São Paulo e o futebol paulista
Não faz muito tempo, o Campeonato Brasileiro poderia ser considerado uma “extensão” do Paulista. Em 2004 e 1998, por exemplo, quatro dos cinco primeiros colocados na tabela final de classificação pertenciam à terra da garoa. Muita bola rolou de lá para cá, porém. Portuguesa caiu, Guarani caiu, Ponte Preta está na corda bamba e até o Palmeiras se equilibra como pode.
Se o Paulista não retornar à Série A, São Paulo (não o time, o Estado) disputa o Brasileiro de 2007 com apenas quatro times, o mesmo número que o Rio de Janeiro. Ainda bem que os paulistas têm o São Paulo (desta vez, sim, o time).
Com uma campanha inquestionável, o time do Morumbi trouxe a taça novamente “para o outro lado da Dutra”, com duas rodadas de antecipação. O desfile do tricolor pelo Brasileirão foi digno de aplausos: é a equipe que mais venceu, a que menos perdeu, a que mais balançou as redes na competição.
(Sem falar que foi o time que mais devotos arrastou aos estádios, mas aí já é outra história...). É, meu coração corinthiano não tem outra opção, senão humildemente reconhecer que o caneco está em boas mãos.
Claro que não é só o São Paulo que está fazendo juz à tradição do futebol no Estado. O Santos corre por fora e, se não conseguiu ultrapassar os gaúchos, pelo menos deve representar o país na próxima edição da Libertadores.
O próprio Paulista, na série B, depois da inenarrável goleada por 9 a 0, contra o Paysandu, já deu o seu recado: por ele Sampa mantém a vantagem de times no Brasileirão do ano que vem. Além disso, a Ponte Preta pode não ser rebaixada, embora nos dê a nítida impressão de que está “se esforçando bastante” para sê-lo.
Mas para quem vivenciou os tempos aúreos, isso é pouco. Cadê o Corinthians, que tinha que estar brigando pelo bicampeonato? Cadê o Palmeiras, que deveria honrar a tradição alviverde? Cadê o São Caetano, que era praticamente imbatível no Anacleto Campanella? Mais que isso, onde está o Guarani, o único time do interior a se sagrar campeão nacional? Foi-se o tempo em que o futebol de Sampa era praticamente imbatível.
Bairrismos à parte, porém, a vantagem dos paulistas para os outros Estados - com excessão dos gaúchos - permanece. E reside justamente nisto: o São Paulo F.C. está lá. E evidencia, a todo momento, que futebol se ganha é com investimento, com estrutura, com planejamento.
À distância até se pode tapar os olhos, ignorar as evidências, dar às costas aos fatos. Mas quem convive diretamente com essa fórmula vitoriosa, inevitavelmente, perde o sono. E se vê tomado por pensamentos subversivos. "E se o meu time também se organizasse...?". "E se o meu time também...".
Mais do que amaldiçoar o feito dos "pós-de-arroz", o que os outros clubes precisam é se inspirar nele. É entender que nem só a torcida são-paulina merece se esbaldar com uma geração vitoriosa. E precisam, também, agradecê-los por colorir o país com as cores do Estado e fazer a festa com o sotaque cantado. Graças ao SPFC, nós ainda podemos encher o peito e provocar os rivais: "De novo, o campeão é paulista".
Os “justos” que me perdoem, mas eu quero a volta dos mata-matas
Quem nunca viu o seu time ser campeão com um gol aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, quando tudo parecia arruinado, talvez não me entenda. Quem nunca viu o seu clube começar mal a competição, correr por fora, se classificar na última vaga – no sufoco, claro – e, inesperadamente, voltar para a casa com a taça, provavelmente discorde de mim. Quem nunca explodiu em alegria depois de ter chorado rios de lágrimas supondo que estava tudo perdido, na certa me conteste. Mas o fato é que campeonato sem final perde muito da emoção. E a emoção, meus amigos, é um dos principais ingredientes da beleza inenarrável do esporte bretão.
Ver o São Paulo, a sete rodadas do término do Campeonato Brasileiro, praticamente ter assegurado a conquista do título me desestimula bastante. Não por ser o time do Morumbi que, se não me desperta paixão, muito me provoca respeito, sobretudo à sua inigualável estrutura. Assim como constatar que a esta altura do campeonato – literalmente, é bom que se diga, - das quatro últimas colocações, apenas uma ainda pode trazer surpresas, me desentusiasma demais. E me faz sentir saudades dos bons tempos em que se acordava de manhã com a promessa de fortes emoções. E em que se era permitido acreditar até o último minuto em uma virada heróica.
O futebol – assim como o mundo, assim como a vida – se alimenta do imprevisto. É a incerteza de se chegar ao último jogo da competição completamente alheio ao seu desfecho que torna o mundo da bola tão fascinante, tão enigmático, tão transcendente. O futebol se nutre da ignorância em relação aos seus próprios sentimentos, da expectativa de que vá se chorar ou se vá sorrir, da identificação entre pessoas que nunca se viram, da sintonia entre corações que pulsam num mesmo compasso, como que orquestrados. Sem aquele jogo decisivo, em que o país inteiro para e todos os olhares se voltam para os gramados, o esporte perde um pouco da magia. Fica lógico demais, burocrático demais, “justo” demais.
Não adianta se iludir com esta idéia. O futebol – assim como o mundo, assim como a vida – não é justo. Porque um time pode atacar incansavelmente durante os noventa minutos de jogo, sofrer um gol aos quarenta e cinco do segundo tempo e deixar o campo derrotado. E, pior, esse gol pode ter acontecido em um pênalti duvidoso, em uma falha grotesca do arqueiro, em um lance de impedimento não assinalado pelo juiz ou bandeirinha. Um zagueiro pode ter investido contra a sua própria meta, o gol pode ter sido feito após uma jogada faltosa ou até mesmo a bola pode ter sido maliciosamente lançada às redes com as mãos. Não importa, o fato é que o “justo” seria que o time mais ofensivo triunfasse.
Muitos dirão: “ah, mas um time que ataca sem competência não merece mesmo vencer a partida”. E terão razão. Mas eu retruco: um time que não sabe disputar uma final de campeonato, que “amarela” - como diz o jargão do esporte - ante uma partida disputada sob pressão, não é digno de levar o caneco. Se o futebol fosse justo, os rivais não precisariam se degladiar em busca de gols. Bastaria ter jurados nas imediações do campo avaliando quem jogou melhor. Poderia até ter notas para os quesitos, como nos desfiles carnavalescos – "Harmonia: nota... dez".
É claro que a fórmula dos pontos corridos exige das equipes que mantenham a regularidade, e isso é positivo. Assim, quem quiser se sagrar campeão precisa conquistar uma seqüência de bons resultados e boas partidas. Mas as duas possibilidades não são excludentes, já que os mata-matas são geralmente antecedidos pelo acúmulo de pontos. Isto é: só disputam as partidas decisivas aquelas equipes que somaram mais pontos ao longo do torneio e ficaram no topo da tabela.
Assim, eficiência e emoção nada mais são do que dois elementos que se somam, que se completam para, juntos, produzirem essa paixão indecifrável que é o futebol. A surpresa com a "zebra", a espera anciosa pelo apito final, a tristeza que num segundo se transofrma em alegria - e vice-versa. Tudo isso enriquece o esporte bretão e o impulsionam a mover multidões, como acontece. Não é à toa que os principais campeonatos do mundo só conhecem os seus vencedores em finais. O futebol - assim como o mundo, assim como a vida - é e sempre será um espetáculo.