Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

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Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2006, 14

13.09.06

A REBELDIA

 Juízo demais

 
"Portanto,não percam a coragem, porque ela traz grande recompensa”
(Hebreus 10,32-35)


    Uma frase constantemente repetida no futebol é aquela: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A origem da declaração é desconhecida e provavelmente bastante antiga mas, ironicamente, ela parece ressurgir cada vez mais atual. A cada dia que se passa, os poderosos ficam mais mandões e os ajuizados, mais silenciosos. Em uma carreira tão efêmera quanto a de um boleiro – seja ele jogador ou técnico – fazer “vista grossa” aos soberanos parece estar sendo a solução mais sadia para garantir a sobrevivência.

    Em alguns clubes quem manda é o presidente. E manda tanto, mas tanto, que se sente no direito de extrapolar suas funções naturais e acumular também a de treinador. Não é de hoje que em clubes como o Vasco da Gama, o dirigente máximo se intromete até mesmo na escalação do time. Isso sem falar nas ameaças públicas feitas a jogadores e declarações infelizes aos meios de comunicação – como se a imprensa também estivesse inserida em seus domínios. Posso estar sendo retrógrada e assumo esse risco mas, para mim, presidente tem que presidir. É uma função político-administrativa, não técnica. Cada macaco no seu galho.

    O poder no futebol, como na sociedade, também está muito associado ao dinheiro. Assim, em clubes como Fluminense e Corinthians, dentre tantos outros, quem manda é o capital. Que se personifica, é claro, na figura do patrocinador. Recentemente, o comandante tricolor Oswaldo de Oliveira foi inesperadamente demitido do cargo, após colocar um jogador contratado pelo patrocinador no banco de reservas. Ele garante que houve pressão dos donos da grana para que a sua cabeça rolasse.

    No Timão a situação é ainda mais delicada, sobretudo porque não se sabe ao certo a origem das somas de quem manda. Fala-se até em lavagem de dinheiro. O fato é que as verdinhas existem e vêm em bastante quantidade. Diretamente proporcional é o poder do patrocinador, que assume uma série de funções incabíveis, como escolher os jogadores que serão contratados, autorizar liberações de atletas em treinos e jogos e conversar com a imprensa como se seus representantes fosses assessores. O patrocínio é um apoio financeiro em troca de visibilidade, não pode significar - em momento algum! - a propriedade do clube.

    O episódio talvez mais conhecido de intromissão foi protagonizado pelo ex-ditador Emílio Garrastazu Médice, que queria a convocação de Dario para a seleção brasileira. O tirano teve que engolir seco a resposta afiada do então treinador, o comunista João Saldanha: “Quem escala a seleção sou eu. O presidente escala seu ministério”.

    Mas a audácia geralmente tem um preço – e costuma custar caro. Depois de ter montado a base da seleção que se sagraria tricampeã do mundo, o técnico foi substituído por Zagallo. O Velho Lobo ficou com as honras da conquista no México todas para ele. A satisfação indescritível de se deitar a cabeça no travesseiro e ter a certeza de que jamais se curvou para os demandos de um general, porém, ficaram para Saldanha. E isso ninguém conseguiu lhe arrancar.

    Infelizmente, o ex-treinador da seleção era uma figura ímpar. E já não está mais aqui para afrontar as ordens. Hoje em dia o futebol carece de personagens assim, desajuizados. Nos dias atuais o esporte bretão está obediente demais, disciplinado demais, adestrado demais. Quem pode manda, e impera absoluto. E quase todo mundo tem juízo para obedecer. O mundo da bola suplica por alguém que desafie, que desacate, que aja à revelia das normas.

    Apesar de ser angustiante, porém, mantenho-me otimista: cedo ou tarde aparece um novo contestador que vire esse mundo de pernas para o ar. E vai ser gratificante ter esperado. Os mandões nem desconfiam, mas eles não podem tanto assim. Não adianta, o dinheiro não compra a rebeldia do Homem.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 21:28:26