O Futebol Decobrindo o Mundo
“Eu poderia viver preso dentro de um casca de noz e me sentir rei de espaços infinitos, se não fossem os maus sonhos que tenho.” (Hamlet – Shakespeare)
A goleada do Barcelona sobre o América do México, pelas semifinais do Mundial de Clubes da Fifa, não surpreendeu. Como também era previsível que a final da competição confrontasse os campeões da América do Sul e da Europa.
Tem sido assim desde a criação da Libertadores, em 1960 (à exceção da polêmica edição de 2000, quando o campeão do mundo foi decidido entre duas equipes brasileiras). E, considerando-se a disparidade de tradição e estrutura entre os continentes, o melhor do planeta deve continuar se alteranando entre os clubes filiados à Conmebol e Uefa nos próximos anos.
Isso significa que a nova fórmula do campeonato adotada em 2005, apesar de incluir representantes de todo o globo, não foge do lugar comum quando o assunto é resultado final. Ainda assim, entretanto, ela representa um avanço em relação ao modelo anterior.
É melhor porque supera a arrogância daqueles que sempre se consideraram a elite do futebol e durante tanto tempo sintetizaram o universo futebolístico a dois continentes. Como se existisse apenas um par de estilos de jogo ou se em apenas em dois cantos do planeta a bola fosse sagrada e arrastasse consigo uma multidão devota.
Durante todos esses anos os organizadores do Mundial ignoraram que muito àlém de suas vistas míopes, outros povos já praticavam o bom e velho esporte bretão. Se esqueceram que outras populações, a seu modo e com suas peculiaridades, já tratavam a redondinha com intimidade e carinho. Não se deram conta de que o canto transcendente de 'gol' já era emitido nos mais diversos idiomas.
O mundo conhece o futebol há bastante tempo. Agora finalmente chegou o momento do futebol romper o cordão umbilical e descobrir que não é só na América do Sul e na Europa que há vida futebolística. E me refiro à vida cotidiana, do futebol praticado nos clubes e torneios regionais, e não ao evento festivo que colore a Terra há cada quatro anos.
É claro que a competição ainda não alcançou o seu formato ideal, se é que ele existe. O Mundial poderia incluir mais de um representante de cada continente, os times poderiam ser distribuídos em grupos e jogar entre si partidas de turno e returno, inclusive a final. Mas os custos de uma disputa assim se elevariam enormemente e talvez isso seja um sonho para o futuro.
É evidente, também, que ainda existe um abismo gigantesco entre essas duas pátrias” da bola e o restante do planeta. E o hiato não está simplesmente na estrutura tática – em que os times da “periferia”, em muitos casos, pecam pelo excesso de ingenuidade – ou na habilidade de seus protagonistas – porque o velho mundo e nossos “hermanos” que me desculpem, mas aí o futebol se resumiria a uma só nação.
A grande diferença está é na estrutura financeira dos times, que podem incluir ou sustentar em seus elencos craques como Ronaldinho Gaúcho, Fernandão e Deco, só para citar alguns brasileiros. Além de revelar talentos como o menino Alexandre Pato e Luiz Adriano, o que requer investimentos nas categorias de base.
Como esta 'superioridade' não é intrínseca ao futebol, e está ligada muito a mais a fatores externos do que internos, é possível que não se perpetue. Preventivamente, portanto, é melhor que não se substime ninguém.
A Inlgaterra, considerada a pioneira do futebol mundial, se recusou a participar das duas primeiras edições da Copa do Mundo por se considerar superior às outras seleções. Ela achava que já era a melhor do planeta e não precisava disputar a competição. Hoje, passados 76 anos, o Brasil é pentacampeão, enquanto os ingleses venceram apenas uma edição.
O Internacional entrou em campo favorito contra o al-Alhy e passou sufoco. Não me espantaria se tivesse perdido, assim como não me espantarei se na edição do ano que vem algum novato na competição surpreender. Afinal as zebras, tal qual o futebol, são universais.