Quando afirmo que nada acontece por acaso, não estou me referindo a um suposto fatalismo da vida, em que os destinos estão traçados e pré-determinados, antes mesmo das pessoas nascerem. Como se o que tivesse que acontecer, acontecesse, sem que a ação humana - consciente ou não - pudesse interferir, evitar ou modificar a trajetória dos fatos.
Há quem acredita nisto; e eu respeito. Mas não posso conceber a idéia que estava escrito nas estrelas que, um dia, a América do Sul seria pintada de vermelho, mas não mais pelo sangue derramado de seus povos historicamente massacrados, e sim com a brava conquista da Libertadores pelo Colorado. Independente de ser obra dos deuses ou dos homens, porém, o time do Inter mereceu a vitória e é com justiça o Dono das Américas.
De qualquer forma, continuo insistindo que nada acontece por acaso. E explico: tudo é resultado de esforços, canalização de energias, entregas e renúncias, além de um minuncioso planejamento. O Internacional-RS não foi campeão porque “aconteceu e pronto”, ao contrário, a turma teve que, literalmente, suar a camisa para ganhar a passagem para Tóquio, onde disputará a final do Mundial de Clubes, contra o Barcelona.
O próprio São Paulo, que desta vez não faturou, não chegou longe assim à toa. E, justiça seja feita, perdeu de cabeça erguida, lutando heroicamente até o último segundo. Me surpreendeu por não se abater com os gols sofridos, que aumentavam ainda mais a sua desvantagem, indo, por duas vezes, buscar o empate. O que, aliás, valoriza o título dos gaúchos.
Não faz muito tempo, elogiei aqui o trabalho de preparação e investimento que está sendo realizado nestas duas equipes (“Derrubar mitos: a fórmula da vitória”, em O EXEMPLO). Na ocasião, me entusiasmei pela boa conciliação dos dois torneios, isto é, por estes clubes fazerem bonito tanto na Libertadores, quanto no Brasileirão, não priorizando nenhum. O resultado foi o campeão e o vice em um e, inversamente, o primeiro e o segundo colocado no outro, de forma que as duas equipes entraram em campo, ontem, com a tranqüilidade de saber que, mesmo perdendo, devem estar de volta à Sul Americana do ano que vem. É, não pode ser por acaso.
Assim como não é por acaso que Inter e São Paulo têm sempre figurado entre os primeiros nos últimos anos e conquistados títulos impotantes, para o delírio de suas torcidas. Ronaldinho que me perdoe, mas arrisco dizer que do jogo de ontem saiu o novo campeão do mundo. Fazer o que se a bola prefere os clubes brasileiros?
É, vai ser mesmo muito bonito ver o planeta todo reluzindo em vermelho. E, quando isso acontecer, o Brasil vai mostrar mais uma vez ao mundo inteiro que o futebol é bem mais bonito e vibrante do que eles supõem. Vai lá, Inter, vai para o Japão e ensina esse povo como é que se joga bola de verdade. Vai, Inter, e apresenta a esses pobres mortais o futebol-arte, em toda a sua magia e esplendor - porque eles não o conhecem. Vai lá, Colorado, porque nosso país é muito pequeno para a tua maestria. Que venha, então, a conquista do mundo!
OBS: Mas o trabalho acertado tem que ter seqüência. O planejamento vitorioso precisa prosseguir, para trazer mais alegrias ao torcedor e para impulsionar os outros clubes - e seleção canarinha! - a fazerem o mesmo: trabalhar visando metas claras e bem definidas.
Sendo assim, torço para que Inter e Sampa não desfaçam seus elencos agora que o passe dos jogadores está valorizado. Mas, confesso, tenho certa dificuldade em crer nisso.