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Ajustando os ponteiros do futebol
O tocedor que no início do Campeonato se orgulhava de saber na ponta da língua a escalação de seu clube já não tem mais do que se envaidecer. Com a constante ida e vinda de ténicos e jogadores – sobretudo com a abertura das negociações para a próxima temporada do futebol europeu – vai ser difícil alguém ter certeza de qual será o perfil das equipes daqui para a frente. Uma coisa, porém, eu espero que ninguém duvide: é extremamente danoso para o futebol nacional essa flutuação interminável.
Alguns times perderam seus atletas para o Departamento Médico. Ossos do ofício. Contusões são acidentes de trabalho e, como tais, acontecem indiscriminadamente. Claro que algumas equipes parecem ser mais suscetíveis a esses contratempos, mas é mera impressão. O fato é que, por mais insubstituível que um craque possa parecer (no grupo e no coração da torcida), deve-se sempre ter no elenco substitutos à altura. Um grande time, como se sabe, não pode ostentar apenas onze bons jogadores. Os imprevistos fazem parte da vida da gente.
Há, também, aqueles clubes que se desfizeram de seus treinadores ou boleiros como conseqüência dos maus resultados obtidos. À primeira vista a iniciativa parece acertada, afinal, se não está dando certo é necessário que se faça mudanças. Mas os precipitados se esquecem de que os placares adversos, em muitas vezes, são resultado da falta de entrosamento do elenco. Assim, quanto mais alterações são feitas, menor a possibilidade de ajustamento e sintonia. A desastrosa atuação canarinha na Copa evidencia que de nada adianta uma constelação se não houver coesão no grupo.
Mas a boa seqüência de resultados também não é determinante para que um profisional se mantenha no clube, ao contrário, em vários casos ela é a grande responsável por desatar esses laços. E se é verdade que “em time que está ganhando não se mexe”, como afirma a máxima esportiva, então a transação acarretaria um prejuízo incalculável. Bom, sim e não. Não, porque com as conquistas vem a valorização do passe do jogador, de forma que sua transferência encha os cofres do time. Sim, porque desmancha-se um grupo coeso e vitorioso, daqueles que não se reconstitui facilmente, sendo que a quantia obtida dificilmente se reverte em melhoras ou novas contratações. Na balança, geralmente o ônus supera o bônus. Como em quase tudo.
Em virtude de algum destes fatores – ou de todos eles - há clubes com dficuldade em repetir seguidamente a mesma escalação ao longo da competição. O resultado disso, como se vê, é um futebolzinho inexpressivo, recheado de passes errados, placares enxutos, jogadas sem criatividade e pontapés criminosos na bola e nos adversários. O pobre torcedor, coitado (sempre ele...), precisa mergulhar em seu âmago e se nutrir da paixão desenfreada que sente pelo time para não aposentar a camisa do clube. Acompanhar o futebol, nos dias de hoje, é antes de tudo um ato de fé.
A grande debandada de craques durante a competição, porém, acontece com a abertura das portas do Velho Continente. Por isso é que deixei este item por último. Os mais atentos devem ter penasdo: “Ela se esqueceu”. Antes fosse. Basta abrir o jornal pela manhã que o que houver de amnésia desapareça. Não tem jeito, quando incia a época de “caça” das principais potências do futebol europeu, os olhinhos de muitos jogadores no Brasil começam a brilhar e a imaginação a rola solta. Aí é que os problemas acontecem.
Quando o mercado europeu começa a sugar os atletas brasileiros, feito um imenso aspirador que vai engolindo tudo o que encontra pela frente, é um tal de jogador querendo mostrar futebol, um tal de jogador querendo se poupar de contusões, um tal de jogador forçando negociações... Tomados pela ânsia incontrolável de vestiar a camisa de clubes europeus - quaiquer que sejam eles – e de receberem seus salários em euro, muitos boleiros viram às costas à torcida que os acolheu de peito aberto.
Fico pensando: se o Brasil é o único pentacampeão do mundo, e se é daqui o melhor jogador de todos os tempos, por que nós é que temos que nos ajustar ao calendário europeu e não o inverso? Imagine a lógica oposta: as equipes brasileiras começam e terminam seus campeonatos com o mesmo grupo e, ao final da temporada, iniciam a etapa de negociações. Do outro lado do mundo, onde ninguém reúne a mesma fartura de craques, eles se degladiam para nos enviar seus atletas e obterem belos exemplares dos nossos - mesmo com seus torneios em andamento. Afinal, suas equipes que se virem para entrosarem o elenco na metade da competição.
Engraçado? Pois penso justamente o contrário: é triste. É doloroso constatar que, no mundo da bola, quem dá as cartadas é quem dispõe de mais recursos financeiros e não de jogadores habilidosos. Isso porque, apesar de eles não se darem conta, pois estão bastante entorpecidos com fama e riqueza, também a eles não pertence a sua habilidade. As grandes potências européias a compram, utilizam como bem entendem, sugam até a última possibilidade e nos devolvem o bagaço, quando já não precisam mais. Definitivamente, é hora de ajustar os ponteiros do futebol mundial.