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Só o futebol é capaz
"Dane-se a orientação sexual dele, o importante é que jogue bem". A frase, com variação de termos, tem sido constantemente repetida por muitos são-paulinos sobre a suposta homossexualidade do jogador Richarlyson. Mais do que seu conteúdo, que é evidente independentemente de crenças e valores, a declaração nos alerta para uma constatação importante: o futebol é o principal canal de debates da nossa sociedade.
É curioso que indivíduos que fora do estádio normalmente se fecham para o tema da homossexualidade, com posturas intolerantes ou indiferentes, sejam levados a pensar sobre o assunto e até mesmo a formar opinião sobre ele somente através do esporte bretão, que é justamente onde eles menos esperavam ter que se deparar com as questões polêmicas da sociedade. O fato é que o futebol provoca reflexões que as pessoas se recusam ou se omitem a travar em outras esferas sociais.
Porque predominantemente o brasileiro se esquiva a falar de violência urbana, mas é capaz de tecer longos comentários sobre a violência nos estádios de futebol - nas arquibancadas ou nos campos. Ele se nega a opinar sobre inflação, mas protesta veementemente quando a federação eleva o valor do ingresso sem que o seu salário acompanhe o aumento. Ele não quer saber sobre a corrupção no Planalto Central, mas pode descrever com riqueza de detalhes os escândalos de corrupção entre dirigentes de clubes e federações.
Preconceitos como racismo, machismo e a falta de inclusão social do deficiente também só assombram quando acontecem no mundo da bola.
E não é apenas a inércia de pensamento, mas também de sentimento que o futebol movimenta. Muitas pessoas só se permitem desfrutar de determinadas sensações quando assitem ao jogo do seu time de coração. Aí é um tal de quem nunca chora chorar, de quem nunca grita gritar, de quem nunca teme temer, de quem nunca abraça abraçar, de quem nunca ama amar... O futebol é, pois, uma licença em que as pessoas se permitem pensar e sentir o mundo, quando a regra do cotidiano é justamente o oposto.
A pergunta inevitável é: por que ele? Logo ele, que não se reivindica mais do que um esporte! (embora sua relevância social deixe cada vez mais evidente que não passa de pura modéstia). Não existe uma resposta pronta, evidentemente, pois o futebol - assim como a vida - não é preciso. Talvez seja porque ele é uma válvula de escape, como insistem alguns pensadores. Ou talvez porque a identificação do torcedor com ele seja maior do que com o mundo, já que no futebol todas as opiniões e sentimentos são importantes. E, pasmem, têm o mesmo valor. Já no mundo...


O dia seguinte
Nunca vi o Maracanã bonito daquele jeito. Os mais antigos juram – e os números atestam – que já esteve mais cheio e, quem sabe, até mais colorido. Mas os tempos, e o mundo, eram outros. Devido às brigas, aos horários, à evasão de nossos craques e a conseqüente má qualidade dos campeonatos, ao conforto do sofá da sala e próprio valor do ingresso, há tempos o Maraca não recebia tanta gente. E o mais fascinante é que aquele espetáculo mágico de bandeiras, bexigas, cantos, palmas e coreografias oriundo das arquibancadas reverenciava a seleção brasileira de futebol... feminino.
E como jogam aquelas meninas! Jogam pra frente, com audácia, mais preocupadas em balançar as redes do que em não sofrer gols – e podem jogar ofensivamente porque perder, para quem é desacreditado, também não prejudica demais. Driblam, gingam, dão toques de efeito - e precisam jogar bonito, porque ainda estão convencendo aquela platéia de que o futebol também é feminino. Jogam como se brincassem, com irreverência, de forma alegre e espontânea - e estão certas em se divertir, porque afinal estão desfrutando de um prazer que foi negado às suas antecessoras. O futebol delas é tão brasileiro que contagia até mesmo os estúpidos que torcem o nariz para reconhecer que elas sabem tratar bem a bola.
Pena que o jogo acabou (se bem que com uma bonita goleada por 5 a 0 e a medalha de ouro no peito). O Maracanã esvaziou, e pode demorar muito tempo para ficar bonito daquele jeito outra vez. A festa terminou, e possivelmente só se repita daqui há um ano, nas Olimpíadas, três, na Copa do Mundo, ou quatro, no próximo Pan. As pessoas foram embora para as suas casas e talvez nem se lembrem no dia seguinte – ou não se permitam lembrar - de que as mulheres protagonizaram naquela tarde o futebol mais bonito que suas retinas testemunharam nos últimos tempos. Pena que depois de todo êxtase, existe o dia seguinte.
(é como se, ao se curar de um porre, perceber que preferia estar entorpecido porque o mundo real é bem mais desconexo; por incrível que pareça).
Mas um delírio pode mudar a vida das pessoas; ou não. Se mudar, elas vão entender que já está mais do que na hora do Brasil criar ligas e federações de futebol feminino; de realizar regularmente campeonatos; dos clubes possuírem departamentos específicos, montarem equipes e profissionalizarem as suas atletas; dos patrocinadores investirem e nos ajudarem a manter aqui no país as nossas craques; da imprensa transmitir, divulgar e informar sobre as competições; do torcedor lotar as arquibancadas para prestigiar as belíssimas exibições, não apenas quando a vitória vale a medalha de ouro.
Se não mudar... bem, aí as pessoas vão continuar fazendo pouco caso da habilidade incontestável dessas meninas, a dar ouvidos para os ignorantes que estufam o feito para repetir a bestialidade de que "futebol pé coisa para macho" e ser jogadora de futebol no Brasil continuará sendo um ato isolado de otimismo; ou de amor.






Rio X Sampa
Na condição de paulista que mora no Rio de Janeiro, me sino à vontade para comparar os dois campeonatos que, cada qual a seu modo, muito me fascinam. E a exemplo do que acontece com os próprios Estados, o que me toca em cada um deles é justamente a diferença entre um e outro. No Rio de Janeiro gosto de contemplar as maravilhas naturais. Em São Paulo, de desfrutar dos encantos artificiais. No futebol carioca eu aprecio os grandes, que quando se enfrentam materializam o conceito de Clássico. No paulista, os pequenos, que constantemente surpreendem e dão forma à idéia de zebra.
Clássico e Zebra são dois ingredientes indispensáveis no esporte bretão. Sem eles a receita inevitavelmente desanda, e o futebol fica insoso. Óbvio demais. Evidente demais. Previsível demais.
Sim, é claro que a história do Carioca está repleta de Zebras, assim como a trajetória do Paulista inclui inúmeros Clássicos. Coisas da vida. Mas nos últimos tempos os grandes do Rio se equivalem, enquanto em São Paulo o time homônimo e o Santos levam vantagem (prova disso são os tabus). No Rio os pequenos pouco aparecem e quase não revelam talentos, mas em Sampa vez ou outra desbancam os favoritos (evidência disso são as conquistas na Copa do Brasil e o Brasileiro do Guarani em 1978).
O primeiro jogo das finais de cada Estado ilustra bem isso: um embate de arrepiar de um lado, e uma saborosa surpresa de outro (os santistas naturalmente devem discordar...). E não importa o que aconteça no próximo domingo, isto é, se o Clássico ou a Zebra estarão em campo novamente, eles já assinaram seus nomes nas competições e nos ensinaram mais uma vez que o futebol transcende a lógica. Mas, se quiserem dar as caras outra vez, serão muito bem-vindos.

Clássico é Clássico. E vice-versa
Imagine um jogo onde tudo pode acontecer. Onde a única certeza é a do espetáculo e ele sim, confirmou seu favoritismo. Imagine um duelo recheado de gols, bolas na trave, reações no minuto final de jogo, viradas sobre viradas, surpresas, tabus, revanches, recordes a serem alcançados e muita emoção. Lágrimas que se transformam em risos e certezas que se traduzem dúvidas. Imagine um confronto com belas jogadas, toques de classe, dribles desconcertantes, gols de encher os olhos. Em que bola á tratada com intimidade por quem fala o mesmo idioma. Imagine um embate onde uma multidão apaixonada se espreme atrás do alambrado com corações pulsando a mil. Torcendo com a alma. Sim, você está diante de um Clássico.
Os confrontos entre os grandes do Rio nesta temporada foram qualquer coisa de muito lindo, de muito mágico. Verdadeiras dádivas. Somaram, ao todo, oito encontros. E a elástica marca de 33 gols, fora as disputas de pênalti. Mais de quatro gols por partida. Jogos para entrar na História, sem dúvida. Botafogo e Flamengo abriram a série de Clássicos com chave de ouro: 3 a 3. Deram logo seu recado: clássico é clássico. Com direito a virada e gol de placa. Fluminense e Vasco acharam pouco três gols para cada. Queriam mais: 4 a 4.
Aí vieram as semifinais da Taça Guanabara e a promessa de um jogo dramático. A expectativa se confirmou e o empate em um gol levou a decisão para os pênaltis: Fla 3 a 1 Vasco. E dá-lhe tabu. Já pela Taça Rio, o Fluminense desperdiçou um pênalti e perdeu o jogo para o Botafogo por 1 a 0. Prova de quem nesse tipo de jogo o erro custa caro. Depois foi a vez do Gigante da Colina lavar a alma: 3 a 0 contra o algoz Rubro-Negro. Eis a redenção vascaína. O Tricolor também carimbou a faixa de campeão da Taça Guanabara conquistada pelo Flamengo: 2 a 1. Mas não foi de qualquer jeito não, foi de virada e com um gol aos 48 do segundo tempo.
E a festa prosseguiu. Botafogo 2, Vasco 0, e Romário sem o milésimo gol. Isso é para aprender que em Clássico não existem coadjuvantes, só protagonistas. Já deveriam saber disso. Semifinais e novamente o Glorioso e Gigante se viram frente a frente. A chance da vingança. Não aconteceu (nem o troco e nem o tal gol mil; por centímetros). No jogo 4 a 4 e dez de cada lado, nos pênaltis 4 a 1 Fogão. Nascia aí o campeão.
Enfim, é como dizem por aí: “Clássico é Clássico, e vice-versa”. A origem da frase é controversa, sua profecia é atribuída aos mais variados personagens mas, afinal, quem se importa com a imprecisão de algumas palavras diante da insensatez de um Clássico? Não importa quem criou a frase – e tampouco os Clássicos. O que vale são os gols, a emoção, o riso e choro que se alimentam desse imprevisto que só mesmo o futebol é capaz de proporcionar em doses tão embriagantes. Se eu fosse presidente, decretaria dia de Clássico como feriado nacional. E não quanto a isso eu não negocio.