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Futebol e a lenda do Rei Midas
O meu forte nunca foi Matemática. Desde os tempos da escolinha da Tia Cocota, meu rendimento em cálculos não era equivalente ao domínio das palavras. Sempre fui mais familiarizada com as letras que com os números e, quando mais zeros se acrescenta às somas, maior a minha confusão. Confesso, portanto, que não entendo muito de lógica numérica. Mas entendo da lógica social.
Não sou especialista em valores, mas me considero suficientemente capaz de compará-los. E de chegar à conclusão de que os US$250 milhões que David Beckham vai ganhar para atuar durante cinco temporadas no Los Angeles Galaxy é muito mais do que o que grande parte das famílias do planeta conseguem acumular durante toda a vida. Não é preciso ser especialista em Aritmética para constatar que US$1 milhão – valor aproximado que o meia inglês vai receber por semana – resolveria o problema de muita gente.
O “efeito-Rei Midas” do futebol, porém, não pára por aí. O técnico Parreira – pois é, aquele... – é outro que parece ter o dom de transformar em ouro tudo o que toca. Bem mais modesto, mas igualmente exorbitante, é o seu salário de US$ 254 mil ao mês para comandar a seleção da África do Sul. A quantia gerou polêmica pois, além de ser superior à remuneração que o presidente do país recebe em um ano, é contrastante com a realidade miserável do continente.
No Brasil a situação não é diferente. Aqui também os jogadores acumulam somas incompatíveis com a média salarial do trabalhador comum. Um exemplo gritante e bastante ilustrativo é o lateral-direito Coelho, do Atlético-MG, que disputou a última temporada como reserva do Corinthians. Mesmo praticamente não atuando, o jogador recebia mensalmente R$ 90 mil. O detalhe é que o salário mínimo é de R$ 350.
O mais impressionante disso tudo, o que mais espanto e horror me provoca é, sem dúvida, a banalização do absurdo. Fico perplexa diante da naturalidade com que o torcedor fala dessas quantias milionárias - valores que ele próprio dificilmente somará um dia. Como se fosse normal essa discrepância entre os salário do atleta e o do professor, do médico, do operário, do policial, do..., do..., do... Quando renuncia à capacidade de se indignar diante de tantos zeros, o torcedor aceita. E já nem mais se pergunta se alguém precisa mesmo de US$250 milhões para viver.
Diferentes, mas nem tanto
Que Corinthians e Palmeiras são absolutamente antagônicos entre si é inquestionável – e quem ousar defender o contrário instigará a fúria de ambas as torcidas. São paixões essencialmente confrontantes e inconciliáveis. Os dois clubes não têm praticamente nada em comum, exceto o mais triste: ambos vivem um momento histórico delicado. Além das campanhas pífias dos arquirivais no último Brasileirão, os inimigos estão às vésperas de suas eleições para o conselho deliberativo e sofrem da mesma falta de perspectiva.
Os primeiros a irem às urnas são os corinthianos. No próximo dia 14, a nação alvinegra terá que escolher entre o grupo de Dualib, a situação, ou o de Andrés Sanchez, a oposição. O atual presidente está há treze no comando - era marcada por muitas glórias, sim, mas também por obscuridade e problemas gravíssimos de gestão financeira. Sanchez, por sua vez, não parece ser a solução. O ex vice-presidente do Timão é amigo do iraniano Kia Joorabchian e durante muito tempo foi defensor ferrenho da parceria com a MSI. Ou seja, seria trocar seis por meia dúzia.
No outro Parque, o drama se repete. Também no alviverde, situação e oposição se assemelham de tal forma que se confundem e dificultam a dissociação entre um e outro. No dia 22 de janeiro, a chapa de Affonso della Monica tenta manter o poder diante da de Roberto Frizzo, apoiado por ninguém menos que o ex-presidente Mustafá Contursi. Lá a circunstância é muito parecida com a cena que George Orwell escreveu no clássico A Revolução Dos Bichos: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez. Mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.
Infelizmente os dois arquirivais se igualam no que há de mais negativo. Os corinthianos queriam que fosse assim só com o Palmeiras, para zombarem os adversários. Os palmeirenses, por sua vez, desejariam o caos apenas no Corinthians, para debochar dos oponentes. Eu, para falar a verdade, não queria que estivesse acontecendo com nenhum, porque são grandes times, vitimados pelas más administrações. E, ademais, nada como ambos estarem fortes e em igualdade de condições para reascender uma das rivalidades mais deliciosas do futebol brasileiro.
O que, lamentavelmente, não vai ser conquistado através destas eleições para o conselho deliberativo e nem da de presidente, no próximo ano.