Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

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Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2007

28.02.07

A IRONIA

Travessuras


          As cortinas do espetáculo futebolístico se abrem. A luz se faz. No centro do palco verde, o artilheiro e a bola. Outros jogadores estão a sua volta, mas não passam de meros coajuvantes. Todos os olhares estão voltados para os pés d’Ele. Que está pronto para brilhar e representar o seu melhor papel: o de goleador. Na platéia, a torcida ovaciona.

           Mas eis que um passo em falso, uma pisada mal calculada, um tropeço e... a tragédia se instaura. O ídolo se contundiu. Vai ficar fora por seis meses. No clímax de sua atuação, ele é obrigado a sair de cena. Agora serão seis meses à sombra dos holofotes. Seis meses sem aplausos, sem show, sem glórias, sem gols.

        Quando assisti ao lance que resultou na lesão de Obina, o xodó da nação rubro-negra, fiquei pasma. Muito menos pela forma boba com que aconteceu do que pelo azar em ser justo agora. Bem no auge de sua identificação com a torcida e afinidade com a bola.

         Fiquei pensando o quão é injusto é o futebol, que permite que um atleta se machuque no melhor momento de sua carreira, enquanto tantos outros pernas-de-pau esbanjam saúde e boa forma física irritando os torcedores.
  
          E essa busca por respostas me cresceu assustadoramente depois que Nilmar, regente da Fiel torcida corinthiana, se machucou outra vez. A promessa de alegria com o retorno do ídolo, que amargou longos meses fora dos gramados e distante da nação alvinegra, transbordou nas lágrimas de desconsolo do atleta ao ser retirado de campo. Não tem jeito, as duas maiores torcidas do país estão órfãs.

         Por isso é que eu acuso: o futebol é mesmo irônico. Parece que acontece de propósito, uma maldição que assola os boleiros que estão em evidência ou em sintonia com as arquibancadas. Exemplos não faltam na História do esporte bretão. Ídolos que, por capricho do destino, tiveram que interromper seu estrelato e adiar a sua coroação.

         Nem o Rei escapou. Na Copa de 62, na segunda partida (contra a Tchecoslováquia), Pelé sofreu uma distensão e disse adeus ao mundial. Bem, se o drama atingiu até majestade do mundo da bola, não seria diferente com os súditos.

          Alguns se recuperam a tempo de acertar suas contas com o esporte. É o caso do próprio eterno camisa 10 da seleção brasileira, que reinou soberano quatro anos depois, no México. Ou do “fenômeno” Ronaldo, que ressurgiu das cinzas em 2002 e nos trouxe o quinto caneco. E mesmo de Eto’o (aquele, que os flamenguistas juram que Obina seja melhor...).

         Mas não consigo parar de me questionar de onde vem essas contusões. Por que fatalmente acontecem? Quem se diverte com elas?

         A figura que tenho na minha cabeça é a um gigantezinho mimado e travesso, cujo brinquedo favorito é um tapete verde, onde estão dispostos onze homenzinhos e uma bola, como se fosse um enormíssimo campo de botão. E ele fica brincando com as pecinhas, tirando-as e recolocando-as no lugar, segundo as suas vaidades.

        Agora, se não for isso, então eu não sei mais o que pode ser...

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 16:42:40

04.02.07

A BASE

Meninos de Ouro


"Sabemos o que somos, mas não o que podemos ser."

(William Shakespeare)


          Não há uma fórmula universal, absoluta ou insuperável para a vitória no futebol – e tampouco na vida. Ela é alcançada das mais diversas formas, muitas vezes sem nem mesmo ser merecida. Mas uma coisa é inquestionável: investir nas categorias de base costuma proporcionar gratas recompensas. Em outras palavras, se não é a receita para o sucesso, pode-se dizer que acreditar nos meninos é ingrediente indispensável para alcançá-lo.


        A conquista do Campeonato Sul Americano pela seleção brasileira sub-20 nos leva a essa reflexão. Tudo bem que a rapaziada de Nélson Rodrigues não nos proporcionou um futebol convincente, capaz de encher os olhos do torcedor. Mas cumpriu seu papel – garantiu a vaga nas Olimpíadas de Pequim, em 2008 – e realçou jovens talentos como Alexandre Pato, Lucas, Luís Adriano, Cássio e Tchô. Enfim, uma geração que tem tudo para ser vitoriosa e trazer infindáveis alegrias ao povo brasileiro. É só uma questão de tempo.


         Aí é que mora o problema, porém. Afinal, tempo é uma palavra que não cabe no vocabulário inquieto desses adolescentes cheios de sonhos e hormônios, ansiosos em brilhar nos gramados. A palavra tempo também é desconhecida pelos cartolas, cujos olhos brilham só de pensar nas cifras que as "descobertas" significam. E o resultado disso é que os garotos são precocemente promovidos à profissionais, mesmo que a subida para o time principal não seja sustentável e depois de um tempo seja preciso rebaixa-los novamente.


          Claro que a História está repleta de exemplos de meninos prodígios. Pelé, na Copa de 58, fascinou o mundo com apenas 17 anos. Mas o Rei do Futebol é, evidentemente, uma exceção. Nesta idade o garoto não desenvolveu todas as suas potencialidades técnicas, nem assimilou os conceitos táticos e mesmo seu corpo ainda está em formação, assim como a sua estrutura emocional.


           E a falta de amadurecimento é sentida quando, não raro, esses talentos juvenis são tomados pelo deslumbramento ante a exaltação da torcida e se esquecem de jogar futebol – situação popularmente conhecida como salto alto. Ou, no outro extremo do problema, quando os rapazinhos não sabem lidar com a pressão impiedosa vindas das arquibancadas e se desmoronam. Se anulam com medo de tocar na bola e terem que encarar a fúria emanada do outro lado do alambrado.


         Outro perigo destas épocas de safra de jovens talentos – geralmente durante a disputa da Copa São Paulo – é o ataque dos clubes estrangeiros, essas pragas que rondam nossos meninos oferecendo-lhes dinheiro, sucesso e competições organizadas. A revoada dos jogadores sul-americanos para o Velho Continente é cada vez mais precoce e muitos atletas saem sem jamais terem atuado profissionalmente em sua própria pátria. Recentemente o Atlético de Madrid escandalizou o mundo da bola ao confirmar interesse pelo argentino Martín Acevedo, do Boca Juniors, de apenas 12 anos.


        Quem perde com isso é o torcedor latino, que vê suas competições nacionais sendo enfraquecidas pela evasão de seus principais protagonistas. Que é privado de conferir a habilidade desses ídolos precoces em solos nacionais. E que se contenta com a migalha de se deliciar com o futebol desses meninos à distância, pelas telas dos canais pagos da televisão. E tudo isso porque não se pode competir financeira ou administrativamente com os clubes estrangeiros, embora vençamos, indiscutivelmente, quando o assunto é renovação de craques.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 21:12:37