Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2007

15.05.07

OS PÊNALTIS



Sentença

          Priiiiiiiiiiiii!, apita o juiz, o jogo acabou. Empate. E agora, quem é o campeão? Quem é que vai levantar a taça e dar a volta olímpica? Qual é a equipe que vai posar para a foto que se tornará pôster e estampará as capas dos principais jornais no dia seguinte? De qual time será o jogador que concederá entrevista na condição de herói do jogo e irá chorar emocionado diante das câmeras agradecendo ao apoio da família, da torcida e de Deus? Afinal, qual das duas torcidas que se insultam incansavelmente em lados opostos das arquibancadas vai festejar até o dia amanhecer?

       Ciente da necessidade de eleger um campeão, o árbitro convoca para junto de si o capitão de cada equipe. ”Eu quero cara”. “Tá, então eu sou coroa”. A moeda é arremessada ao céu. Cara-coroa-cara... o mundo dá mil voltas. Segundos com sabor de eternidade. A pequena placa metálica que rodopia pelos ares significa o êxtase ou a maldição de duas multidões devotas que têm naquela utopia a sua razão de viver. Significa também a glória ou a desgarça dos jogadores, a consagração ou o fracasso moraldo treinador, a coroação ou a demolição do trabalho que em muitas vezes se deu a duras penas.

          A moeda não baila sozinha pelo espaço. Carrega consigo a campanha impecável do time na competição, a longa seqüência de partidas invictas, o topo da tabela de classificação em todas as rodadas, a soma majoritária de pontos durante o torneio. Carrega a história do clube, as tantas derrotas amargadas, as outras tantas vitórias extravasadas, todos heróis santificados ou sacrificados, cada torcedor que, qualquer que seja sua lógica, abdicou de si prórpio em nome daquela paixão. Se cair a face errada, será o fim. Terá sido tudo em vão.

      E cada vez mais pesada com as responsabilidades que herda, a moeda vai perdendo a sua força. As voltas no ar vão diminuindo até que o espetáculo chega ao fim. Todos os olhos do mundo estão fixos na mesma direção. E eis que o juiz destapa a face que consagrará o vencedor. Deu... cara. O time A é o campeão! Euforia de um lado e dor do outro. O campeonato acabou e o time A levou o caneco. Fim. Nada mais pode ser feito, foi assim que o Céu quis.

      O jogador que escolheu coroa, coitado, é massacrado. Decisão infeliz a dele. Os insultos vêm de todos os lados: torcedores, imprensa, treinador e até os companheiros de equipe, que travestem a raiva pela perda do título em palavras de apoio. “Fica assim não, acontece. Só erra o 'cara-ou-coroa' quem arrisca”. E agora, como será? Com que 'cara' sair às ruas no dia seguinte? Como encarar os próprios filhos quando chegar em casa. Haverá a oportunidade de um dia ressarcir o clube pelo vexame?

          É evidente que uma decisão de campeonato não pode ser destinada aos caprichos de uma moeda. Ao jogo de 'sorte ou azar'. Mas a partida terminou empatada e a Federação não aceita dois campeões. Nem a torcida. Marcar um novo confronto (quem sabe os dois times não saíssem do 0 a 0...) também não dá: não haveria data no calendário esportivo. E, ademais, se o empate se perpetuasse os adversários se enfrentariam eternamente? É inviável. Então, se os homens sozinhos não souberam definir o campeão, deixa que os deuses definem (eles ou quem quer seja o controlador do acaso).


        Digo tudo isso para defender a abolição da decisão de campeonatos em cobranças de pênaltis. Tudo bem que a conversão de penalidades é menos casuística que o cara-ou-coroa, porque envolve a preparação, o treino de chutes, o estudo do estilo de cobrança do adversário e a consciência de que, senão totalmente, ao menos uma parcela do poder de definição está na esfera terrena. Nas mãos dos homens e não dos céus. Mas há que se considerar a influência emocional no momento da disputa, pois como bem disse o fabuloso Didi, autor da folha-seca: "treino é treino. Jogo é jogo".

    Um bom exemplo para ilustrar essa interferência do transcendental é o contraste entre o campeão paulista e o carioca (novamente esse antagonismo...). Na Terra da Garoa, o Santos tinha a vantagem de jogar por dois empates ou se beneficiar com os resultados iguais. Como perdeu o primeiro embate ante o São Caetano por 2 a 0, mas triunfou no segundo pelo mesmo placar, sua supremacia ao longo da competição foi determinante para lhe assegurar a taça.

        Já na Cidade Maravilhosa, o regulamento não previa a premiação da melhor seqüência no caso de indefinição do placar. Assim, a soberania da campanha botafoguense ruiu quando, após dois empates com o Flamengo (ambos em 2 a 2), Lucio Flavio e Juninho desperdiçaram suas coversões de pênaltis. O caneco foi para a Gávea.

           De qualquer forma, considero a disputa em pênaltis uma prática obscena bem menos por uma possível injustiça no resultado (já que sou defensora ferrenha da fórmula de mata-mata e isso seria uma incoerência injustificável), do que pela tortura mental que ela significa. Ao torcedor, ao técnico, ao atleta.

         Ao torcedor pela expectativa, pela imprevisibilidade em frações de segundo, pelo medo de se deparar com a verdade na impossibilidade de fugir dela. Prova disso é que muitos sequer conseguem assistir às cobranças. Ao técnico pela sensação de impotência, pelo encolhimento diante do inevitável, pela impossibilidade de proteger seus meninos. E ao atleta pelo tribunal que se instaura no estádio, pelo juri impiedoso das arquibancadas, pela demolição moral do fracasso, pela sentença irrecorrível aos carrascos do futebol: a memória coletiva.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 16:36:19

01.05.07

O CARIOCA


Rio X Sampa

        Na condição de paulista que mora no Rio de Janeiro, me sino à vontade para comparar os dois campeonatos que, cada qual a seu modo, muito me fascinam. E a exemplo do que acontece com os próprios Estados, o que me toca em cada um deles é justamente a diferença entre um e outro. No Rio de Janeiro gosto de contemplar as maravilhas naturais. Em São Paulo, de desfrutar dos encantos artificiais. No futebol carioca eu aprecio os grandes, que quando se enfrentam materializam o conceito de Clássico. No paulista, os pequenos, que constantemente surpreendem e dão forma à idéia de zebra.

        Clássico e Zebra são dois ingredientes indispensáveis no esporte bretão. Sem eles a receita inevitavelmente desanda, e o futebol fica insoso. Óbvio demais. Evidente demais. Previsível demais.

        Sim, é claro que a história do Carioca está repleta de Zebras, assim como a trajetória do Paulista inclui inúmeros Clássicos. Coisas da vida. Mas nos últimos tempos os grandes do Rio se equivalem, enquanto em São Paulo o time homônimo e o Santos levam vantagem (prova disso são os tabus). No Rio os pequenos pouco aparecem e quase não revelam talentos, mas em Sampa vez ou outra desbancam os favoritos (evidência disso são as conquistas na Copa do Brasil e o Brasileiro do Guarani em 1978).

         O primeiro jogo das finais de cada Estado ilustra bem isso: um embate de arrepiar de um lado, e uma saborosa surpresa de outro (os santistas naturalmente devem discordar...). E não importa o que aconteça no próximo domingo, isto é, se o Clássico ou a Zebra estarão em campo novamente, eles já assinaram seus nomes nas competições e nos ensinaram mais uma vez que o futebol transcende a lógica. Mas, se quiserem dar as caras outra vez, serão muito bem-vindos.



Clássico é Clássico. E vice-versa


           Imagine um jogo onde tudo pode acontecer. Onde a única certeza é a do espetáculo e ele sim, confirmou seu favoritismo. Imagine um duelo recheado de gols, bolas na trave, reações no minuto final de jogo, viradas sobre viradas, surpresas, tabus, revanches, recordes a serem alcançados e muita emoção. Lágrimas que se transformam em risos e certezas que se traduzem dúvidas. Imagine um confronto com belas jogadas, toques de classe, dribles desconcertantes, gols de encher os olhos. Em que bola á tratada com intimidade por quem fala o mesmo idioma. Imagine um embate onde uma multidão apaixonada se espreme atrás do alambrado com corações pulsando a mil. Torcendo com a alma. Sim, você está diante de um Clássico.

         Os confrontos entre os grandes do Rio nesta temporada foram qualquer coisa de muito lindo, de muito mágico. Verdadeiras dádivas. Somaram, ao todo, oito encontros. E a elástica marca de 33 gols, fora as disputas de pênalti. Mais de quatro gols por partida. Jogos para entrar na História, sem dúvida. Botafogo e Flamengo abriram a série de Clássicos com chave de ouro: 3 a 3. Deram logo seu recado: clássico é clássico. Com direito a virada e gol de placa. Fluminense e Vasco acharam pouco três gols para cada. Queriam mais: 4 a 4.

          Aí vieram as semifinais da Taça Guanabara e a promessa de um jogo dramático. A expectativa se confirmou e o empate em um gol levou a decisão para os pênaltis: Fla 3 a 1 Vasco. E dá-lhe tabu. Já pela Taça Rio, o Fluminense desperdiçou um pênalti e perdeu o jogo para o Botafogo por 1 a 0. Prova de quem nesse tipo de jogo o erro custa caro. Depois foi a vez do Gigante da Colina lavar a alma: 3 a 0 contra o algoz Rubro-Negro. Eis a redenção vascaína. O Tricolor também carimbou a faixa de campeão da Taça Guanabara conquistada pelo Flamengo: 2 a 1. Mas não foi de qualquer jeito não, foi de virada e com um gol aos 48 do segundo tempo.

         E a festa prosseguiu. Botafogo 2, Vasco 0, e Romário sem o milésimo gol. Isso é para aprender que em Clássico não existem coadjuvantes, só protagonistas. Já deveriam saber disso. Semifinais e novamente o Glorioso e Gigante se viram frente a frente. A chance da vingança. Não aconteceu (nem o troco e nem o tal gol mil; por centímetros). No jogo 4 a 4 e dez de cada lado, nos pênaltis 4 a 1 Fogão. Nascia aí o campeão.

    Enfim, é como dizem por aí: “Clássico é Clássico, e vice-versa”. A origem da frase é controversa, sua profecia é atribuída aos mais variados personagens mas, afinal, quem se importa com a imprecisão de algumas palavras diante da insensatez de um Clássico? Não importa quem criou a frase – e tampouco os Clássicos. O que vale são os gols, a emoção, o riso e choro que se alimentam desse imprevisto que só mesmo o futebol é capaz de proporcionar em doses tão embriagantes. Se eu fosse presidente, decretaria dia de Clássico como feriado nacional. E não quanto a isso eu não negocio.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 16:27:09