Técnico por um dia
O brasileiro carrega em si um espírito de ténico de futebol. Não há quem não tenha na ponta da língua o seu elenco e a tática com o qual o time seria, com certeza, imbatível. Todos nós gostaríamos de, nem que fosse só por um dia, ser o treinador da seleção brasileira. Poder escolher os melhores e extrair-lhes o máximo de suas habilidades.
Eis que este momento de escolha e cobranças nos chega. Mas o estádio é outro, a competição é outra, os esquemas de jogo são outros. Bem mais sórdidos, vale dizer. O fato é que no domingo, 29 de outubro, cada cidadão brasileiro terá o seu dia de técnico e terá que convocar um presidente para o Brasil.
A diferença é que o treinador pode eleger vinte e três jogadores e você escala apenas um presidente. Assim, se o teu escolhido pisar na bola ou der canelada, não há como disfarçar. Não vai ter ninguém para compensar o anti-jogo. Além disso, você não convoca o presidente para um campeonato ou temporada, mas por seguidos e ininterruptos quatro anos. Muita bola rola durante esse tempo.
Por isso é que cada cidadão-técnico tem que acompanhar de perto o seu atleta. Não adianta colocá-lo em campo e correr para o vestiário. Tem que ficar próximo às quatro linhas para orientá-lo. Incansavelmente. “Cai mais pela esquerda, presidente!” ou “Mais atenção com a Corrupção! Force a marcação em cima dela!”.
Aliás, uma das partidas mais difíceis do Brasil tem sido contra a Corrupção. Este time é bem estruturado, ataca com despudor e tem vencido de goleada. Nenhum dos dois aspirantes à vaga no time principal atuou nesta equipe, pelo menos não que se tenha notícias.
Mas Alckmin bem que andou tabelando com ídolos do clube e demonstrou entrosamento, Lula, por sua vez, levou bola pelas costas porque subestimou o adversário. O atual dono da posição não acompanhou de perto os lances e quase deixou o gramado contundido mas, como todo bom nordestino, soube driblar a má fase.
E driblou tão bem que voltou com tudo para a partida contra a Fome, seu ex-clube. Apesar de não ter saído de campo com os três pontos, bateu um bolão e coroou a bela exibição marcando um golaço, o Fome Zero. A torcida vibrou enlouquecida nas arquibancadas.
Alckmin pisou na bola quando criticou o gol do companheiro (falta de espírito esportivo!), mas reconheceu o erro e resolveu que o acrescentaria ao seu repertório de jogadas. Precisa, agora, é treinar bastante, já que esta não é propriamente a sua habilidade.
Encarar a Violência também não foi o forte do tucano. Levou um chocolate! O PCC, principal atacante desta equipe tão bem armada, teve espaço demais para jogar. E criou bastante, exibindo todo o seu poderio ofensivo. Em contrapartida, Alckmin foi mais inofensivo do que a seleção de Parreira Naquele jogo contra a França. Só deu bola fora.
O petista também não fez lá a sua melhor partida, mas pelo menos se ofereceu para ajudar o companheiro na marcação. Se o outro tivesse aceito, talvez o Brasil pudesse ter arrastado a disputa para a prorrogação. Virar o jogo, infelizmente, ainda não seria possível.
Agora os dois jogadores estão aí, correndo por uma vaga na equipe do país. O fã-clube Lula é grande, mas Alckimin também distribui autógrafos. Este último começou a entrar mais duro, às vezes de forma até desleal, quando percebeu que Lula é o queridinho do povão que freqüenta a geral.
Essas apelações às vésperas da decisão foram mais criminosas do que carrinho por trás. Cartão vermelho na certa. Não, mais que isso. Um time que atua assim deveria ser eliminado da competição e o rival vencer por WO. Não adianta querer ganhar no grito, o povo quer ver é bola na rede.
Dia 29 é a grande finalíssima. E está chegando. O tempo é curto e cada técnico brasileiro precisa aprimorar o seu potencial olheiro para definir qual dos dois aspirantes merece a vaga. Qual deles se encaixa melhor no esquema de jogo que você considera vencedor.
Eu não poderia deixar de declarar aqui - e onde mais precisar - que no meu time joga o Lula. Por ser paulista, tive a oportuniadde de acompanhar Alckmin, desde os tempos em que era reserva de Mário Covas. Definitivamente, seu futebol não me agrada. Não quero que o meu Brasil atue pela direita e, tampouco, que a privatização de estatais seja a principal jogada do meu presidente.
Tudo bem que Lula não está em sua melhor fase. Na última temporada eu diria que ele foi, no máximo, um bom jogador. Mas estava fora de posição, caindo muito pelo centro. Jogando na esquerda, como nos tempos do ABC, Lula é craque. E tem estrela.
Por isso, mesmo que o gol demore a sair e a bola insista em bater na trave, no ínício, mesmo que Lula tome um outro franguinho e que erre as cobranças de pênalti, no começo, mantenho-me otimista. Se o atual presidente jogar tudo o que sabe, a vitória brasileira é inevitável. Ele tem garra, raça e joga limpo. Para ele, não tem bola perdida.
Sendo assim, se Lula entrar em campo com amor à camisa e colocar o coração no bico da chuteira, tem tudo para brilhar. E eu, torcedora apaixonada pelo Brasil que sou, vou estar na arquibancada, pronta para vibrar.