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Representante das Arquibancadas
Quando escrevi aqui que o uniforme do goleiro nunca é o que o torcedor usa nos estádios de futebol, (“A Redenção dos Goleiros”, em A MURALHA), algumas vozes se levantaram em defesa de Rogério Ceni, alegando que ele é o grande ídolo do são-paulino. Não contestei, porque é a mais absoluta verdade, mas argumentei que ele é uma exceção, já que não se prende aos limites da área.
Procurei ilustrar minha opinião destacando que são os gols que ele marca – de pênalti ou falta – e não as defesas, o que enche os olhos do torcedor. Não é que eu ignore que o arqueiro tricolor seja um dos melhores do Brasil, porque isso é incontestável, mas achava que sua condição de ícone derivava do fato dele ser o “show man” do time. De representar, ele mesmo, um espetáculo à parte nos jogos.
Assistindo à disputa em pênaltis que garantiu o time do Morumbi na semifinal da Libertadores, porém, percebi que tinha sido demasiado simplista em meu raciocínio. O que torna Rogério Ceni a personificação do sentimento são-paulino é bem mais do que o meu coração corinthiano – e, portanto, incapaz de tomar a dimensão exata desta paixão tão antagônica à minha – poderia supor.
Quando ele se adiantou na cobrança de pênalti e defendeu o chute do jogad or do Estudiantes, retomando assim o empate nas finalizações (já que o meia Danilo não marcou o gol), entendi o que garante a este goleiro um lugar tão especial no coração tricolor: a identificação. Rogério fez o que cada um dos 13,3 milhões de são-paulinos teriam feito se tivessem a chance de estar debaixo daquela trave: garantir a vitória a qualquer custo.
Claro que acho que se as regras existem, elas devem ser cumpridas e que, portanto, Ceni deveria ter esperado para escolher um dos lados. Mas o que me chamou a atenção foi que a atitude desesperada do goleiro era aboslutamente o reflexo do sentimento de pavor das arquibancadas. E é justamente esta sintonia dele com o torcedor o que mais me admira, mesmo sendo eu corinthiana.
É a constatação de que ele é movido pelo mesmo feitiço e pela mesma devoção de que quem está do outro lado do alambrado. É a percepção de que sua emoção não poderia ser menos intensa do que a de nenhum são-paulino no mundo, assistindo ao time do coração dando um passo a frente na competição. Desconfio que Rogério Ceni, quando vê a festa nas arquibancadas, sente uma pontinha de inveja: é lá que, no fundo, ele deseja estar.
Ele é uma espécie em extinção no futebol dos dias de hoje: o jogador-torcedor. O jogador que atua pelo time que torce e que, por isso, se entrega sem pudores, sabendo que qualquer resultado adverso machucará não apenas os outros, mas também a si mesmo. Com ele a torcida se sente representada em campo, como se fosse uma espécie de delegado eleito para ajudar o time. Qualquer torcedor, seja lá de que time for, se fosse retirado das arquibancadas e lançado ao gramado, se dedicaria como ele, sofreria e vibraria de forma igual e faria as mesmíssimas declarações diante dos microfones. Ele é, portanto, o torcedor a quem foi concedido o direito de entrar em campo.
Muitos foram os exemplos de jogadores com este perfil na História do futebol. Uma figura marcante na minha infância foi o goleiro Ronaldo, que me permitia a ilusão de estar eu mesma em campo. Era um dos poucos goleiros a cumprir suspenão automática, tamanha era a sua devoção ao time. Nunca o consegui imaginar defendendo outra equipe, embora acredite que seu profissionalismo o levaria a fazê-lo da melhor maneira possível.
Baseado neste meu exemplo, sou capaz de compreeder a admiração incondicional do são-paulino a Rogério Ceni. Eu já fui tomada pela mesma sensação de identificação. Além disso, Ceni merece o carinho que lhe é atribuído. Só que, sem querer ser desmancha-prazer, me sinto na obrigação de alertá-los: aproveitem bem, porque vai demorar pelo menos dez anos para vocês acharem outro goleiro assim.