Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
<  Abril 2008  >
S T Q Q S S D
  1 2 3 4 5 6
7 8 9 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28 29 30        
Receba os posts
Terra Blog

Categoria: MEMÓRIAS/ CONTOS SOBRE FUTEBOL

05.08.07

O FUTEBOL FEMININO

O dia seguinte


           Nunca vi o Maracanã bonito daquele jeito. Os mais antigos juram – e os números atestam – que já esteve mais cheio e, quem sabe, até mais colorido. Mas os tempos, e o mundo, eram outros. Devido às brigas, aos horários, à evasão de nossos craques e a conseqüente má qualidade dos campeonatos, ao conforto do sofá da sala e próprio valor do ingresso, há tempos o Maraca não recebia tanta gente. E o mais fascinante é que aquele espetáculo mágico de bandeiras, bexigas, cantos, palmas e coreografias oriundo das arquibancadas reverenciava a seleção brasileira de futebol... feminino.


            E como jogam aquelas meninas! Jogam pra frente, com audácia, mais preocupadas em balançar as redes do que em não sofrer gols – e podem jogar ofensivamente porque perder, para quem é desacreditado, também não prejudica demais. Driblam, gingam, dão toques de efeito - e precisam jogar bonito, porque ainda estão convencendo aquela platéia de que o futebol também é feminino. Jogam como se brincassem, com irreverência, de forma alegre e espontânea - e estão certas em se divertir, porque afinal estão desfrutando de um prazer que foi negado às suas antecessoras. O futebol delas é tão brasileiro que contagia até mesmo os estúpidos que torcem o nariz para reconhecer que elas sabem tratar bem a bola.


           Pena que o jogo acabou (se bem que com uma bonita goleada por 5 a 0 e a medalha de ouro no peito). O Maracanã esvaziou, e pode demorar muito tempo para ficar bonito daquele jeito outra vez. A festa terminou, e possivelmente só se repita daqui há um ano, nas Olimpíadas, três, na Copa do Mundo, ou quatro, no próximo Pan. As pessoas foram embora para as suas casas e talvez nem se lembrem no dia seguinte – ou não se permitam lembrar - de que as mulheres protagonizaram naquela tarde o futebol mais bonito que suas retinas testemunharam nos últimos tempos. Pena que depois de todo êxtase, existe o dia seguinte.


(é como se, ao se curar de um porre, perceber que preferia estar entorpecido porque o mundo real é bem mais desconexo; por incrível que pareça).


           Mas um delírio pode mudar a vida das pessoas; ou não. Se mudar, elas vão entender que já está mais do que na hora do Brasil criar ligas e federações de futebol feminino; de realizar regularmente campeonatos; dos clubes possuírem departamentos específicos, montarem equipes e profissionalizarem as suas atletas; dos patrocinadores investirem e nos ajudarem a manter aqui no país as nossas craques; da imprensa transmitir, divulgar e informar sobre as competições; do torcedor lotar as arquibancadas para prestigiar as belíssimas exibições, não apenas quando a vitória vale a medalha de ouro.


            Se não mudar... bem, aí as pessoas vão continuar fazendo pouco caso da habilidade incontestável dessas meninas, a dar ouvidos para os ignorantes que estufam o feito para repetir a bestialidade de que "futebol pé coisa para macho" e ser jogadora de futebol no Brasil continuará sendo um ato isolado de otimismo; ou de amor.

 

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 14:38:26

31.08.06

A PRIMEIRA VEZ



A primeira vez que o Corinthians me emocionou

“E o infinito não é maior que o
meu amor. Nem mais bonito”
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)

    Quando, ao certo, o Corinthians entrou na minha vida eu não sei dizer. Possivelmente muito antes de eu nascer. Mas me lembro, como se fosse hoje, da primeira em que meu ilustre coração corinthiano pulsou descompassado e eu entendi que ser corinthiano é mesmo um caminho sem volta. Graças à Deus.

    Hoje (dia 1º de setembro) é um dia especial para a nação corinthiana. Há 96 anos, um grupo de homens humildes se reuniu no bairro do Bom Retiro para dar vida a esta paixão. Impressionados com o time homônimo inglês que fazia excursão pelo país, batizaram-na com o nome que até hoje nos arrepia só de escutar: Sport Clube Corinthians Paulista. Arrepiou, não foi?

    Nada melhor do que esta data para olharmos para trás e nos lembrarmos dos bons e maus momentos. Nada melhor do que o aniversário do clube mais apaixonante do mundo para fecharmos os olhos com força e revivermos, no coração e na alma, a primeira vez que sentimos a atração irreversível que o Timão exerce sobre nós. Sendo assim, tomo a liberdade de compartilhar com vocês este momento mágico da minha vida.


“Foi em 1988. Eu tinha, então, seis anos de idade. Venho de uma família de são-paulinos: mãe, irmãos, tios e avós, além de meu pai, que é bugrino (coitado, esta foi a primeira vez que eu vi o meu time vencendo o dele). Mas, inexplicavelmente, eu já me autodeclarava corinthiana. As pessoas rebatiam: 'você não é corinthiana, nem acompanha futebol', mas eu nem ligava, sabia que era e isso me bastava. Eu sabia que amava o Corinthians, sempre soube. Só que até aquela final inesquecível, contra o Guarani, eu ainda não tinha dimensão das proporções gigantescas daquele sentimento que dura até hoje.

Ainda era criança, mas me lembro como se fosse agora. Eu morava perto do estádio, então a festa parecia que estava dentro da minha casa, de tão altos que eram os gritos. Eles até hoje ecoam no meu ouvido e, se fecho os olhos, sou capaz de ver as bandeiras alvinegras tremulando. A nação corinthiana de mãos dadas numa corrente imaginária. Olhos fixos e voltados para uma só e mesma direção: o gramado do estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas. Coração batendo a mil.

Parece que está acontecendo neste momento, meu Deus! É tudo tão vivo dentro de mim que dá um nó na garganta e um friozinho me percorre a espinha. Estádio lotado. Quase cinqüenta mil corações sincronizados, batendo no mesmo compasso. Tuntum-tuntum-tuntum. Corinthians X Guarani. Final de campeonato. Noventa minutos de jogo. Zero a zero. O juíz apita. Acabou o jogo. E agora? Prorrogação. Expectativa.

Eu não entendia direito o que estava acontecendo, mas sentia que para mim era importante que o tal Corinthians vencesse aquele jogo. A imagem na televisão mostrava pessoas chorando, desesperadas. Pensei que não era justo que o Corinthians, tão importante na vida daqueles milhares de rostos sofridos, perdesse. Não, não era certo aquela multidão fiel padecendo daquela forma.

Fechei os olhos e não vi mais nada. Tive vontade de chorar também, mas não chorei. Rezei. Reuni todas as minhas forças e pedi a Deus que o tal do Coringão marcasse um gol logo e acabasse com aquela angústia. Pedi à Ele que não permitisse que o povo simples espremido no concreto da arquibancada, voltasse para a casa com o coração doendo. E nem eu que, irreversivelmente - sem me dar conta de como, por quê, ou desde quando, - já fazia parte daquela nação.

Me lembro direitinho: minha família reunida na sala, com os dedos cruzados. Corinthians no ataque. 'Cruza o dedo para a bola não entrar, Pê'. Não cruzei, eu queria que a bola entrasse. 'Ah, você é sempre do contra!'. Até que aconteceu.

Assim, da maneira mais incrível e fantástica do mundo, Deus atendeu o meu pedido. Viola, que depois veio a se tornar o meu grande ídolo de infância, afundou a bola na rede bugrina: Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool!!!!
Pronto, agora o coração explodia no peito feito fogos de artifício. Desconfio que os santos, lá no céu, também vibraram de emoção nessa hora. Foi a cena mais linda que vi na vida.

As pessoas se abraçavam e se beijavam sem sequer se conhecerem. Não precisavam se apresentar. Compartilhavam da mesma euforia desmedida, e isso era tudo. E a festa ficou ainda mais contagiante quando o juiz apitou o final do jogo e nós, corinthianos, pudemos enfim suspirar aliviados. Nessa hora, fui tomada por uma sensação metafísica impossível de ser descrita. Nunca, nem antes e nem depois, eu vivi outra emoção daquela. Está aqui até hoje, guardada, pulsando e ressurgindo cada vez mais viva dentro do peito. Como se estivesse acontecendo de novo. Agora.

Ninguém mais se preocupou com isso, mas eu lembrei. Olhei para o alto e agradeci. Percebi que a alegria entorpecente de ser Corinthians não pode ser obra só dos homens. Há algo que ultrapassa a esfera terrena nesta nossa paixão desmedida. Depois olhei para o meu pai e, em silêncio, lhe pedi desculpas. Não queria vê-lo triste mas, também, não podia conter a alegria. Àquela altura, eu já era CORINTHIANA. Tarde demais. A partir daquele momento - ou bem antes dele, não sei dizer - a minha vida passou a ser mais feliz, porque o Corinthians existe".

Peço desculpas por ter tomado tanto a tua atenção. A culpa é do meu coração, que se empolga quando fala do Timão. Agora, depois desta deliciosa recordação, não tenho mais nada a dizer, senão: PARABÉNS, CORINTHIANS! Obrigada por você existir.
Um brinde à nação coritnhiana.
Penélope Toledo
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 21:04:07

07.07.06

O LEAL

            


Herança do Mestre Telê

    O jogador desarma o adversário e inicia o contra-ataque. Com velocidade, conduz a bola para a outra metade do campo, e parte para cima do defensor. Dribla um, dois, três, até ficar frente-a-frente com o último zagueiro. Na entrada da área ele prepara o chute e... falta! Para não correr o risco de perder o lance, o beque preferiu desferir pontapés, ao invés de tentar roubar a bola. É comum o último homem “matar a jogada” desta forma? Não se ele for o Lúcio.

    O zagueiro da seleção brasileira conseguiu a proeza de ficar 384 minutos sem cometer qualquer tipo de infração na Copa, superando assim o recorde anterior, que era do paraguaio Gamarra. E, contrariando os que defendem que zagueiro tem que parar a jogada a qualquer custo – mesmo que seja na base de puxões de camisa e chutes na canela – Lúcio cumpriu exemplarmente o seu papel. Mesmo sendo leal aos adversários, ele foi um dos poucos destaques da seleção brasileira nesta edição do mundial.

    Para quem, como eu, é admirador confesso do futebol-arte e quer abolir definitivamente a violência do esporte bretão, o comportamento do nosso zagueiro foi louvável. Deveria servir de exemplo para os defensores do mundo inteiro. Os técnicos, antes das partidas, deveriam exibir uma fita com os lances de Lúcio para que seus jogadores entendessem que o futebol se vence é jogando limpo. Os defensores deveriam se inspirar no colega e treinarem melhor a roubada de bola, a antecipação, a marcação, a velocidade.

    Aqueles 384 minutos de paz ditados pelo jogador do Bayern de Munique me fizeram lembrar do mestre Telê Santana, um combatente ferrenho do anti-jogo. Telê sempre proibiu seus atletas de apelar para a violência e sempre determinou que jogassem o futebol ofensivo, criativo, que enchia os olhos do torcedor. É, onde quer que ele esteja neste momento, deve estar satisfeito em constatar que seus ensinamentos não se perderam todos. Ah, que saudades do Mestre Telê... Que Deus o tenha.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 20:39:27

06.07.06

CONTO DE FUTEBOL


Órfão
 

              

    Era a primeira partida do campeonato naquele ano. Maracanã lotado. Os torcedores, eufóricos, se acotovelavam no concreto da geral disputando os melhores lugares. Não queriam perder nada, nenhum lance, nenhum toque de bola, nenhum gol. Expectativa a mil. O técnico havia montado um timaço, quase uma seleção. Esse campeonato seria deles, sem dúvida. Bandeiras tremulando. Coração pulsando ao compasso do coro das arquibancadas. Últimos ajustes dentro e fora do campo. Píiii – o juiz apitou.

    O time partiu para o ataque. E com que maestria atacava! A bola parecia procurar os pés dos craques. Bola e jogadores travavam ali uma relação mútua de fidelidade. Logo aos cinco minutos do primeiro tempo, veio a consagração: gooool!, gritavam os torcedores espremidos na geral. E se abraçavam, e se beijavam... sem ao menos se conhecerem. Não precisavam se apresentar. Se entendiam. Falavam todos um mesmo e único idioma.

    Depois de noventa minutos arrasadores, num espetáculo indescritível de futebol como manifestação de arte - dois, três, quatro... a zero! – os torcedores se despediram. E marcaram o novo encontro:

    - Próximo domigão tá todo mundo aí de novo, né?

    E estavam. E no domingo seguinte também, e no outro... Todos os domingos, rigorosamente, às quatro horas da tarde, aquele grupo se reunia no concreto da geral para mais uma tarde de fortes emoções. De barriga vazia, sono atrasado, fadiga acumulada... não importava. Lá estavam eles, feito viciados, com seus olhares invariavelmente voltados para o gramado. Não conversavam sobre suas vidas particulares. Não contavam como tinha sido a semana, não compartilhavam os anseios profissionais, não lamentavam os problemas domésticos. Ali não era lugar para isso. Falavam apenas sobre futebol.

    O time não foi campeão naquele torneio. Fez uma campanha regular, que acabou unindo mais o grupo de torcedores. Na medida em que se consolavam e buscavam, juntos, justificativas para o fracasso, iam criando entre si uma espécie de cumplicidade que nem o final do campeonato poderia abalar. Ao término da última partida, alguém se lembrou de selar o novo encontro: "até o próximo campeonato". Sabiam que agora se reencontrariam sempre ali na geral. Que, irreversivelmente, já faziam parte da vida um do outro.

    E foi assim. Campeonato após campeonato. Até que um dia, inesperadamente, dois olhares se cruzaram. Ali, em meio àquela multidão vibrante, em meio aos gritos e tremulares de bandeiras, dois corações entenderam que tinham algo mais em comum além do futebol. Dois lábios cessaram o som que entoavam em coro com a massa e se tocaram. Com a mesma paixão com que se comemora um gol sofrido, arrancado aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.

    Inicialmente, o romance se restringia aos sagrados limites do estádio de futebol. Os enamorados reservavam todo o furor que sentiam um pelo outro para as tardes de domingo. Que eram duplamente especiais. Lá – e só lá! - eles podiam compartilhar a paixão pelo time e confundi-la com os seus próprios descompassos. Mas aí o sentimento foi crescendo e, com ele, a necessidade de novos encontros. Em outros cenários. Deveriam ter evitado que isso acontecesse.

    Marcaram de ir ao cinema. Pareciam contentes, acreditavam que estavam fazendo o certo. Ele foi esperá-la à saída da lanchonete onde ela trabalhava como garçonete. Estava ansioso. Chegou bem antes do horário combinado. Levou-lhe flores para surpreender. Planejava apresentá-la a sua família, casar, ter filhos... Mas quando a avistou ao longe, percebeu que não deveria ter ido.

    Vestida em seu uniforme, com saia prendada e gravata borboleta, ela era uma pessoa comum. Igualzinha às outras. Nem de longe lembrava aquele furacão que assistia aos jogos na geral do Maracanã. Era como se, de repente, tivesse soado a meia-noite e a Cinderela voltasse a ser a gata borralheira. O encanto havia sido quebrado. E ele foi obrigado a perceber que ela era uma mulher como tantas outras que conhecera na vida.

    Qual não foi seu sofrimento com a descoberta! Sentiu o peito encolhendo, o coração murchando, o infinito desabando sobre si. No fundo, preferia viver a ilusão infantil de que aquela mulher só existia ali no estádio. Nos dias de jogos. Queria acreditar que, quando a partida acabasse, ela e as outras pessoas do grupo emergissem para um outro mundo. Uma esfera em que os torcedores ficavam guardados até o próximo apito inicial.

    Mas a verdade estava ali, estampada à sua frente. Nua e crua. A namorada era uma pessoa normal. Que tinha vida pessoal, para além das tardes de domingos. Era alguém que trabalhava, estudava, tinha problemas financeiros, guardava cartas de ex-namorados e sentia medo de ladrão. A partir daí, ele nunca mais voltou ao Maracanã. Não suportaria. Preferiu assistir aos jogos em casa e elegeu para registrar na memória as imagens anteriores, em que os torcedores eram seres encantados. Pura e simplesmente torcedores, apenas isso.

    Anos mais tarde, quando leu no jornal que a geral acabaria por determinação da FIFA, não pôde deixar de se sentir órfão. Mesmo tendo passado tanto tempo ausente, sabia que ali deixara um pedaço importante de sua vida. Afinal, aquele fora o palco de muitos de seus melhores anos.
 
       E, como o bom filho à casa sempre torna, resolveu fazer uma última visita. Foi numa manhã chuvosa e nem era domingo. Ainda sim, podia jurar que ouviu gritos de gol e viu bandeiras se movimentando como quem diz adeus. Onde estariam hoje aquelas pessoas? Tanto faz. Para ele, estariam sempre ali. Imortalizadas. Mesmo que a geral deixasse de existir.


                  
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 09:34:26