
Até quando vai ser assim, Rio de Janeiro?
Lendo e ouvindo informações sobre o enterro do ex-presidente da Federação Estadual de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj), Eduardo Viana, inevitavelmente me veio à cabeça aquela cena clássica – e até mesmo clichê – dos parentes reunidos no velório em torno do corpo do falecido milionário, chorando copiosamente - como se quisessem provar que a sua dor é maior do que a dos outros – e, por cima dos óculos escuros, entreolhando-se desconfiados, numa espécie de “guerra-fria” da disputa pela herança.
Não é humor negro, falo sério. Como dizia a minha avó, “nem bem o sujeito desencarnou”, e as corridas de bastiores pela sucessão na presidência da Federação já começaram. Nem o sofrimento da família eles respeitaram. Nem mesmo a aura mista de morbidez e libertação dos cemitérios os intimidou. Nem o descanso profundo em que se encontravam os futuros vizinhos de Caixa d'Água foi motivo suficiente para adiar-lhes a necessidade de definirem nas mãos de quem estará o poder de agora em diante. A paz perpétua dos mortos foi incomodada pelos cochichos e conversas de corredoredor.
Triste é saber que essa pressa toda não é em preocupação ao futebol carioca, que agoniza e se não for urgentemente socorrido, em breve fará companhia ao seu ex-presidente – e nem vou falar da contribuição do dito cujo para a crônica situação atual do esporte bretão no Rio, porque prefiro deixá-lo subir ou descer em paz, com todo o respeito.
O mais trágico de tudo é constatar que a urgência em se definir entre Rubinho (Rubens Lopes), o vice-presidente, Hildo Nejar, o preferido de Viana, ou a convocação de novas eleições não tem como objetivo central a recuperação do esporte no Estado, mas a pura e simples tomada do poder por um grupo ou por outro. O que está em jogo não são dois projetos antagônicos de planejamento e investimento – palavras que, talvez, sequer pertençam ao vocabulário dos personagens em questão – e sim a rivalidade dos que anseiam por mais poder e influência no futebol carioca.
Diante de duas possibilidades tão entranhadamente semelhantes entre si, salvo pequenos detalhes, e que significam nada além do continuísmo à administração anterior, que sabidamente apresentava "falhas" - para não provocar a ira dos que se foram - fica difícil acreditar que o futebol carioca tem a possibilidade de renascer agora.
Vai demorar algum tempo, ainda, para que o torcedor possa estufar o peito e dizer com orgulho: "a cartolagem do meu Estado atua com seriedade". A sorte é que seus vizinhos também não têm tido lá muito o que comemorar e, nivelamento-se por baixo, não vai ser surpresa sealgum time do Rio chegar en tre os primeiros.