Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Categoria: SÃO PAULO

17.03.07

O SACRIFÍCIO

 

Ofensas e gentileza, as duas faces de uma mesma moeda: o machismo


      No empate entre Santos e São Paulo, pelo Campeonato Paulista, o que me saltou aos olhos não foi a categoria com que ambas as equipes trataram a bola e, tampouco, o vandalismo desenfreado com que se comportaram os torcedores. O jogo foi bonito, é verdade, e a violência lamentável, é certo, mas esses dois itens foram ofuscados pela bandeirinha Ana Paula da Silva Oliveira. Ou melhor, foram secundarizados pelas duas formas antagônicas - mas essencialmente entranhadas – com que ela foi tratada dentro e fora de campo.

         O tratamento mais recorrente é a crítica exacerbada, afinal, a assistente errou ao anular um gol legítimo do Santos. Pronto, motivo suficiente para despertar a fúria machista que abriga o íntimo masculino. Como se ninguém antes dela jamais houvesse cometido tal equívoco - que, discussões de gênero à parte, não foi gritante a ponto de justificar tamanha revolta. Imaginem se ela tivesse a atuação de Marcelo Venito Pacheco, no primeiro jogo das finais da Taça Guanabara...

          Mesmo correndo o risco de parecer feminista devo dizer que a sensação que tenho é que muitos homens ficam à espreita, 'secando' as mulheres numa partidade futebol com sangue nos olhos, torcendo por um tropeço. Estão ali, só esperando um deslize, menor que seja, para se levantarem em côro contra a 'invasão' feminina ao que consideram seu território de propriedade privada. Quando amaldiçoam assim desproporcionalmente o erro, é como se dissessem: “onde já se viu uma mulher se meter em futebol?”.
 


        Mas algumas pessoas são mais sutis. O técnico santista Vanderlei Luxemburgo que o diga. A imagem exibida pelas TVs dizem tudo quando mostram um treinador enraivecido se levantando para protestar mas, logo em seguida, recolhendo toda a sua ira ao constatar quem está bandeirando é... Ana Paula.


 

       Oras, quanta gentileza! Ou Luxemburgo perdoou o gol anulado porque considera o erro natural, vindo de uma mulher, ou ele estava galanteando uma pessoa no exercício de sua função. E, como desconfio que sejam os dois, já vou logo apontando: não há diferença entre xingar e sorrir, se a motivação for a distinção sexual.


 

 

           Afinal, qual é a mensagem subliminar do 'cavalheirimo' de Luxemburgo? No fundo, esses excessos de gentileza, de zelo, de compreensão à falha da assistente – oras bolas, quem não se engana? - traduzem um machismo disfarçado. Um preconceito implícito, discreto, maqueado. Uma diferenciação fingindo ser outra coisa. E, mais que isso, um sentimento opressor de se sentir no direito de assediar impunemente o sexo feminino.


         Apesar deste contratempos, porém, que tendem a diminuir na medida em que as mulheres forem deixando de ser 'novidade' (assim espero), fico feliz em constatar que o sexo feminino está ocupando bravamente o seu espaço. O que não significa em medida alguma tomar o espaço masculino, já que mulheres e homens podem compartilhar irmanamente o futebol, assim como compartilham o mundo.


          Sendo assim, aplaudo em pé essas figuras corajosas que, mesmo que não se dêm conta disso, estão se expondo para abrir caminho as próximas que virão. Para que um dia as mulheres possam desfrutar impunemente do futebol, sem que sejam olhadas de rabo-de-olho ou vistas como intrusas. A história da emancipação feminina é repleta de personagens como este: que se sacrificaram para que um dia ninguém mais precisasse se sacrificar.



  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 22:24:00

23.11.06

O CAMPEÃO

São Paulo e o futebol paulista


        Não faz muito tempo, o Campeonato Brasileiro poderia ser considerado uma “extensão” do Paulista. Em 2004 e 1998, por exemplo, quatro dos cinco primeiros colocados na tabela final de classificação pertenciam à terra da garoa. Muita bola rolou de lá para cá, porém. Portuguesa caiu, Guarani caiu, Ponte Preta está na corda bamba e até o Palmeiras se equilibra como pode.

      Se o Paulista não retornar à Série A, São Paulo (não o time, o Estado) disputa o Brasileiro de 2007 com apenas quatro times, o mesmo número que o Rio de Janeiro. Ainda bem que os paulistas têm o São Paulo (desta vez, sim, o time).

      Com uma campanha inquestionável, o time do Morumbi trouxe a taça novamente “para o outro lado da Dutra”, com duas rodadas de antecipação. O desfile do tricolor pelo Brasileirão foi digno de aplausos: é a equipe que mais venceu, a que menos perdeu, a que mais balançou as redes na competição.

(Sem falar que foi o time que mais devotos arrastou aos estádios, mas aí já é outra história...). É, meu coração corinthiano não tem outra opção, senão humildemente reconhecer que o caneco está em boas mãos.
 
       Claro que não é só o São Paulo que está fazendo juz à tradição do futebol no Estado. O Santos corre por fora e, se não conseguiu ultrapassar os gaúchos, pelo menos deve representar o país na próxima edição da Libertadores.
 
       O próprio Paulista, na série B, depois da inenarrável goleada por 9 a 0, contra o Paysandu, já deu o seu recado: por ele Sampa mantém a vantagem de times no Brasileirão do ano que vem. Além disso, a Ponte Preta pode não ser rebaixada, embora nos dê a nítida impressão de que está “se esforçando bastante” para sê-lo.

      Mas para quem vivenciou os tempos aúreos, isso é pouco. Cadê o Corinthians, que tinha que estar brigando pelo bicampeonato? Cadê o Palmeiras, que deveria honrar a tradição alviverde? Cadê o São Caetano, que era praticamente imbatível no Anacleto Campanella? Mais que isso, onde está o Guarani, o único time do interior a se sagrar campeão nacional? Foi-se o tempo em que o futebol de Sampa era praticamente imbatível.

      Bairrismos à parte, porém, a vantagem dos paulistas para os outros Estados - com excessão dos gaúchos - permanece. E reside justamente nisto: o São Paulo F.C. está lá. E evidencia, a todo momento, que futebol se ganha é com investimento, com estrutura, com planejamento.

      À distância até se pode tapar os olhos, ignorar as evidências, dar às costas aos fatos. Mas quem convive diretamente com essa fórmula vitoriosa, inevitavelmente, perde o sono. E se vê tomado por pensamentos subversivos. "E se o meu time também se organizasse...?". "E se o meu time também...".

     Mais do que amaldiçoar o feito dos "pós-de-arroz", o que os outros clubes precisam é se inspirar nele. É entender que nem só a torcida são-paulina merece se esbaldar com uma geração vitoriosa. E precisam, também, agradecê-los por colorir o país com as cores do Estado e fazer a festa com o sotaque cantado. Graças ao SPFC, nós ainda podemos encher o peito e provocar os rivais: "De novo, o campeão é paulista".

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  • Postado em 12:21:50

25.08.06

O FISIOTERAPEUTA




A árdua tarefa de devolver o atleta aos gramados

    É ele quem está presente no momento mais difícil da carreira do atleta: quando se contunde e fica fora dos gramados. É ele, também, quem devolve ao boleiro o seu bem mais precioso: a possibilidade de jogar futebol. Estamos falando, é claro, do fisioterapeuta – aquele profissional que trabalha intensivamente de manhã, tarde, noite, domingos e feriados, para permitir que o jogador volte a dar alegrias ao torcedor. Mas o que será que pensam os fisioterapeutas que atuam no futebol?

    Para representar esta categoria de profissionais, nada melhor do que saber o que tem a dizer um de seus principais expoentes no Brasil: Luiz Alberto Rosan, fisioterapeuta da Seleção Brasileira e do São Paulo Futebol Clube. O trabalho vitorioso de Rosan é feito de ciência - que utiliza os recursos da eletroterapia, laserterapia e fisiologia, - paciência e repetição. Outro ingrediente indispensável na prática do fisioterapeuta da seleção é, sem dúvida, a paixão.

    Rosan é profundo admirador deste apaixonante esporte denominado futebol.

FUTEBLOG: Como é o trabalho que você desenvolve no futebol?
LUIZ ALBERTO ROSAN: A fisioterapia é a mais nobre das profissões, porque devolve o paciente às suas atividades normais. No futebol isso tem que ser feito de uma maneira rápida, porque a cobrança é enorme por parte da torcida, diretoria, mídia... Nós, fisioterapeutas, somos os que mais trabalhamos em uma equipe: tratamento intensivo pela manhã, tarde, noite, aos sábados, domingos e feriados. Nenhum outro membro da comissão tem uma atividade tão intensa.

FUTEBLOG: Você gosta mesmo de futebol ou começou a atuar no esporte "por acaso"?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Sim, eu gosto. O futebol é a maior democracia existente no planeta: ninguém sobrevive se não possuir um mínimo de talento. Nenhum outro esporte é mais emocionante, nenhum outro esporte congrega tantos ideais. O futebol é a verdadeira representatividade da paixão existente no homem.

FUTEBLOG: Como é a tua relação com os jogadores, técnico e
dirigentes?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Estritamente profissional. Procuro fazer valer a importância da fisioterapia para o futebol, seja com atletas dirigentes ou comissão técnica como um todo.

FUTEBLOG: Você se sente vivendo "à sombra" dos jogadores?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Não. Os astros são os atletas e quem pensar o contrário estará fadado ao fracasso. O fisioterapeuta não deve querer ser mais, deve é fazer o seu trabalho bem feito, o que já é muito difícil, e os atletas ficarão a mercê de seus cuidados. É interessante porque, quando lesados, é o fisioterapeuta que eles procuram. Às vezes, altas horas da madrugada eu recebo ligações do exterior pedindo orientações ou ajuda para um tratamento. Portanto, o segredo do sucesso é você não querer aparecer mais do que o necessário para desenvolver a prática dos recursos da fisioterapia.

FUTEBLOG: Em algum momento da tua vida você desejou ser jogador de futebol?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Sim, na adolescência. Porém, logo percebi que não tinha talento. Foi quando decidi seguir para uma profissão que pelo menos me aproximasse mais do futebol

FUTEBLOG: Qual é a média de valor da remuneração do fisioterapeuta no futebol?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Confesso que não sei a média do pessoal dos outros clubes, mas normalmente é pouco pelo que fazem e pelas responsabilidades de tratar de verdadeiros diamantes. No meu caso dizem que ganho muito, mas sempre acho que mereço mais.

FUTEBLOG: Como você foi selecionado para atuar na seleção
brasileira?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Busquei, perseverei, sofri, mas nunca desisti. Lutei minha vida inteira pela profissão, por um lugar neste meio, pelo seu reconhecimento. Trabalhei com mais de 50 treinadores, que conhecem meu trabalho e minha metodologia. Fui subindo degrau por degrau, ousando e arriscando sempre, até os dias de hoje. Não fiz lobby com a mídia, não movi um dedo sequer para estar na seleção, foi acontecendo de maneira
natural...

FUTEBLOG: Existe alguma história marcante que você viveu no futebol?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Tenho muitas histórias, daria até para fazer um livro. Mas aí teria que omitir o nome das pessoas, o que com certeza perderia a graça! Uma recente, quando o São Paulo F.C. se classificou para a Libertadores e um dos atletas, que já não se encontra mais no clube, vibrou intensamente dizendo que era sua chance de conhecer a Europa.

FUTEBLOG: E sobre a seleção brasileira, quais são as tuas recordações?
LUIZ ALBERTO ROSAN: Sobre a seleção eu às vezes me pego pensando que foi a mais bem planejada e organizada, e nem por isso obtivemos sucesso. Agora não tem mais jeito, é "página virada"...

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  • Postado em 17:33:25

11.08.06

O PREJUÍZO



O alto preço da irresponsabilidade

    Tudo bem que, quando o jogo é em casa, a responsabilidade pesa. Tudo bem que, quando o jogo é decisivo, a vontade de vencer é grande demais. Tudo bem que, quando o jogo está disputado, o sangue esquenta. Mas o jogador de futebol é um profissional, e não pode se deixar levar pelo calor do momento. O atleta precisa ter estrutura psicológica e emocional para perceber que a única forma de contribuir para a conquista do time é jogando um bom futebol. E para isso ele tem que estar em campo, não pode ser expulso.

    O boleiro receber o cartão vermelho porque dividiu um lance de forma mais dura, ou porque evitou uma situação real de gol é aceitável - embora controverso. O jogador ser colocado para fora de campo porque segurou o adversário que partia sozinho em contra-ataque ou porque fez pênalti bem na hora que o oponente ia chutar a gol, faz parte do jogo. Na equação futebolística, o prejuízo de atuar com um jogador a menos, em muitos casos, é menor do que o déficit de sofrer o gol. Portanto, ser expulso evitando a desvantagem no placar é um mérito, rotineiramente reconhecido e aplaudido pela torcida.

    Mas um jogador de futebol profissional ser expulso em jogo decisivo porque agrediu gratuitamente o adversário, em lance inofensivo e completamente distante do gol, ah, é inaceitável. Foi isso o que comprometeu a briga do Vasco da Gama pelo título da Copa do Brasil, já que a expulsão de Valdir Papel, logo aos 16 minutos de jogo, tornou ainda mais difícil a busca de uma vitória por três gols de diferença sobre o Flamengo.

    Foi isso, também, o que reconfigurou o jogo na final brasileira da Libertadores da América. Não me cabe aqui ficar tentando advinhar qual teria sido o placar, se Josué, do São Paulo, e Fabinho, do Inter-RS, não fossem expulsos. Mas uma coisa é certa: eles prejudicaram o seu time.

    Josué, porque o clube paulista começou o jogo atacando, e tinha tudo para partir para cima e sufocar o adversário, já que jogava em casa. Com a sua saída, porém, o meio de campo tricolor ficou gritantemente fragilizado (para não dizer aberto, escancarado). O resto da história os são-paulinos conhecem bem.

    E Fabinho, porque a equipe sulista perdeu a vantagem de estar com um jogador a mais em campo, o que seria altamente significativo no final do jogo, em que o cansaço pesa. Os gaúchos poderiam ter voltado para a casa com um placar mais elástico, para apenas carimbar a faixa de campeão ao lado de sua torcida. Do jeito que a situação está, agora, apontar antecipadamente o Inter como campeão seria muita imprudência. O título ainda não está definido. E poderia estar.

    Mas o prejuízo com a expulsão por violência gratuita não é só do time - que é obrigado a decidir com um atleta a menos, - só do técnico - que é levado a improvisar e nem sempre consegue bons resultados - ou só do próprio jogador - que além de ser multado, assisite ao jogo do vestiário. O prejuízo é do futebol.

    Porque agredir um colega de trabalho é antagônico à essência saudável do esporte. Quando isso acontece fora do contexto de jogo, então, é um crime hediondo, incompatível ao espetáculo. Não há argumentação plausível que justifique uma cotovelada, chute ou pisão depois do lance concluído. Pena que os clubes e as federações não punam rigorosamente os agresores e lhe cobrem pelo prejuízo ao time. E pena, também, que muitos torcedores apoiem este tipo de comportamento e encham a boca para dizer: “Fulano meteu porrada!!”.
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  • Postado em 12:56:47

22.07.06

O TORCEDOR


Representante das Arquibancadas

    Quando escrevi aqui que o uniforme do goleiro nunca é o que o torcedor usa nos estádios de futebol, (“A Redenção dos Goleiros”, em A MURALHA), algumas vozes se levantaram em defesa de Rogério Ceni, alegando que ele é o grande ídolo do são-paulino. Não contestei, porque é a mais absoluta verdade, mas argumentei que ele é uma exceção, já que não se prende aos limites da área.

 

        Procurei ilustrar minha opinião destacando que são os gols que ele marca – de pênalti ou falta – e não as defesas, o que enche os olhos do torcedor. Não é que eu ignore que o arqueiro tricolor seja um dos melhores do Brasil, porque isso é incontestável, mas achava que sua condição de ícone derivava do fato dele ser o “show man” do time. De representar, ele mesmo, um espetáculo à parte nos jogos. 

 

           Assistindo à disputa em pênaltis que garantiu o time do Morumbi na semifinal da Libertadores, porém, percebi que tinha sido demasiado simplista em meu raciocínio. O que torna Rogério Ceni a personificação do sentimento são-paulino é bem mais do que o meu coração corinthiano – e, portanto, incapaz de tomar a dimensão exata desta paixão tão antagônica à minha – poderia supor. 

 

          Quando ele se adiantou na cobrança de pênalti e defendeu o chute do jogad or do Estudiantes, retomando assim o empate nas finalizações (já que o meia Danilo não marcou o gol), entendi o que garante a este goleiro um lugar tão especial no coração tricolor: a identificação. Rogério fez o que cada um dos 13,3 milhões de são-paulinos teriam feito se tivessem a chance de estar debaixo daquela trave: garantir a vitória a qualquer custo.

 

             Claro que acho que se as regras existem, elas devem ser cumpridas e que, portanto, Ceni deveria ter esperado para escolher um dos lados. Mas o que me chamou a atenção foi que a atitude desesperada do goleiro era aboslutamente o reflexo do sentimento de pavor das arquibancadas. E é justamente esta sintonia dele com o torcedor o que mais me admira, mesmo sendo eu corinthiana.

 

            É a constatação de que ele é movido pelo mesmo feitiço e pela mesma devoção de que quem está do outro lado do alambrado. É a percepção de que sua emoção não poderia ser menos intensa do que a de nenhum são-paulino no mundo, assistindo ao time do coração dando um passo a frente na competição. Desconfio que Rogério Ceni, quando vê a festa nas arquibancadas, sente uma pontinha de inveja: é lá que, no fundo, ele deseja estar.

 

           Ele é uma espécie em extinção no futebol dos dias de hoje: o jogador-torcedor. O jogador que atua pelo time que torce e que, por isso, se entrega sem pudores, sabendo que qualquer resultado adverso machucará não apenas os outros, mas também a si mesmo. Com ele a torcida se sente representada em campo, como se fosse uma espécie de delegado eleito para ajudar o time. Qualquer torcedor, seja lá de que time for, se fosse retirado das arquibancadas e lançado ao gramado, se dedicaria como ele, sofreria e vibraria de forma igual e faria as mesmíssimas declarações diante dos microfones. Ele é, portanto, o torcedor a quem foi concedido o direito de entrar em campo.

 

            Muitos foram os exemplos de jogadores com este perfil na História do futebol. Uma figura marcante na minha infância foi o goleiro Ronaldo, que me permitia a ilusão de estar eu mesma em campo. Era um dos poucos goleiros a cumprir suspenão automática, tamanha era a sua devoção ao time. Nunca o consegui imaginar defendendo outra equipe, embora acredite que seu profissionalismo o levaria a fazê-lo da melhor maneira possível.

 

           Baseado neste meu exemplo, sou capaz de compreeder a admiração incondicional do são-paulino a Rogério Ceni. Eu já fui tomada pela mesma sensação de identificação. Além disso, Ceni merece o carinho que lhe é atribuído. Só que, sem querer ser desmancha-prazer, me sinto na obrigação de alertá-los: aproveitem bem, porque vai demorar pelo menos dez anos para vocês acharem outro goleiro assim.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 20:37:10