiiiiiii!, apita o juiz, o jogo acabou. Empate. E agora, quem é o campeão? Quem é que vai levantar a taça e dar a volta olímpica? Qual é a equipe que vai posar para a foto que se tornará pôster e estampará as capas dos principais jornais no dia seguinte? De qual time será o jogador que concederá entrevista na condição de herói do jogo e irá chorar emocionado diante das câmeras agradecendo ao apoio da família, da torcida e de Deus? Afinal, qual das duas torcidas que se insultam incansavelmente em lados opostos das arquibancadas vai festejar até o dia amanhecer?

       Ciente da necessidade de eleger um campeão, o árbitro convoca para junto de si o capitão de cada equipe. ”Eu quero cara”. “Tá, então eu sou coroa”. A moeda é arremessada ao céu. Cara-coroa-cara... o mundo dá mil voltas. Segundos com sabor de eternidade. A pequena placa metálica que rodopia pelos ares significa o êxtase ou a maldição de duas multidões devotas que têm naquela utopia a sua razão de viver. Significa também a glória ou a desgarça dos jogadores, a consagração ou o fracasso moraldo treinador, a coroação ou a demolição do trabalho que em muitas vezes se deu a duras penas.

          A moeda não baila sozinha pelo espaço. Carrega consigo a campanha impecável do time na competição, a longa seqüência de partidas invictas, o topo da tabela de classificação em todas as rodadas, a soma majoritária de pontos durante o torneio. Carrega a história do clube, as tantas derrotas amargadas, as outras tantas vitórias extravasadas, todos heróis santificados ou sacrificados, cada torcedor que, qualquer que seja sua lógica, abdicou de si prórpio em nome daquela paixão. Se cair a face errada, será o fim. Terá sido tudo em vão.

      E cada vez mais pesada com as responsabilidades que herda, a moeda vai perdendo a sua força. As voltas no ar vão diminuindo até que o espetáculo chega ao fim. Todos os olhos do mundo estão fixos na mesma direção. E eis que o juiz destapa a face que consagrará o vencedor. Deu... cara. O time A é o campeão! Euforia de um lado e dor do outro. O campeonato acabou e o time A levou o caneco. Fim. Nada mais pode ser feito, foi assim que o Céu quis.

      O jogador que escolheu coroa, coitado, é massacrado. Decisão infeliz a dele. Os insultos vêm de todos os lados: torcedores, imprensa, treinador e até os companheiros de equipe, que travestem a raiva pela perda do título em palavras de apoio. “Fica assim não, acontece. Só erra o 'cara-ou-coroa' quem arrisca”. E agora, como será? Com que 'cara' sair às ruas no dia seguinte? Como encarar os próprios filhos quando chegar em casa. Haverá a oportunidade de um dia ressarcir o clube pelo vexame?

          É evidente que uma decisão de campeonato não pode ser destinada aos caprichos de uma moeda. Ao jogo de 'sorte ou azar'. Mas a partida terminou empatada e a Federação não aceita dois campeões. Nem a torcida. Marcar um novo confronto (quem sabe os dois times não saíssem do 0 a 0...) também não dá: não haveria data no calendário esportivo. E, ademais, se o empate se perpetuasse os adversários se enfrentariam eternamente? É inviável. Então, se os homens sozinhos não souberam definir o campeão, deixa que os deuses definem (eles ou quem quer seja o controlador do acaso).


        Digo tudo isso para defender a abolição da decisão de campeonatos em cobranças de pênaltis. Tudo bem que a conversão de penalidades é menos casuística que o cara-ou-coroa, porque envolve a preparação, o treino de chutes, o estudo do estilo de cobrança do adversário e a consciência de que, senão totalmente, ao menos uma parcela do poder de definição está na esfera terrena. Nas mãos dos homens e não dos céus. Mas há que se considerar a influência emocional no momento da disputa, pois como bem disse o fabuloso Didi, autor da folha-seca: "treino é treino. Jogo é jogo".

    Um bom exemplo para ilustrar essa interferência do transcendental é o contraste entre o campeão paulista e o carioca (novamente esse antagonismo...). Na Terra da Garoa, o Santos tinha a vantagem de jogar por dois empates ou se beneficiar com os resultados iguais. Como perdeu o primeiro embate ante o São Caetano por 2 a 0, mas triunfou no segundo pelo mesmo placar, sua supremacia ao longo da competição foi determinante para lhe assegurar a taça.

        Já na Cidade Maravilhosa, o regulamento não previa a premiação da melhor seqüência no caso de indefinição do placar. Assim, a soberania da campanha botafoguense ruiu quando, após dois empates com o Flamengo (ambos em 2 a 2), Lucio Flavio e Juninho desperdiçaram suas coversões de pênaltis. O caneco foi para a Gávea.

           De qualquer forma, considero a disputa em pênaltis uma prática obscena bem menos por uma possível injustiça no resultado (já que sou defensora ferrenha da fórmula de mata-mata e isso seria uma incoerência injustificável), do que pela tortura mental que ela significa. Ao torcedor, ao técnico, ao atleta.

         Ao torcedor pela expectativa, pela imprevisibilidade em frações de segundo, pelo medo de se deparar com a verdade na impossibilidade de fugir dela. Prova disso é que muitos sequer conseguem assistir às cobranças. Ao técnico pela sensação de impotência, pelo encolhimento diante do inevitável, pela impossibilidade de proteger seus meninos. E ao atleta pelo tribunal que se instaura no estádio, pelo juri impiedoso das arquibancadas, pela demolição moral do fracasso, pela sentença irrecorrível aos carrascos do futebol: a memória coletiva.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 16:36:19

01.05.07

O CARIOCA


Rio X Sampa

        Na condição de paulista que mora no Rio de Janeiro, me sino à vontade para comparar os dois campeonatos que, cada qual a seu modo, muito me fascinam. E a exemplo do que acontece com os próprios Estados, o que me toca em cada um deles é justamente a diferença entre um e outro. No Rio de Janeiro gosto de contemplar as maravilhas naturais. Em São Paulo, de desfrutar dos encantos artificiais. No futebol carioca eu aprecio os grandes, que quando se enfrentam materializam o conceito de Clássico. No paulista, os pequenos, que constantemente surpreendem e dão forma à idéia de zebra.

        Clássico e Zebra são dois ingredientes indispensáveis no esporte bretão. Sem eles a receita inevitavelmente desanda, e o futebol fica insoso. Óbvio demais. Evidente demais. Previsível demais.

        Sim, é claro que a história do Carioca está repleta de Zebras, assim como a trajetória do Paulista inclui inúmeros Clássicos. Coisas da vida. Mas nos últimos tempos os grandes do Rio se equivalem, enquanto em São Paulo o time homônimo e o Santos levam vantagem (prova disso são os tabus). No Rio os pequenos pouco aparecem e quase não revelam talentos, mas em Sampa vez ou outra desbancam os favoritos (evidência disso são as conquistas na Copa do Brasil e o Brasileiro do Guarani em 1978).

         O primeiro jogo das finais de cada Estado ilustra bem isso: um embate de arrepiar de um lado, e uma saborosa surpresa de outro (os santistas naturalmente devem discordar...). E não importa o que aconteça no próximo domingo, isto é, se o Clássico ou a Zebra estarão em campo novamente, eles já assinaram seus nomes nas competições e nos ensinaram mais uma vez que o futebol transcende a lógica. Mas, se quiserem dar as caras outra vez, serão muito bem-vindos.



Clássico é Clássico. E vice-versa


           Imagine um jogo onde tudo pode acontecer. Onde a única certeza é a do espetáculo e ele sim, confirmou seu favoritismo. Imagine um duelo recheado de gols, bolas na trave, reações no minuto final de jogo, viradas sobre viradas, surpresas, tabus, revanches, recordes a serem alcançados e muita emoção. Lágrimas que se transformam em risos e certezas que se traduzem dúvidas. Imagine um confronto com belas jogadas, toques de classe, dribles desconcertantes, gols de encher os olhos. Em que bola á tratada com intimidade por quem fala o mesmo idioma. Imagine um embate onde uma multidão apaixonada se espreme atrás do alambrado com corações pulsando a mil. Torcendo com a alma. Sim, você está diante de um Clássico.

         Os confrontos entre os grandes do Rio nesta temporada foram qualquer coisa de muito lindo, de muito mágico. Verdadeiras dádivas. Somaram, ao todo, oito encontros. E a elástica marca de 33 gols, fora as disputas de pênalti. Mais de quatro gols por partida. Jogos para entrar na História, sem dúvida. Botafogo e Flamengo abriram a série de Clássicos com chave de ouro: 3 a 3. Deram logo seu recado: clássico é clássico. Com direito a virada e gol de placa. Fluminense e Vasco acharam pouco três gols para cada. Queriam mais: 4 a 4.

          Aí vieram as semifinais da Taça Guanabara e a promessa de um jogo dramático. A expectativa se confirmou e o empate em um gol levou a decisão para os pênaltis: Fla 3 a 1 Vasco. E dá-lhe tabu. Já pela Taça Rio, o Fluminense desperdiçou um pênalti e perdeu o jogo para o Botafogo por 1 a 0. Prova de quem nesse tipo de jogo o erro custa caro. Depois foi a vez do Gigante da Colina lavar a alma: 3 a 0 contra o algoz Rubro-Negro. Eis a redenção vascaína. O Tricolor também carimbou a faixa de campeão da Taça Guanabara conquistada pelo Flamengo: 2 a 1. Mas não foi de qualquer jeito não, foi de virada e com um gol aos 48 do segundo tempo.

         E a festa prosseguiu. Botafogo 2, Vasco 0, e Romário sem o milésimo gol. Isso é para aprender que em Clássico não existem coadjuvantes, só protagonistas. Já deveriam saber disso. Semifinais e novamente o Glorioso e Gigante se viram frente a frente. A chance da vingança. Não aconteceu (nem o troco e nem o tal gol mil; por centímetros). No jogo 4 a 4 e dez de cada lado, nos pênaltis 4 a 1 Fogão. Nascia aí o campeão.

    Enfim, é como dizem por aí: “Clássico é Clássico, e vice-versa”. A origem da frase é controversa, sua profecia é atribuída aos mais variados personagens mas, afinal, quem se importa com a imprecisão de algumas palavras diante da insensatez de um Clássico? Não importa quem criou a frase – e tampouco os Clássicos. O que vale são os gols, a emoção, o riso e choro que se alimentam desse imprevisto que só mesmo o futebol é capaz de proporcionar em doses tão embriagantes. Se eu fosse presidente, decretaria dia de Clássico como feriado nacional. E não quanto a isso eu não negocio.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 16:27:09