Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2006, 19

19.08.06

A DONA


Os 'donos' do Futebol


 

         Era uma vez um esporte – ou seria religião? - chamado futebol. Seu magnetismo era tão grande, mas tão grande, que ele arrastava consigo uma multidão apaixonada, capaz dos mais infindáveis sacrifícios. O futebol a essa época, dizem, era uma substância coletiva e universal. Até o dia em que resolveram transformá-lo em negócio, determinando inclusive os seus horários. Independentemente de seus devotos. E é assim até hoje.


       Na última vez em que fui ao Maracanã, às dez horas da noite, comecei a me questionar se é justo que um jogo comece naquele horário tardio, só porque a programação televisiva não tem espaço para ele antes disso. Me perguntei se era lógico as pessoas passarem pelo perigo de sair do estádio depois da meia-noite, correndo o risco de serem assaltadas e até mesmo estupradas, simplesmente porque alguém se acha no direito de ser intransigente.


         Pensei no meu constrangimento de atravessar a ponte Rio-Niterói àquela hora e, solidariamente, no público que acompanhava Internacional–RS X São Paulo - e se a Libertadores fosse definida nos pênaltis, o que seria daquela pessoas?!? Quanto mais eu confrontava esta absurda realidade, mais e mais fui percebendo que é inadmissível que o futebol tenha dono, e que este(s) dono(s) despreze(m) assim, tão gritantemente, os interesses e direitos do torcedor.

 

              Uma partida que começa assim tão tarde não é para as crianças, que geralmente dormem cedo. Também não é para as mulheres, pelo menos não para mulheres que optam por não depender da boa-vontade alheia para fazerem os seus programas. Não é, claro, para quem mora distante do estádio e tem que ficar horas esperando no ponto de ônibus. E, naturalmente, um jogo que termina no dia seguinte não pensa no trabalhador, que acordará cedo para encarar mais uma dura jornada – e só terá tempo para recuperar o sono perdido no domingo, depois de três dias de exaustão. Para quem, então, é jogado o futebol brasileiro?

 

         Evidentemente que poder-se-á argumentar: “oras, assista pela televisão”. Bingo! Taí, é simples, é só assistir pela televisão! Claro que não haverá a energia vibrante peculiar das arquibancadas e tampouco a sensação ímpar da troca de vibrações com os ídolos em campo mas... e daí? Pode-se acompanhar o espetáculo em casa, com o conforto que só mesmo a sala da gente tem e, de quebra, assistir às emoções do capítulo da novela.


            Nada contra ver às partidas pela TV, longe de mim. Ao contrário, a televisão dispõe de recursos técnicos altamente evoluídos, que nos permitem esclarecer as dúvidas nos lances polêmicos e ter acesso aos gols e melhores momentos de confrontos que acontecem simultaneamente. Tenho contra, sim, a falta de escolha que os horários “corujinhas” acarretam. E aos perigos e sacrifícios que eles nos impõem.


          Mesmo que grande parte dos torcedores opte - quaisquer que sejam seus motivos - por assistir ao clube do coração à distância, é importante proporcionar-lhe esta possibilidade de escolha. É imprescindível que se lhe garanta a sua condição de ser racional capaz de influir sobre suas próprias ações e, mais, que isso, que se lhe viabilize o exercício de sua escolha. Suponhamos que o sujeitinho decida ir pessoalmente, em carne-e-osso, ao estádio. É preciso que haja segurança, dentro e fora do campo, para que ele possa efetivamente exercer o seu direito de torcedor.

 

          Oras, se nem nas dependências do estádio há garantias de integridade física, quem é que vai ser maluco em apostar nela longe dali, onde os holofotes não iluminam Assim, lamento constatar que em um jogo que começa às dez da noite, o direito inalienável do torcedor em acompanhar o seu time está lhe sendo - parcial ou totalmente - tolhido.

 

           Assim como é também tolhido o direito de quem não gosta de futebol em manter-se alheio, afinal, mesmo quem nunca pisou em um estádio é obrigado a perder o sono quando o time da casa balança a rede, tamanha é a algazarra de quem gosta. Isso sem falar quando a comemoração invade a madrugada... Não gostar de futebol é, definitivamente, uma opção que não compreendo. Mas respeito. E defendo ("até a morte", como diria Voltaire) este direito, Sinto profundamente pelos sonhos interrompidos com a nossa festa.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 19:37:10