Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Arquivo de: Janeiro 2007

26.01.07

O PATRIMÔNIO

categorias: CARIOCA, VASCO, ÍDOLO
Deixa o homem marcar gols!


             A Fifa decretou: Romário não pode disputar o Estadual do Rio de 2007, porque o regulamento proíbe que um mesmo atleta defenda mais de dois clubes no prazo de um ano. Como o atacante atuou pelo Miami FC e pelo Adelaide, da Austrália, não pode vestir oficialmente a camisa do Vasco, seu atual clube, fato que o distancia enormemente do sonho de alcançar o milésimo gol da carreira.

           A decisão aparentemente tem respaldo legal, pois se fundamenta em regras claras e aplicáveis a qualquer jogador. Mas há uma falha conceitual, que passou despercebida à vista míope da entidade máxima do futebol, mas nunca deixou de ser captada pelos olhos pulsantes do torcedor: não estamos falando de “qualquer jogador” e sim de Romário. Que, na pior das hipóteses, é gênio e não apenas esportista.

           “Jogador de futebol” é um termo muito genérico, incabível à biografia do Baixinho. Equipará-lo aos mortais que povoam o esporte bretão mundo afora seria demasiada ingratidão com os pés abençoados que, dentre outras artimanhas, salvaram a seleção canarinha do fiasco de ficar fora de uma Copa do Mundo - e, de quebra, ainda conquistaram o tetracampeonato para o Brasil. Seria, definitivamente, uma grosseria irremediável com aquele que conhece tão bem o caminho do gol que sagrou-se artilheiro do Cariocão por cinco anos consecutivos e, não bastasse, foi o maior goleador do Brasil aos 39 anos.

     Romário e a bola mantêm uma relação profunda de cumplicidade, como se já se conhecessem de vidas passadas. Como se um dia tivessem formado um único ser – uma criatura meio andrógina, sendo a bola uma extensão dos pés do Baixinho - e estivessem condenados a perseguir eternamente a metade separada pela fúria dos deuses (que provavelmente detestavam futebol). Assim, o atacante e a redondinha se procuram incansavelmente, pois só assim se completam para fazerem a alegria das arquibancadas.

         Por tudo isso é que eu discordo da Fifa. Ele quer fazer gols? Pois então que os faça, e em grande quantidade! O torcedor quer isso mesmo: ver as redes balançando. Não pode haver mal em um jogador que anseia chegar ao milésimo tento (ainda que os números sejam contestáveis). Antes todo atacante estabelecesse para si semelhante meta. Aí pouparia os dirigentes de buscarem soluções para a miserabilidade de gols nas competições.

        Claro que em um time o jogador tem que priorizar a colaboração com o grupo, em detrimento de alcançar recordes pessoais. Mas já destacamos aqui que Romário não é boleiro e sim patrimônio esportivo do país. E, ademais, prejudicial mesmo ao futebol é o atacante que não marca, que não afunda as redes. Romário tá com fome de bola? Então, d
eixa o homem marcar gols!

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  • Postado em 08:48:38

18.01.07

O SALÁRIO

categorias: MUNDO, OUTROS ASSUNTOS

Futebol e a lenda do Rei Midas


        O meu forte nunca foi Matemática. Desde os tempos da escolinha da Tia Cocota, meu rendimento em cálculos não era equivalente ao domínio das palavras. Sempre fui mais familiarizada com as letras que com os números e, quando mais zeros se acrescenta às somas, maior a minha confusão. Confesso, portanto, que não entendo muito de lógica numérica. Mas entendo da lógica social.


     Não sou especialista em valores, mas me considero suficientemente capaz de compará-los. E de chegar à conclusão de que os US$250 milhões que David Beckham vai ganhar para atuar durante cinco temporadas no Los Angeles Galaxy é muito mais do que o que grande parte das famílias do planeta conseguem acumular durante toda a vida. Não é preciso ser especialista em Aritmética para constatar que US$1 milhão – valor aproximado que o meia inglês vai receber por semana – resolveria o problema de muita gente.


         O “efeito-Rei Midas” do futebol, porém, não pára por aí. O técnico Parreira – pois é, aquele... – é outro que parece ter o dom de transformar em ouro tudo o que toca. Bem mais modesto, mas igualmente exorbitante, é o seu salário de US$ 254 mil ao mês para comandar a seleção da África do Sul. A quantia gerou polêmica pois, além de ser superior à remuneração que o presidente do país recebe em um ano, é contrastante com a realidade miserável do continente.


      No Brasil a situação não é diferente. Aqui também os jogadores acumulam somas incompatíveis com a média salarial do trabalhador comum. Um exemplo gritante e bastante ilustrativo é o lateral-direito Coelho, do Atlético-MG, que disputou a última temporada como reserva do Corinthians. Mesmo praticamente não atuando, o jogador recebia mensalmente R$ 90 mil. O detalhe é que o salário mínimo é de R$ 350.


         O mais impressionante disso tudo, o que mais espanto e horror me provoca é, sem dúvida, a banalização do absurdo. Fico perplexa diante da naturalidade com que o torcedor fala dessas quantias milionárias - valores que ele próprio dificilmente somará um dia. Como se fosse normal essa discrepância entre os salário do atleta e o do professor, do médico, do operário, do policial, do..., do..., do... Quando renuncia à capacidade de se indignar diante de tantos zeros, o torcedor aceita. E já nem mais se pergunta se alguém precisa mesmo de US$250 milhões para viver.


  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 10:15:56

08.01.07

RIVAIS x ELEIÇÕES

Diferentes, mas nem tanto 

            Que Corinthians e Palmeiras são absolutamente antagônicos entre si é inquestionável – e quem ousar defender o contrário instigará a fúria de ambas as torcidas. São paixões essencialmente confrontantes e inconciliáveis. Os dois clubes não têm praticamente nada em comum, exceto o mais triste: ambos vivem um momento histórico delicado. Além das campanhas pífias dos arquirivais no último Brasileirão, os inimigos estão às vésperas de suas eleições para o conselho deliberativo e sofrem da mesma falta de perspectiva.

  

            Os primeiros a irem às urnas são os corinthianos. No próximo dia 14, a nação alvinegra terá que escolher entre o grupo de Dualib, a situação, ou o de Andrés  Sanchez, a oposição. O atual presidente está há treze no comando - era marcada por muitas glórias, sim, mas também por obscuridade e problemas gravíssimos de gestão financeira. Sanchez, por sua vez, não parece ser a solução. O ex vice-presidente do Timão é amigo do iraniano Kia Joorabchian e durante muito tempo foi defensor ferrenho da parceria com a MSI. Ou seja, seria trocar seis por meia dúzia.

 

            No outro Parque, o drama se repete. Também no alviverde, situação e oposição se assemelham de tal forma que se confundem e dificultam a dissociação entre um e outro. No dia 22 de janeiro, a chapa de Affonso della Monica tenta manter o poder diante da de Roberto Frizzo, apoiado por ninguém menos que o ex-presidente Mustafá Contursi. Lá a circunstância é muito parecida com a cena que George Orwell escreveu no clássico A Revolução Dos Bichos: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez. Mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. 

           

             Infelizmente os dois arquirivais se igualam no que há de mais negativo. Os corinthianos queriam que fosse assim só com o Palmeiras, para zombarem os adversários. Os palmeirenses, por sua vez, desejariam o caos apenas no Corinthians, para debochar dos oponentes. Eu, para falar a verdade, não queria que estivesse acontecendo com nenhum, porque são grandes times, vitimados pelas más administrações. E, ademais, nada como ambos estarem fortes e em igualdade de condições para reascender uma das rivalidades mais deliciosas do futebol brasileiro.

 

         O que, lamentavelmente, não vai ser conquistado através destas eleições para o conselho deliberativo e nem da de presidente, no próximo ano.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 16:39:59