Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Categoria: INTERNACIONAL-RS

16.12.06

O FUTEBOL MUNDIAL

 
O Futebol Decobrindo o Mundo

Eu poderia viver preso dentro de um casca de noz e me sentir rei de espaços infinitos, se não fossem os maus sonhos que tenho.” (Hamlet – Shakespeare)

          A goleada do Barcelona sobre o América do México, pelas semifinais do Mundial de Clubes da Fifa, não surpreendeu. Como também era previsível que a final da competição confrontasse os campeões da América do Sul e da Europa.
 
         Tem sido assim desde a criação da Libertadores, em 1960 (à exceção da polêmica edição de 2000, quando o campeão do mundo foi decidido entre duas equipes brasileiras). E, considerando-se a disparidade de tradição e estrutura entre os continentes, o melhor do planeta deve continuar se alteranando entre os clubes filiados à Conmebol e Uefa nos próximos anos.
 
          Isso significa que a nova fórmula do campeonato adotada em 2005, apesar de incluir representantes de todo o globo, não foge do lugar comum quando o assunto é resultado final. Ainda assim, entretanto, ela representa um avanço em relação ao modelo anterior.
 
          É melhor porque supera a arrogância daqueles que sempre se consideraram a elite do futebol e durante tanto tempo sintetizaram o universo futebolístico a dois continentes. Como se existisse apenas um par de estilos de jogo ou se em apenas em dois cantos do planeta a bola fosse sagrada e arrastasse consigo uma multidão devota.
 
          Durante todos esses anos os organizadores do Mundial ignoraram que muito àlém de suas vistas míopes, outros povos já praticavam o bom e velho esporte bretão. Se esqueceram que outras populações, a seu modo e com suas peculiaridades, já tratavam a redondinha com intimidade e carinho. Não se deram conta de que o canto transcendente de 'gol' já era emitido nos mais diversos idiomas.
 
          O mundo conhece o futebol há bastante tempo. Agora finalmente chegou o momento do futebol romper o cordão umbilical e descobrir que não é só na América do Sul e na Europa que há vida futebolística. E me refiro à vida cotidiana, do futebol praticado nos clubes e torneios regionais, e não ao evento festivo que colore a Terra há cada quatro anos.
 
          É claro que a competição ainda não alcançou o seu formato ideal, se é que ele existe. O Mundial poderia incluir mais de um representante de cada continente, os times poderiam ser distribuídos em grupos e jogar entre si partidas de turno e returno, inclusive a final. Mas os custos de uma disputa assim se elevariam enormemente e talvez isso seja um sonho para o futuro.
 
          É evidente, também, que ainda existe um abismo gigantesco entre essas duas pátrias” da bola e o restante do planeta. E o hiato não está simplesmente na estrutura tática – em que os times da “periferia”, em muitos casos, pecam pelo excesso de ingenuidade – ou na habilidade de seus protagonistas – porque o velho mundo e nossos “hermanos” que me desculpem, mas aí o futebol se resumiria a uma só nação.
 
          A grande diferença está é na estrutura financeira dos times, que podem incluir ou sustentar em seus elencos craques como Ronaldinho Gaúcho, Fernandão e Deco, só para citar alguns brasileiros. Além de revelar talentos como o menino Alexandre Pato e Luiz Adriano, o que requer investimentos nas categorias de base.
 
          Como esta 'superioridade' não é intrínseca ao futebol, e está ligada muito a mais a fatores externos do que internos, é possível que não se perpetue. Preventivamente, portanto, é melhor que não se substime ninguém.
 
            A Inlgaterra, considerada a pioneira do futebol mundial, se recusou a participar das duas primeiras edições da Copa do Mundo por se considerar superior às outras seleções. Ela achava que já era a melhor do planeta e não precisava disputar a competição. Hoje, passados 76 anos, o Brasil é pentacampeão, enquanto os ingleses venceram apenas uma edição.
 
          O Internacional entrou em campo favorito contra o al-Alhy e passou sufoco. Não me espantaria se tivesse perdido, assim como não me espantarei se na edição do ano que vem algum novato na competição surpreender. Afinal as zebras, tal qual o futebol, são universais.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 09:13:44

17.08.06

O PRÊMIO



Nada acontece por acaso

    Quando afirmo que nada acontece por acaso, não estou me referindo a um suposto fatalismo da vida, em que os destinos estão traçados e pré-determinados, antes mesmo das pessoas nascerem. Como se o que tivesse que acontecer, acontecesse, sem que a ação humana - consciente ou não - pudesse interferir, evitar ou modificar a trajetória dos fatos.

    Há quem acredita nisto; e eu respeito. Mas não posso conceber a idéia que estava escrito nas estrelas que, um dia, a América do Sul seria pintada de vermelho, mas não mais pelo sangue derramado de seus povos historicamente massacrados, e sim com a brava conquista da Libertadores pelo Colorado. Independente de ser obra dos deuses ou dos homens, porém, o time do Inter mereceu a vitória e é com justiça o Dono das Américas.

    De qualquer forma, continuo insistindo que nada acontece por acaso. E explico: tudo é resultado de esforços, canalização de energias, entregas e renúncias, além de um minuncioso planejamento. O Internacional-RS não foi campeão porque “aconteceu e pronto”, ao contrário, a turma teve que, literalmente, suar a camisa para ganhar a passagem para Tóquio, onde disputará a final do Mundial de Clubes, contra o Barcelona.

    O próprio São Paulo, que desta vez não faturou, não chegou longe assim à toa. E, justiça seja feita, perdeu de cabeça erguida, lutando heroicamente até o último segundo. Me surpreendeu por não se abater com os gols sofridos, que aumentavam ainda mais a sua desvantagem, indo, por duas vezes, buscar o empate. O que, aliás, valoriza o título dos gaúchos.

    Não faz muito tempo, elogiei aqui o trabalho de preparação e investimento que está sendo realizado nestas duas equipes (“Derrubar mitos: a fórmula da vitória”, em O EXEMPLO). Na ocasião, me entusiasmei pela boa conciliação dos dois torneios, isto é, por estes clubes fazerem bonito tanto na Libertadores, quanto no Brasileirão, não priorizando nenhum. O resultado foi o campeão e o vice em um e, inversamente, o primeiro e o segundo colocado no outro, de forma que as duas equipes entraram em campo, ontem, com a tranqüilidade de saber que, mesmo perdendo, devem estar de volta à Sul Americana do ano que vem. É, não pode ser por acaso.

    Assim como não é por acaso que Inter e São Paulo têm sempre figurado entre os primeiros nos últimos anos e conquistados títulos impotantes, para o delírio de suas torcidas. Ronaldinho que me perdoe, mas arrisco dizer que do jogo de ontem saiu o novo campeão do mundo. Fazer o que se a bola prefere os clubes brasileiros?

    É, vai ser mesmo muito bonito ver o planeta todo reluzindo em vermelho. E, quando isso acontecer, o Brasil vai mostrar mais uma vez ao mundo inteiro que o futebol é bem mais bonito e vibrante do que eles supõem. Vai lá, Inter, vai para o Japão e ensina esse povo como é que se joga bola de verdade. Vai, Inter, e apresenta a esses pobres mortais o futebol-arte, em toda a sua magia e esplendor - porque eles não o conhecem. Vai lá, Colorado, porque nosso país é muito pequeno para a tua maestria. Que venha, então, a conquista do mundo!

 

OBS: Mas o trabalho acertado tem que ter seqüência. O planejamento vitorioso precisa prosseguir, para trazer mais alegrias ao torcedor e para impulsionar os outros clubes - e seleção canarinha! - a fazerem o mesmo: trabalhar visando metas claras e bem definidas.

Sendo assim, torço para que Inter e Sampa não desfaçam seus elencos agora que o passe dos jogadores está valorizado. Mas, confesso, tenho certa dificuldade em crer nisso.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 18:05:17

11.08.06

O PREJUÍZO



O alto preço da irresponsabilidade

    Tudo bem que, quando o jogo é em casa, a responsabilidade pesa. Tudo bem que, quando o jogo é decisivo, a vontade de vencer é grande demais. Tudo bem que, quando o jogo está disputado, o sangue esquenta. Mas o jogador de futebol é um profissional, e não pode se deixar levar pelo calor do momento. O atleta precisa ter estrutura psicológica e emocional para perceber que a única forma de contribuir para a conquista do time é jogando um bom futebol. E para isso ele tem que estar em campo, não pode ser expulso.

    O boleiro receber o cartão vermelho porque dividiu um lance de forma mais dura, ou porque evitou uma situação real de gol é aceitável - embora controverso. O jogador ser colocado para fora de campo porque segurou o adversário que partia sozinho em contra-ataque ou porque fez pênalti bem na hora que o oponente ia chutar a gol, faz parte do jogo. Na equação futebolística, o prejuízo de atuar com um jogador a menos, em muitos casos, é menor do que o déficit de sofrer o gol. Portanto, ser expulso evitando a desvantagem no placar é um mérito, rotineiramente reconhecido e aplaudido pela torcida.

    Mas um jogador de futebol profissional ser expulso em jogo decisivo porque agrediu gratuitamente o adversário, em lance inofensivo e completamente distante do gol, ah, é inaceitável. Foi isso o que comprometeu a briga do Vasco da Gama pelo título da Copa do Brasil, já que a expulsão de Valdir Papel, logo aos 16 minutos de jogo, tornou ainda mais difícil a busca de uma vitória por três gols de diferença sobre o Flamengo.

    Foi isso, também, o que reconfigurou o jogo na final brasileira da Libertadores da América. Não me cabe aqui ficar tentando advinhar qual teria sido o placar, se Josué, do São Paulo, e Fabinho, do Inter-RS, não fossem expulsos. Mas uma coisa é certa: eles prejudicaram o seu time.

    Josué, porque o clube paulista começou o jogo atacando, e tinha tudo para partir para cima e sufocar o adversário, já que jogava em casa. Com a sua saída, porém, o meio de campo tricolor ficou gritantemente fragilizado (para não dizer aberto, escancarado). O resto da história os são-paulinos conhecem bem.

    E Fabinho, porque a equipe sulista perdeu a vantagem de estar com um jogador a mais em campo, o que seria altamente significativo no final do jogo, em que o cansaço pesa. Os gaúchos poderiam ter voltado para a casa com um placar mais elástico, para apenas carimbar a faixa de campeão ao lado de sua torcida. Do jeito que a situação está, agora, apontar antecipadamente o Inter como campeão seria muita imprudência. O título ainda não está definido. E poderia estar.

    Mas o prejuízo com a expulsão por violência gratuita não é só do time - que é obrigado a decidir com um atleta a menos, - só do técnico - que é levado a improvisar e nem sempre consegue bons resultados - ou só do próprio jogador - que além de ser multado, assisite ao jogo do vestiário. O prejuízo é do futebol.

    Porque agredir um colega de trabalho é antagônico à essência saudável do esporte. Quando isso acontece fora do contexto de jogo, então, é um crime hediondo, incompatível ao espetáculo. Não há argumentação plausível que justifique uma cotovelada, chute ou pisão depois do lance concluído. Pena que os clubes e as federações não punam rigorosamente os agresores e lhe cobrem pelo prejuízo ao time. E pena, também, que muitos torcedores apoiem este tipo de comportamento e encham a boca para dizer: “Fulano meteu porrada!!”.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 12:56:47

20.07.06

O EXEMPLO



Derrubar mitos: a fórmula da vitória

    “O clube está priorizando o outro campeonato, por isso está tão mal neste”. Que atire a primeira pedra o torcedor que nunca recorreu ao argumento para justificar a má campanha do time. Nada mais natural, afinal, convencionou-se no futebol que a equipe que disputa simultaneamente dois torneios deve, necessariamente, priorizar um. O que é um absurdo.

    Um jogador não deve entrar em campo, se não for para dar o melhor de si. E se a equipe não tem condições físicas ou emocionais para duas competições, que reconheça isso publicamente: “Nós não temos estrutura para disputar dois campeonatos, então nos inscreveremos em apenas um”. É melhor do que desrespeitar a torcida, com uma campanha pífia. E o pior de tudo é que o torcedor engole a desculpa da prioridade, e ainda se utiliza dela - ao invés de questioná-la.

    Mas como toda verdade absoluta um dia se mostra insustentável, São Paulo e Internacional estão aí derrubando este mito. O time gaúcho venceu bem na Libertadores da América – 2X0, contra o equatoriano LDU – e se clasificou para as semifinais, além de estar em terceiro lugar do Brasileirão – colocação que lhe garante nova vaga na Libertadores. O tricolor paulista passou à proxima fase do torneio Sul Americano com um pouco mais de dificuldade – nos pênalitis, contra o argentino Estudiantes – mas em contrapartida é o líder do campeonato nacional. Em comum entre as equipes, além de estarem na briga pelos dois títulos, sem hierarquizá-los, está o fato de não se re renderem ao comodismo das desculpas esfarrapadas. Situação rara no futebol hoje em dia.

    É claro que uma rodada pode modificar tudo isso, e que Sampa e Inter podem “morrer na praia” e voltar para a casa sem nenhuma das duas taças. Nem todas as equipes que disputam um torneio sagram-se campeãs, isto é evidente. Mas seus torcedores saberão reconhecer o empenho e o profissionalismo dos atletas, que vêm atuando como se todos os jogos fossem decisivos, independente de sua visibilidade no cenário esportivo.

    Na última rodada do Brasileiro, Vasco e Flamengo - acobertados pelo o discurso de “poupar” os jogadores para a final da Copa do Brasil - entraram em campo com o time misto, e protagonizaram uma partida sem brilhos. Os agora semifinalistas da Libertadores, ao contrário, não fizeram corpo mole e jogaram com os titulares. O resultado das duas filosofias de trabalho tão antagônicas é facilmente perceptível na tabela de classificação do campeonato.

    O rival Corinthians também tem muito o que aprender com a administração são-paulina, afinal, os “copistas” Rogério Ceni e Mineiro se incorporaram imediatamente ao time, quando voltaram da seleção na Alemanha. No Parque São Jorge a situação foi bastante diferente... E agora os corinthianos têm que amargar a vice-lanterna, enquanto assiste ao time do Morumbi figurando na liderança, com 100% de aproveitamento como mandante de campo. Ao invés de amaldiçoar o tricolor, a Fiel deveria exigir de seu clube o mesmo profissonalismo e de seus jogadores, a mesma determinação em buscar a vitória. Porque quem acha que garra não se aprende, não deveria jogar futebol.


  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 12:42:10