Quando, ao certo, o Corinthians entrou na minha vida eu não sei dizer. Possivelmente muito antes de eu nascer. Mas me lembro, como se fosse hoje, da primeira em que meu ilustre coração corinthiano pulsou descompassado e eu entendi que ser corinthiano é mesmo um caminho sem volta. Graças à Deus.
Hoje (dia 1º de setembro) é um dia especial para a nação corinthiana. Há 96 anos, um grupo de homens humildes se reuniu no bairro do Bom Retiro para dar vida a esta paixão. Impressionados com o time homônimo inglês que fazia excursão pelo país, batizaram-na com o nome que até hoje nos arrepia só de escutar: Sport Clube Corinthians Paulista. Arrepiou, não foi?
Nada melhor do que esta data para olharmos para trás e nos lembrarmos dos bons e maus momentos. Nada melhor do que o aniversário do clube mais apaixonante do mundo para fecharmos os olhos com força e revivermos, no coração e na alma, a primeira vez que sentimos a atração irreversível que o Timão exerce sobre nós. Sendo assim, tomo a liberdade de compartilhar com vocês este momento mágico da minha vida.

“Foi em 1988. Eu tinha, então, seis anos de idade. Venho de uma família de são-paulinos: mãe, irmãos, tios e avós, além de meu pai, que é bugrino (coitado, esta foi a primeira vez que eu vi o meu time vencendo o dele). Mas, inexplicavelmente, eu já me autodeclarava corinthiana. As pessoas rebatiam: 'você não é corinthiana, nem acompanha futebol', mas eu nem ligava, sabia que era e isso me bastava. Eu sabia que amava o Corinthians, sempre soube. Só que até aquela final inesquecível, contra o Guarani, eu ainda não tinha dimensão das proporções gigantescas daquele sentimento que dura até hoje.
Ainda era criança, mas me lembro como se fosse agora. Eu morava perto do estádio, então a festa parecia que estava dentro da minha casa, de tão altos que eram os gritos. Eles até hoje ecoam no meu ouvido e, se fecho os olhos, sou capaz de ver as bandeiras alvinegras tremulando. A nação corinthiana de mãos dadas numa corrente imaginária. Olhos fixos e voltados para uma só e mesma direção: o gramado do estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas. Coração batendo a mil.
Parece que está acontecendo neste momento, meu Deus! É tudo tão vivo dentro de mim que dá um nó na garganta e um friozinho me percorre a espinha. Estádio lotado. Quase cinqüenta mil corações sincronizados, batendo no mesmo compasso. Tuntum-tuntum-tuntum. Corinthians X Guarani. Final de campeonato. Noventa minutos de jogo. Zero a zero. O juíz apita. Acabou o jogo. E agora? Prorrogação. Expectativa.
Eu não entendia direito o que estava acontecendo, mas sentia que para mim era importante que o tal Corinthians vencesse aquele jogo. A imagem na televisão mostrava pessoas chorando, desesperadas. Pensei que não era justo que o Corinthians, tão importante na vida daqueles milhares de rostos sofridos, perdesse. Não, não era certo aquela multidão fiel padecendo daquela forma.
Fechei os olhos e não vi mais nada. Tive vontade de chorar também, mas não chorei. Rezei. Reuni todas as minhas forças e pedi a Deus que o tal do Coringão marcasse um gol logo e acabasse com aquela angústia. Pedi à Ele que não permitisse que o povo simples espremido no concreto da arquibancada, voltasse para a casa com o coração doendo. E nem eu que, irreversivelmente - sem me dar conta de como, por quê, ou desde quando, - já fazia parte daquela nação.
Me lembro direitinho: minha família reunida na sala, com os dedos cruzados. Corinthians no ataque. 'Cruza o dedo para a bola não entrar, Pê'. Não cruzei, eu queria que a bola entrasse. 'Ah, você é sempre do contra!'. Até que aconteceu.
Assim, da maneira mais incrível e fantástica do mundo, Deus atendeu o meu pedido. Viola, que depois veio a se tornar o meu grande ídolo de infância, afundou a bola na rede bugrina: Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool!!!!
Pronto, agora o coração explodia no peito feito fogos de artifício. Desconfio que os santos, lá no céu, também vibraram de emoção nessa hora. Foi a cena mais linda que vi na vida.
As pessoas se abraçavam e se beijavam sem sequer se conhecerem. Não precisavam se apresentar. Compartilhavam da mesma euforia desmedida, e isso era tudo. E a festa ficou ainda mais contagiante quando o juiz apitou o final do jogo e nós, corinthianos, pudemos enfim suspirar aliviados. Nessa hora, fui tomada por uma sensação metafísica impossível de ser descrita. Nunca, nem antes e nem depois, eu vivi outra emoção daquela. Está aqui até hoje, guardada, pulsando e ressurgindo cada vez mais viva dentro do peito. Como se estivesse acontecendo de novo. Agora.
Ninguém mais se preocupou com isso, mas eu lembrei. Olhei para o alto e agradeci. Percebi que a alegria entorpecente de ser Corinthians não pode ser obra só dos homens. Há algo que ultrapassa a esfera terrena nesta nossa paixão desmedida. Depois olhei para o meu pai e, em silêncio, lhe pedi desculpas. Não queria vê-lo triste mas, também, não podia conter a alegria. Àquela altura, eu já era CORINTHIANA. Tarde demais. A partir daquele momento - ou bem antes dele, não sei dizer - a minha vida passou a ser mais feliz, porque o Corinthians existe".
Peço desculpas por ter tomado tanto a tua atenção. A culpa é do meu coração, que se empolga quando fala do Timão. Agora, depois desta deliciosa recordação, não tenho mais nada a dizer, senão: PARABÉNS, CORINTHIANS! Obrigada por você existir.
Um brinde à nação coritnhiana.
Penélope Toledo