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Ofensas e gentileza, as duas faces de uma mesma moeda: o machismo
No empate entre Santos e São Paulo, pelo Campeonato Paulista, o que me saltou aos olhos não foi a categoria com que ambas as equipes trataram a bola e, tampouco, o vandalismo desenfreado com que se comportaram os torcedores. O jogo foi bonito, é verdade, e a violência lamentável, é certo, mas esses dois itens foram ofuscados pela bandeirinha Ana Paula da Silva Oliveira. Ou melhor, foram secundarizados pelas duas formas antagônicas - mas essencialmente entranhadas – com que ela foi tratada dentro e fora de campo.
Mas algumas pessoas são mais sutis. O técnico santista Vanderlei Luxemburgo que o diga. A imagem exibida pelas TVs dizem tudo quando mostram um treinador enraivecido se levantando para protestar mas, logo em seguida, recolhendo toda a sua ira ao constatar quem está bandeirando é... Ana Paula.
Oras, quanta gentileza! Ou Luxemburgo perdoou o gol anulado porque considera o erro natural, vindo de uma mulher, ou ele estava galanteando uma pessoa no exercício de sua função. E, como desconfio que sejam os dois, já vou logo apontando: não há diferença entre xingar e sorrir, se a motivação for a distinção sexual.
Afinal, qual é a mensagem subliminar do 'cavalheirimo' de Luxemburgo? No fundo, esses excessos de gentileza, de zelo, de compreensão à falha da assistente – oras bolas, quem não se engana? - traduzem um machismo disfarçado. Um preconceito implícito, discreto, maqueado. Uma diferenciação fingindo ser outra coisa. E, mais que isso, um sentimento opressor de se sentir no direito de assediar impunemente o sexo feminino.
Apesar deste contratempos, porém, que tendem a diminuir na medida em que as mulheres forem deixando de ser 'novidade' (assim espero), fico feliz em constatar que o sexo feminino está ocupando bravamente o seu espaço. O que não significa em medida alguma tomar o espaço masculino, já que mulheres e homens podem compartilhar irmanamente o futebol, assim como compartilham o mundo.
Sendo assim, aplaudo em pé essas figuras corajosas que, mesmo que não se dêm conta disso, estão se expondo para abrir caminho as próximas que virão. Para que um dia as mulheres possam desfrutar impunemente do futebol, sem que sejam olhadas de rabo-de-olho ou vistas como intrusas. A história da emancipação feminina é repleta de personagens como este: que se sacrificaram para que um dia ninguém mais precisasse se sacrificar.



Diferentes, mas nem tanto
Que Corinthians e Palmeiras são absolutamente antagônicos entre si é inquestionável – e quem ousar defender o contrário instigará a fúria de ambas as torcidas. São paixões essencialmente confrontantes e inconciliáveis. Os dois clubes não têm praticamente nada em comum, exceto o mais triste: ambos vivem um momento histórico delicado. Além das campanhas pífias dos arquirivais no último Brasileirão, os inimigos estão às vésperas de suas eleições para o conselho deliberativo e sofrem da mesma falta de perspectiva.
Os primeiros a irem às urnas são os corinthianos. No próximo dia 14, a nação alvinegra terá que escolher entre o grupo de Dualib, a situação, ou o de Andrés Sanchez, a oposição. O atual presidente está há treze no comando - era marcada por muitas glórias, sim, mas também por obscuridade e problemas gravíssimos de gestão financeira. Sanchez, por sua vez, não parece ser a solução. O ex vice-presidente do Timão é amigo do iraniano Kia Joorabchian e durante muito tempo foi defensor ferrenho da parceria com a MSI. Ou seja, seria trocar seis por meia dúzia.
No outro Parque, o drama se repete. Também no alviverde, situação e oposição se assemelham de tal forma que se confundem e dificultam a dissociação entre um e outro. No dia 22 de janeiro, a chapa de Affonso della Monica tenta manter o poder diante da de Roberto Frizzo, apoiado por ninguém menos que o ex-presidente Mustafá Contursi. Lá a circunstância é muito parecida com a cena que George Orwell escreveu no clássico A Revolução Dos Bichos: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez. Mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.
Infelizmente os dois arquirivais se igualam no que há de mais negativo. Os corinthianos queriam que fosse assim só com o Palmeiras, para zombarem os adversários. Os palmeirenses, por sua vez, desejariam o caos apenas no Corinthians, para debochar dos oponentes. Eu, para falar a verdade, não queria que estivesse acontecendo com nenhum, porque são grandes times, vitimados pelas más administrações. E, ademais, nada como ambos estarem fortes e em igualdade de condições para reascender uma das rivalidades mais deliciosas do futebol brasileiro.
O que, lamentavelmente, não vai ser conquistado através destas eleições para o conselho deliberativo e nem da de presidente, no próximo ano.