Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

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Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Categoria: COPA DO MUNDO

20.04.07

O GOLAÇO

categorias: COPA DO MUNDO, MUNDO, ÍDOLO


A redenção de Maradona

“Foi um gol com a marca do gênio. Poucos jogadores no mundo seriam capazes de fazer, como Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Maradona e Pelé. Misturou talento e criatividade” (Carlos Alberto Parreira)

        Um jovem craque argentino recebe a bola no lado direito de seu campo de defesa e arranca imponente em direção ao gol adversário. Como se tivesse um compromisso inadiável marcado com as redes rivais, vai deixando para trás todos aqueles que tentam inutilmente obstruir-lhe a passagem: um, dois, três, quatro... Não, nem o arqueiro e suas infinitas mãos poderiam conter-lhe naquele ímpeto fulminante, quase que predestinado. A arquibancada toda se silencia abestalhada, como que duvidando da cena que suas retinas acabarm de testemunhar. Uma verdadeira pintura! Ao final da exibição de gala, o habilidoso hermano estufa o peito com satisfação: acabara de assinar a autoria de um dos gols mais bonitos da História do futebol mundial.

    Não, apesar das evidências a descrição não é do inesquecível gol de Maradona nas quartas-de-finais da Copa de 1986, contra a Inglaterra, e sim de Messi na vitória do seu Barcelona sobre o Getafe por 5 a 2, na Copa do Rei. Quero dizer, não é o mesmo gol para quem se prende à lógica terrestre que considera impossível que um mesmo tento seja registrado duas vezes, quaisquer que sejam as conjecturas. Para quem se desprendeu das amarras da concretude e já desconfia que o futebol extrapolha a razão, a coerência, a obveidade, o bom senso, a moral e os bons costumes, porém, aquele gol foi marcado por Dieguito. Afinal, quem arrisca tentar nos provar que aconteceu de verdade e não foi um delírio de Maradona no hospital Güemes, onde se encontra internado?

         Porque o futebol tem destas coisas: traz o passado à tona. Nos faz engolir o antagonismo entre o que foi e o que poderia ter sido. Me custa crer que ao assistir à obra prima de Messi pela televisão, Maradona não deve ter se remetido, nem que seja por frações de segundos, ao seu prórpio gol – e à sua prórpia vida. Não teria ele em algum momento, mesmo que de relance, se arrependido das opções que fez e os rumos que tomou? Não teria ele preferido, ainda que num relapso, envelhecer com a dignidade a que tem direito um herói nacional? Talvez ele tenha desejado voltar no tempo e fazer diferente; ou não. Pouco importa, o fato é que algo no meu íntimo martela dizendo que é muita coincidência o gol brotar justamente no momento em que rumores atestam que o ídolo argentino teria tentado suicídio.

          Para mim Deus quer dar-lhe outra chance. Porque o futebol também tem destas coisas: dar a oportunidade de tentar de novo, ainda que não seja através de experiências vividas por nós mesmos. Se Messi brilhar como promete, e se envelhecer como merece, Maradona terá se redimido da vida. E há de aplaudir em pé o companheiro – e a si mesmo. Seja lá onde estiver: aqui, no céu ou em algum outro lugar do universo. Sendo assim, torço para que tenha mais juízo desta vez o craque Diego Armando Messi.


  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 15:37:07

10.07.06

AS CAMPEÃS PARTE II

categorias: COPA DO MUNDO, MUNDO
Fênix: a arte de ressurgir das prórpias cinzas





       A história da França nesta Copa do Mundo daria um ótimo enredo de novela: chegou desacreditada, abandonada, desprezada por quem deveria apoiá-la e sofreu bastante, sobretudo no início da trama. No começo deu tudo errado – o gol não saía, a vitória não vinha, a classificação para a próxima fase quase não aconteceu.
     
        E, para que a semelhança com as narrações folhetinescas ficassem ainda maior, a seleção francesa carregava um trauma do passado (a eliminação na primeira fase na Copa da Ásia). Isso, claro, depois de ter sido a melhor do mundo, quatro anos antes, com praticamente o mesmo grupo. Mas como em todo bom romance, os Bleus estavam determinados a recuperar a beleza que lhes fora roubada, e a despertar seu herói que estava adormecido – provavelmente vítima de alguma maldade dos vilões.
    
       E eis que surge Zidane. Forte, imponente, craque. O resto da história a gente já conhece bem: mandou a Espanha, do brasileiro naturalizado Marcos Sena, para a casa. Depois foi a vez de despachar os nossos canarinhos, que chegaram na Alemanha com pinta de campeão e saíram de lá como decepção. E, não contente, o herói desta Copa ainda derrotou Portugal, xodó dos brasileiros.
   
       Mas como esse papo de “final feliz” só funciona mesmo é em contos-de-fada, acabou perdendo nos pênaltis e voltando para a casa sem a taça. Mais que isso, o “mocinho” da nossa história se descontrolou e agrediu o zagueiro Matterazi. E, o que é pior, ele agora vai pendurar as chuteiras. Quer saber? Acho que esta final foi o castigo dos deuses, que não queriam que Zidane se aposentasse.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 14:55:23

AS CAMPEÃS Parte I

categorias: COPA DO MUNDO, MUNDO

Fênix: a arte ressurgir das próprias cinzas

    A campanha das duas finalistas deste Mundial – para mim, das duas campeãs; porque o jogo terminou empatado e a decisão em pênaltis é uma prática obscena, que deve ser definitivamente abolida do futebol – se assemelha no que há de mais positivo em ambas: a capacidade de juntar os cacos e formar um time vencedor. Ou, como diz a lenda de Fênix, de ressurgir triunfante das próprias cinzas.
 
             

    Comecemos com aquela que, oficialmente, sagrou-se campeã: a Itália. A “Azurra” chegou à Copa em meio a turbulências internas e denúncias de manipulação de resultados em seu Campeonato Nacional. Deixou para trás um país em caos e desembarcou na Alemanha disposta a recuperar a imagem do futebol que, por tantos anos, fascinou o mundo. O próprio técnico, Marcelo Lippi, era contestado pelos torcedores por seu suposto envolvimento nos casos de corrupção.

    O time comandado pelo zagueiro Cannavaro (aquele...) começou mal a competição e só venceu Gana, na estréia, porque o trio de arbitragem brasileiro cometeu uma lambança, se omitindo de marcar dois pênaltis claros para a seleção africana. E sem grandes brilhos se classificou em primeiro para as oitavas-de-finais, em que novamente contou com uma forcinha da arbitragem, no jogo contra a Austrália.

    Mas a Itália tinha um técnico audacioso, com coragem de fazer as modificações no time e superar a tradição de jogar na retranca.     Em alguns jogos, como na semifinal contra a dona da casa, chegou a escalar quatro atacantes. E assim a Itália chegou à decisão. Aí, contou com a ajuda dos deuses - que também devem ser adeptos ao futebol ofensivo – e a bola de Trezeguet bateu na trave, quicou no chão, e não entrou. Para delírio da seleção de Cannavaro, Buffon, Pirlo e cia.
 
    A Azurra soube dar a volta por cima e superar os seus problemas problemas internos. Nem mesmo a notícia da tentativa de suicídio do zagueiro Pessoto desviou o time de Lippi do caminho da vitória. Parabéns, Itália! Um dia você também chega a ser penta.

               

OBS: só espero que a conquista não abafe os escândalos de corrupção. Que as denúncias sejam apuradas e que os culpados sejam punidos. Isso é o que de melhor posso desejar aos campeões do mundo.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 14:30:46

O MATADOR

categorias: COPA DO MUNDO, MUNDO, ÍDOLO


Palpite Certo

    Antes da Copa começar eu participei de um bolão. Otimista, como grande parte dos meus conterrâneos, apostei no Hexacampeonato. E errei; conforme já sabemos. Acreditei que Kaká seria o grande destaque do torneio. Também errei. Achei que Brasil e Argentina pudessem ser a base da seleção da Fifa. Novamente eu errei. Ainda bem que apontei Klose como artilheiro. Ele foi o único que não em deixou na mão – e nem à sua seleção, embora tenha ficado sem o caneco.

    Se não fosse Klose, a esta hora eu estaria em crise existencial. Poderia chegar à conclusão de que não entendo nada de futebol e desistir do jornalismo esportivo. Antes mesmo de começar. Mas, graças ao atacante alemão, eu me permito acreditar que minimamente tenho noção do que é o esporte. Pelo menos sei reconhecer quem é matador.

    Sou grata à Klose. Menos por ele confirmar o meu palpite, do que balançar a rede cinco vezes. É pouco, nem a metade das treze balançadas por Fontaine, em 58. Mas em uma Copa em que os destaques individuais são os defensores, e em que comemorar gols foi um privilégio raramente concedido ao torcedor, sagrar-se artilheiro é estar na contramão dos fatos.
 
    Os mais antigos dizem que a bola procura os pés dos goleadores. Que ela reconhece quando será bem tratada. Que se emociona quando descansa na rede e faz a alegria da torcida. Se for isso mesmo, então as bolas, nos dias de hoje, devem estar agonizando. Coitadas. Se os antigos estiverem realmente certos, imagino que a bola também esteja agradecida à Klose. Tanto quanto eu.
    O atacante do Weder Bremen e seus companheiros fizeram bonito. Acreditaram no time e levaram o país inteiro junto. Convidaram o povo alemão a sentar na arquibancada e soltar o seu grito. Consolidaram, com as chuteiras, a reunificação das Alemanhas. O resultado disso é que, mesmo sem jogadores badalados, chegaram em terceiro. A ausência de grandes estrelas foi compensada pelo amor à camisa – e à pátria. E os alemãe souberam reconhecer isso.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 11:29:19

A BOLA FORA



Qual é a cor do futebol?

    Recentemente o líder da extrema-direita francesa, Jean-Marie Le Pen, assombrou o mundo ao declarar que seu país não se identificava com a seleção, já que muitos atletas eram “de cor”. Disse, também, que o técnico Raymond Domenech exagerou na proporção de jogadores negros. Le Pen deu a maior bola fora da Copa e teve que aplaudir em pé os bleus “colorindo” a Alemanha - ironicamente, um dos países mais racistas do planeta.

    Não é a primeira manifestação do tipo que ocorre no futebol mundial. E lamento prever que não deva ser a última. Um caso vivo na memória recente do brasileiro foi a prisão do argentino Desábato, acusado de racismo pelo são-paulino Grafite. O episódio foi polêmico e dividiu a opiniões. Não me cabe, agora, defender um ou outro – até porque não seria possível fazê-lo em tão pouco espaço; seria simplificar a questão, – mas uma coisa é certa: o futebol não tem cor. Ou melhor, tem sim. Ele é a fusão de todas as cores.

    Quem nunca sentiu a emoção indescritível de se sentar no concreto da arquibancada para torcer pelo seu time talvez não me entenda – e nisso Le Pen está perdoado. Só nisso. Mas quem já esteve lá algum dia compreende o que eu estou falando: o espetáculo é colorido. Alguém sabe me dizer qual é a cor exata do gol? Quem poderia me explicar a cor precisa da festa da torcida? Existe uma tonalidade que defina a sensação mágica de se conquistar um título?

    Não, o futebol é mais do que o político francês imagina. Muito mais. O esporte bretão comporta o negro – e tem no Rei o seu maior expoente, - comporta o branco – e o eterno camisa dez da Argentina está aí e não me deixa mentir, - comporta até mesmo aquele que é mais rosadinho. Ou o que tem vários tons. O verde do gramado, o azul do céu, o vermelho dos fogos, o colorido dos uniformes... o futebol só é belo porque tem várias nuances.

    Não sei bem qual é o time que estava no imaginário de Le Pen, mas acho estranho ele não se contagiar com o que Vieira, Thierry Henry e Zidane jogaram na Copa. Duvido que ele não tenha torcido o nariz quando Materazzi empatou o jogo para os italianos. Não posso acreditar que ele não sentiu aquele vazio característico de quem perde uma final de Copa do Mundo, quando a bola de Trezeguet bateu na trave. Para mim, que sou brasileira e fã o bom futebol, é inconcebível que alguém não se identifique com o futebol exibido pelos homens “de cor” do time de Zidane. E se isso realmente for verdade, então eu não tenho mais nada a dizer.

                                       

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 10:44:37