
A redenção de Maradona
“Foi um gol com a marca do gênio. Poucos jogadores no mundo seriam capazes de fazer, como Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Maradona e Pelé. Misturou talento e criatividade” (Carlos Alberto Parreira)
Um jovem craque argentino recebe a bola no lado direito de seu campo de defesa e arranca imponente em direção ao gol adversário. Como se tivesse um compromisso inadiável marcado com as redes rivais, vai deixando para trás todos aqueles que tentam inutilmente obstruir-lhe a passagem: um, dois, três, quatro... Não, nem o arqueiro e suas infinitas mãos poderiam conter-lhe naquele ímpeto fulminante, quase que predestinado. A arquibancada toda se silencia abestalhada, como que duvidando da cena que suas retinas acabarm de testemunhar. Uma verdadeira pintura! Ao final da exibição de gala, o habilidoso hermano estufa o peito com satisfação: acabara de assinar a autoria de um dos gols mais bonitos da História do futebol mundial.
Não, apesar das evidências a descrição não é do inesquecível gol de Maradona nas quartas-de-finais da Copa de 1986, contra a Inglaterra, e sim de Messi na vitória do seu Barcelona sobre o Getafe por 5 a 2, na Copa do Rei. Quero dizer, não é o mesmo gol para quem se prende à lógica terrestre que considera impossível que um mesmo tento seja registrado duas vezes, quaisquer que sejam as conjecturas. Para quem se desprendeu das amarras da concretude e já desconfia que o futebol extrapolha a razão, a coerência, a obveidade, o bom senso, a moral e os bons costumes, porém, aquele gol foi marcado por Dieguito. Afinal, quem arrisca tentar nos provar que aconteceu de verdade e não foi um delírio de Maradona no hospital Güemes, onde se encontra internado?
Porque o futebol tem destas coisas: traz o passado à tona. Nos faz engolir o antagonismo entre o que foi e o que poderia ter sido. Me custa crer que ao assistir à obra prima de Messi pela televisão, Maradona não deve ter se remetido, nem que seja por frações de segundos, ao seu prórpio gol – e à sua prórpia vida. Não teria ele em algum momento, mesmo que de relance, se arrependido das opções que fez e os rumos que tomou? Não teria ele preferido, ainda que num relapso, envelhecer com a dignidade a que tem direito um herói nacional? Talvez ele tenha desejado voltar no tempo e fazer diferente; ou não. Pouco importa, o fato é que algo no meu íntimo martela dizendo que é muita coincidência o gol brotar justamente no momento em que rumores atestam que o ídolo argentino teria tentado suicídio.
Para mim Deus quer dar-lhe outra chance. Porque o futebol também tem destas coisas: dar a oportunidade de tentar de novo, ainda que não seja através de experiências vividas por nós mesmos. Se Messi brilhar como promete, e se envelhecer como merece, Maradona terá se redimido da vida. E há de aplaudir em pé o companheiro – e a si mesmo. Seja lá onde estiver: aqui, no céu ou em algum outro lugar do universo. Sendo assim, torço para que tenha mais juízo desta vez o craque Diego Armando Messi.