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Ofensas e gentileza, as duas faces de uma mesma moeda: o machismo
No empate entre Santos e São Paulo, pelo Campeonato Paulista, o que me saltou aos olhos não foi a categoria com que ambas as equipes trataram a bola e, tampouco, o vandalismo desenfreado com que se comportaram os torcedores. O jogo foi bonito, é verdade, e a violência lamentável, é certo, mas esses dois itens foram ofuscados pela bandeirinha Ana Paula da Silva Oliveira. Ou melhor, foram secundarizados pelas duas formas antagônicas - mas essencialmente entranhadas – com que ela foi tratada dentro e fora de campo.
Mas algumas pessoas são mais sutis. O técnico santista Vanderlei Luxemburgo que o diga. A imagem exibida pelas TVs dizem tudo quando mostram um treinador enraivecido se levantando para protestar mas, logo em seguida, recolhendo toda a sua ira ao constatar quem está bandeirando é... Ana Paula.
Oras, quanta gentileza! Ou Luxemburgo perdoou o gol anulado porque considera o erro natural, vindo de uma mulher, ou ele estava galanteando uma pessoa no exercício de sua função. E, como desconfio que sejam os dois, já vou logo apontando: não há diferença entre xingar e sorrir, se a motivação for a distinção sexual.
Afinal, qual é a mensagem subliminar do 'cavalheirimo' de Luxemburgo? No fundo, esses excessos de gentileza, de zelo, de compreensão à falha da assistente – oras bolas, quem não se engana? - traduzem um machismo disfarçado. Um preconceito implícito, discreto, maqueado. Uma diferenciação fingindo ser outra coisa. E, mais que isso, um sentimento opressor de se sentir no direito de assediar impunemente o sexo feminino.
Apesar deste contratempos, porém, que tendem a diminuir na medida em que as mulheres forem deixando de ser 'novidade' (assim espero), fico feliz em constatar que o sexo feminino está ocupando bravamente o seu espaço. O que não significa em medida alguma tomar o espaço masculino, já que mulheres e homens podem compartilhar irmanamente o futebol, assim como compartilham o mundo.
Sendo assim, aplaudo em pé essas figuras corajosas que, mesmo que não se dêm conta disso, estão se expondo para abrir caminho as próximas que virão. Para que um dia as mulheres possam desfrutar impunemente do futebol, sem que sejam olhadas de rabo-de-olho ou vistas como intrusas. A história da emancipação feminina é repleta de personagens como este: que se sacrificaram para que um dia ninguém mais precisasse se sacrificar.

São Paulo e o futebol paulista
Não faz muito tempo, o Campeonato Brasileiro poderia ser considerado uma “extensão” do Paulista. Em 2004 e 1998, por exemplo, quatro dos cinco primeiros colocados na tabela final de classificação pertenciam à terra da garoa. Muita bola rolou de lá para cá, porém. Portuguesa caiu, Guarani caiu, Ponte Preta está na corda bamba e até o Palmeiras se equilibra como pode.
Se o Paulista não retornar à Série A, São Paulo (não o time, o Estado) disputa o Brasileiro de 2007 com apenas quatro times, o mesmo número que o Rio de Janeiro. Ainda bem que os paulistas têm o São Paulo (desta vez, sim, o time).
Com uma campanha inquestionável, o time do Morumbi trouxe a taça novamente “para o outro lado da Dutra”, com duas rodadas de antecipação. O desfile do tricolor pelo Brasileirão foi digno de aplausos: é a equipe que mais venceu, a que menos perdeu, a que mais balançou as redes na competição.
(Sem falar que foi o time que mais devotos arrastou aos estádios, mas aí já é outra história...). É, meu coração corinthiano não tem outra opção, senão humildemente reconhecer que o caneco está em boas mãos.
Claro que não é só o São Paulo que está fazendo juz à tradição do futebol no Estado. O Santos corre por fora e, se não conseguiu ultrapassar os gaúchos, pelo menos deve representar o país na próxima edição da Libertadores.
O próprio Paulista, na série B, depois da inenarrável goleada por 9 a 0, contra o Paysandu, já deu o seu recado: por ele Sampa mantém a vantagem de times no Brasileirão do ano que vem. Além disso, a Ponte Preta pode não ser rebaixada, embora nos dê a nítida impressão de que está “se esforçando bastante” para sê-lo.
Mas para quem vivenciou os tempos aúreos, isso é pouco. Cadê o Corinthians, que tinha que estar brigando pelo bicampeonato? Cadê o Palmeiras, que deveria honrar a tradição alviverde? Cadê o São Caetano, que era praticamente imbatível no Anacleto Campanella? Mais que isso, onde está o Guarani, o único time do interior a se sagrar campeão nacional? Foi-se o tempo em que o futebol de Sampa era praticamente imbatível.
Bairrismos à parte, porém, a vantagem dos paulistas para os outros Estados - com excessão dos gaúchos - permanece. E reside justamente nisto: o São Paulo F.C. está lá. E evidencia, a todo momento, que futebol se ganha é com investimento, com estrutura, com planejamento.
À distância até se pode tapar os olhos, ignorar as evidências, dar às costas aos fatos. Mas quem convive diretamente com essa fórmula vitoriosa, inevitavelmente, perde o sono. E se vê tomado por pensamentos subversivos. "E se o meu time também se organizasse...?". "E se o meu time também...".
Mais do que amaldiçoar o feito dos "pós-de-arroz", o que os outros clubes precisam é se inspirar nele. É entender que nem só a torcida são-paulina merece se esbaldar com uma geração vitoriosa. E precisam, também, agradecê-los por colorir o país com as cores do Estado e fazer a festa com o sotaque cantado. Graças ao SPFC, nós ainda podemos encher o peito e provocar os rivais: "De novo, o campeão é paulista".
Representante das Arquibancadas
Quando escrevi aqui que o uniforme do goleiro nunca é o que o torcedor usa nos estádios de futebol, (“A Redenção dos Goleiros”, em A MURALHA), algumas vozes se levantaram em defesa de Rogério Ceni, alegando que ele é o grande ídolo do são-paulino. Não contestei, porque é a mais absoluta verdade, mas argumentei que ele é uma exceção, já que não se prende aos limites da área.
Procurei ilustrar minha opinião destacando que são os gols que ele marca – de pênalti ou falta – e não as defesas, o que enche os olhos do torcedor. Não é que eu ignore que o arqueiro tricolor seja um dos melhores do Brasil, porque isso é incontestável, mas achava que sua condição de ícone derivava do fato dele ser o “show man” do time. De representar, ele mesmo, um espetáculo à parte nos jogos.
Assistindo à disputa em pênaltis que garantiu o time do Morumbi na semifinal da Libertadores, porém, percebi que tinha sido demasiado simplista em meu raciocínio. O que torna Rogério Ceni a personificação do sentimento são-paulino é bem mais do que o meu coração corinthiano – e, portanto, incapaz de tomar a dimensão exata desta paixão tão antagônica à minha – poderia supor.
Quando ele se adiantou na cobrança de pênalti e defendeu o chute do jogad or do Estudiantes, retomando assim o empate nas finalizações (já que o meia Danilo não marcou o gol), entendi o que garante a este goleiro um lugar tão especial no coração tricolor: a identificação. Rogério fez o que cada um dos 13,3 milhões de são-paulinos teriam feito se tivessem a chance de estar debaixo daquela trave: garantir a vitória a qualquer custo.
Claro que acho que se as regras existem, elas devem ser cumpridas e que, portanto, Ceni deveria ter esperado para escolher um dos lados. Mas o que me chamou a atenção foi que a atitude desesperada do goleiro era aboslutamente o reflexo do sentimento de pavor das arquibancadas. E é justamente esta sintonia dele com o torcedor o que mais me admira, mesmo sendo eu corinthiana.
É a constatação de que ele é movido pelo mesmo feitiço e pela mesma devoção de que quem está do outro lado do alambrado. É a percepção de que sua emoção não poderia ser menos intensa do que a de nenhum são-paulino no mundo, assistindo ao time do coração dando um passo a frente na competição. Desconfio que Rogério Ceni, quando vê a festa nas arquibancadas, sente uma pontinha de inveja: é lá que, no fundo, ele deseja estar.
Ele é uma espécie em extinção no futebol dos dias de hoje: o jogador-torcedor. O jogador que atua pelo time que torce e que, por isso, se entrega sem pudores, sabendo que qualquer resultado adverso machucará não apenas os outros, mas também a si mesmo. Com ele a torcida se sente representada em campo, como se fosse uma espécie de delegado eleito para ajudar o time. Qualquer torcedor, seja lá de que time for, se fosse retirado das arquibancadas e lançado ao gramado, se dedicaria como ele, sofreria e vibraria de forma igual e faria as mesmíssimas declarações diante dos microfones. Ele é, portanto, o torcedor a quem foi concedido o direito de entrar em campo.
Muitos foram os exemplos de jogadores com este perfil na História do futebol. Uma figura marcante na minha infância foi o goleiro Ronaldo, que me permitia a ilusão de estar eu mesma em campo. Era um dos poucos goleiros a cumprir suspenão automática, tamanha era a sua devoção ao time. Nunca o consegui imaginar defendendo outra equipe, embora acredite que seu profissionalismo o levaria a fazê-lo da melhor maneira possível.
Baseado neste meu exemplo, sou capaz de compreeder a admiração incondicional do são-paulino a Rogério Ceni. Eu já fui tomada pela mesma sensação de identificação. Além disso, Ceni merece o carinho que lhe é atribuído. Só que, sem querer ser desmancha-prazer, me sinto na obrigação de alertá-los: aproveitem bem, porque vai demorar pelo menos dez anos para vocês acharem outro goleiro assim.