Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Categoria: POSIÇÕES

25.07.06

O ESCOLHIDO



Boi-de-Piranha

    Dunga é o novo técnico da seleção brasileira. A notícia, bombástica, foi anunciada pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e quase me fez cair para trás. O nome do ex-capitão da seleção tetracampeã mundial chegou a ser mencionado pela Federação, mas treinadores como o polêmico Vanderlei Luxemburgo ou o passivo Paulo Autori eram os mais prováveis, depois da recusa do pentacampeão Luis Felips Scolari, para assumir o comando dos “canarinhos”.
 
     Ele, como não poderia deixar de ser, divide as opiniões. Em seu favor, está o fato de ter disputado três Mundiais (1990-94-98), além do inconfundível espírito de liderança e a coerência ímpar, infelizmente rara no universo futebolístico. Contra, estão a forte ligação com Parreira e Zagalo, os responsáveis pelo fracasso que ainda lateja em nossa memória, e a gritante inexperiência como treinador.

    Ainda é cedo para avaliar se a decisão foi acertada ou não. O fato de ter sido um grande jogador não influi diretamente na sua capacidade como técnico, assim como a inexperiência não é absolutamente determinante para o seu fracasso – e o alemão Klinsmann é a prova mais evidente disto. O que me chamou a atenção, porém, foi o oportunismo com que a escolha foi feita, isso é, o seu momento.
 
      Afinal, não é segredo para ninguém que a relação mais forte do torcedor é com o clube. A seleção seria uma espécie de romance passageiro, que serve apenas para consolidar o amor que sente pelo time de coração, este sim, um relacionamento duradouro e imbuído de altos de baixos. Por conta deste relacionamento mais sólido, o torcedor, neste momento, não está preocupado com Dunga ou com a Seleção Brasileira.

    Sejamos objetivos: às vésperas de uma decisão, os flamenguistas e vascaínos só têm olhos para a Copa do Brasil. Em “lua-de-mel” com o time, e também na expectativa de jogos perigosos, os colorados e são-paulinos suspiram apenas para a Libertadores. Amargurando a lanterna do campeonato, os fiéis corinthianos sofrem simplesmente com o Brasileirão. Não menos aflitos com a possibilidade de rebaixamento, os torcedores de Fortaleza, Santa Cruz, Palmeiras, Ponte Preta, Atlético-PR e Botafogo não se podem permitir a extravagância de pensar em Brasil. Até mesmo os torcedores, cujos times figuram na disputadíssima Série B, sonham apenas com o doce momento do retorno à elite do futebol nacional. Dunga que me perdoe a franqueza, mas não há lugar para ele – pelo menos por enquanto – no coração do torcedor brasileiro.
   
      Até porque essa história de novo técnico da seleção me lembra muito a do “boi-de-piranha”, no Pantanal, em que um boi era eleito para ser sacrificado – geralmente o mais velho ou machucado do rebanho – e, assim, salvar os demais. Segundo a lenda, um boi era atirado ao rio, para atrair a atenção e fúria das piranhas, enquanto os outros atravessavam as águas sem serem atacados.
 
     Enquanto o que resta da fúria brasileira se dilui, favorecido pela necessidade de atenção que os clubes exigem, mantém-se o novato no comando. Até a próxima Copa do Mundo, que só será daqui há quatro anos, muitas cabeças e bolas ainda poderão rolar. Até Felipão, que rejeitou a seleção amarelinha, poderá voltar quando seu contrato com Portugal – que vai só até 2008 – romper. Tudo é possível no mundo da bola.
   
          Mas, vejam bem, não estou afirmando nada. São apenas suposições, acreditem. Nenhum representante da CBF se deu ao trabalho de me confidenciar o que quer que seja, e infelizmente ainda não desenvolvi a capacidade de adivinhar pensamentos. Seria tão mais fácil, se fosse assim... Um coisa, porém, é certa e independe de adivinhações: enquanto a presidência da CBF estiver nas mãos de Ricardo Teixeira, as possibilidades de mudança cairão sempre, e inevitavelmente, no lugar-comum de sempre.
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  • Postado em 12:11:09

22.07.06

O TORCEDOR


Representante das Arquibancadas

    Quando escrevi aqui que o uniforme do goleiro nunca é o que o torcedor usa nos estádios de futebol, (“A Redenção dos Goleiros”, em A MURALHA), algumas vozes se levantaram em defesa de Rogério Ceni, alegando que ele é o grande ídolo do são-paulino. Não contestei, porque é a mais absoluta verdade, mas argumentei que ele é uma exceção, já que não se prende aos limites da área.

 

        Procurei ilustrar minha opinião destacando que são os gols que ele marca – de pênalti ou falta – e não as defesas, o que enche os olhos do torcedor. Não é que eu ignore que o arqueiro tricolor seja um dos melhores do Brasil, porque isso é incontestável, mas achava que sua condição de ícone derivava do fato dele ser o “show man” do time. De representar, ele mesmo, um espetáculo à parte nos jogos. 

 

           Assistindo à disputa em pênaltis que garantiu o time do Morumbi na semifinal da Libertadores, porém, percebi que tinha sido demasiado simplista em meu raciocínio. O que torna Rogério Ceni a personificação do sentimento são-paulino é bem mais do que o meu coração corinthiano – e, portanto, incapaz de tomar a dimensão exata desta paixão tão antagônica à minha – poderia supor. 

 

          Quando ele se adiantou na cobrança de pênalti e defendeu o chute do jogad or do Estudiantes, retomando assim o empate nas finalizações (já que o meia Danilo não marcou o gol), entendi o que garante a este goleiro um lugar tão especial no coração tricolor: a identificação. Rogério fez o que cada um dos 13,3 milhões de são-paulinos teriam feito se tivessem a chance de estar debaixo daquela trave: garantir a vitória a qualquer custo.

 

             Claro que acho que se as regras existem, elas devem ser cumpridas e que, portanto, Ceni deveria ter esperado para escolher um dos lados. Mas o que me chamou a atenção foi que a atitude desesperada do goleiro era aboslutamente o reflexo do sentimento de pavor das arquibancadas. E é justamente esta sintonia dele com o torcedor o que mais me admira, mesmo sendo eu corinthiana.

 

            É a constatação de que ele é movido pelo mesmo feitiço e pela mesma devoção de que quem está do outro lado do alambrado. É a percepção de que sua emoção não poderia ser menos intensa do que a de nenhum são-paulino no mundo, assistindo ao time do coração dando um passo a frente na competição. Desconfio que Rogério Ceni, quando vê a festa nas arquibancadas, sente uma pontinha de inveja: é lá que, no fundo, ele deseja estar.

 

           Ele é uma espécie em extinção no futebol dos dias de hoje: o jogador-torcedor. O jogador que atua pelo time que torce e que, por isso, se entrega sem pudores, sabendo que qualquer resultado adverso machucará não apenas os outros, mas também a si mesmo. Com ele a torcida se sente representada em campo, como se fosse uma espécie de delegado eleito para ajudar o time. Qualquer torcedor, seja lá de que time for, se fosse retirado das arquibancadas e lançado ao gramado, se dedicaria como ele, sofreria e vibraria de forma igual e faria as mesmíssimas declarações diante dos microfones. Ele é, portanto, o torcedor a quem foi concedido o direito de entrar em campo.

 

            Muitos foram os exemplos de jogadores com este perfil na História do futebol. Uma figura marcante na minha infância foi o goleiro Ronaldo, que me permitia a ilusão de estar eu mesma em campo. Era um dos poucos goleiros a cumprir suspenão automática, tamanha era a sua devoção ao time. Nunca o consegui imaginar defendendo outra equipe, embora acredite que seu profissionalismo o levaria a fazê-lo da melhor maneira possível.

 

           Baseado neste meu exemplo, sou capaz de compreeder a admiração incondicional do são-paulino a Rogério Ceni. Eu já fui tomada pela mesma sensação de identificação. Além disso, Ceni merece o carinho que lhe é atribuído. Só que, sem querer ser desmancha-prazer, me sinto na obrigação de alertá-los: aproveitem bem, porque vai demorar pelo menos dez anos para vocês acharem outro goleiro assim.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 20:37:10

12.07.06

A MURALHA

                              
A redenção dos goleiros


        Eu muito tenho falado aqui sobre o gol, esse momento mágico do jogo em que o grito explode no peito e coração transcende o corpo. Mas reconheço que tenho sido injusta com os goleiros, uma espécie de anti-heróis que vivem à sombra das traves e têm o ingrato destino de evitar a erupção das arquibancadas. Diante do que vi nesta Copa, porém, em que os goleiros deram uma verdadeira aula do que significa jogar futebol, me sinto na obrigação de me retratar com eles. Nunca se sabe quando se vai precisar de um...

       O goleiro é, antes de tudo, um solitário. Passa o jogo inteiro aprisionado em sua área, incompreendido e abandonado pelos companheiros – que não se preocupam sequer em lha dar um abraço nos momentos de glória. Ele fica de longe, assistindo a festa dos outros e predestinado a estar a vida inteira vibrando sozinho. Lá atrás, onde nem a grama cresce mais. E onde torcedor nenhum se lembra de olhar nas horas mais alegres.
     
           A solidão dos goleiros é tão grande, mas tão grande, que até o seu uniforme é diferente; e nunca é o que o torcedor veste nos estádios. Mesmo as crianças, quando ensaiam seus primeiro pontapés, é no atacante que elas se inspiram – aos menos habilidosos é que resta o ofício: se é ruim na linha, vai para o gol. Assim não atrapalha o jogo.

         E quão injusta é a vida destas pobres criaturas! Quando não estão sós, é porque estão sendo bombardeado por bolas e mais bolas, incansavelmente atiradas em sua direção. Eles, pequenos e mortais, são obrigados a se agigantar e lalçar vôos certeiros para evitar o gol, aquele momento trágico do jogo, em que a dor explode no peito e o coração derrete no corpo. Protegem a retaguarda do time, como quem protege a si mesmo. E nem ao menos são reconhecidos por isso.

         Ao contrário: são eles que têm que acertar, quando a equipe inteira erra. Porque o atacante pode perder um gol cara-a-cara, que o torcedor perdoa. O meio-campista pode errar um, dois, dez lançamentos, que no dia seguinte ninguém vai condenar. O zagueiro pode entregar o ouro, que a opinião pública isenta. Mas o goleiro, ah, o goleiro não pode falhar nunca, porque vão todos lhe apontar o dedo e sentenciar: frangueiro.

           Nas ruas, praças, bares, lojas... olhares severos o acusarão. Ele terá que carregar para sempre o fado derrota e a culpa pelo título que não veio. Estará marcado – como se marcam os gados – por aquele gol que não evitou. Frango é coisa que o torcedor não esquece. Que se instala nas entranhas.
   
          Mas, justiça seja feita: é aos goleiros que se recorre nas horas de maior desespero. Quando, aos quarenta e cinco do segundo tempo, o time sofre pressão, é a eles – eles, e mais nenhum outro jogador – que o torcedor implora socorro. São para eles as orações, as súplicas de salvação, os pedidos de alívio. Todo o seu heroísmo, porém, termina quando o juiz apita o final do jogo.
   
         É, eu nunca tinha visto o goleiro com estes olhos... Quer saber? Acho que, a partir de agora, toda vez que eu cruzar com um arqueiro em meu caminho, vou humildemente ceder-lhe a passagem. É o mínimo de gratidão.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 21:21:35

07.07.06

O LEAL

            


Herança do Mestre Telê

    O jogador desarma o adversário e inicia o contra-ataque. Com velocidade, conduz a bola para a outra metade do campo, e parte para cima do defensor. Dribla um, dois, três, até ficar frente-a-frente com o último zagueiro. Na entrada da área ele prepara o chute e... falta! Para não correr o risco de perder o lance, o beque preferiu desferir pontapés, ao invés de tentar roubar a bola. É comum o último homem “matar a jogada” desta forma? Não se ele for o Lúcio.

    O zagueiro da seleção brasileira conseguiu a proeza de ficar 384 minutos sem cometer qualquer tipo de infração na Copa, superando assim o recorde anterior, que era do paraguaio Gamarra. E, contrariando os que defendem que zagueiro tem que parar a jogada a qualquer custo – mesmo que seja na base de puxões de camisa e chutes na canela – Lúcio cumpriu exemplarmente o seu papel. Mesmo sendo leal aos adversários, ele foi um dos poucos destaques da seleção brasileira nesta edição do mundial.

    Para quem, como eu, é admirador confesso do futebol-arte e quer abolir definitivamente a violência do esporte bretão, o comportamento do nosso zagueiro foi louvável. Deveria servir de exemplo para os defensores do mundo inteiro. Os técnicos, antes das partidas, deveriam exibir uma fita com os lances de Lúcio para que seus jogadores entendessem que o futebol se vence é jogando limpo. Os defensores deveriam se inspirar no colega e treinarem melhor a roubada de bola, a antecipação, a marcação, a velocidade.

    Aqueles 384 minutos de paz ditados pelo jogador do Bayern de Munique me fizeram lembrar do mestre Telê Santana, um combatente ferrenho do anti-jogo. Telê sempre proibiu seus atletas de apelar para a violência e sempre determinou que jogassem o futebol ofensivo, criativo, que enchia os olhos do torcedor. É, onde quer que ele esteja neste momento, deve estar satisfeito em constatar que seus ensinamentos não se perderam todos. Ah, que saudades do Mestre Telê... Que Deus o tenha.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 20:39:27

O GOLEADOR

 

O maior goleador de todos os tempos

    A inesperada eliminação precoce da seleção brasileira nesta Copa do Mundo acabou ofuscando o brilho de uma conquista que, se não serviu para nos trazer a taça, ao menos comprovou que as outras seleções terão que comer muita grama até alcançar a supremacia brasileira na competição. Não adianta reclamar, espumar de raiva ou amaldiçoar: o maior goleador de todos os tempos é nosso. Ronaldo Nazário de Lima – contestavelmente chamado por muitos de “O Fenômeno” - já balançou a rede quinze vezes; recorde na História dos Mundiais.

    “A busca de feitos individuais de alguns jogadores prejudicou a atuação coletiva da seleção”, bradarão muitos. E teriam razão - exceto, porém, um detalhe: o gol não é um feito individual. Ele favorece todo mundo. Favorece a equipe, que registra um tento no marcador; favorece o torcedor, que vai ao estádio para ver gols; favorece a imprensa, que tem imagens para exibir no dia seguinte. Numa Copa escassa de finalizações bem sucedidas como foi esta – a segunda menor média na História! - e em que os jogadores que se destacaram são predominantemente defensores, a marca de Ronaldo tem que ser aplaudida. E em pé.

    É claro que os números são ilusórios e podem provocar conclusões enganosas, levando a crer que todos os gols foram registrados em uma única edição do torneio. Ronaldo disputou três Mundiais - já que em 94 não teve a chance de atuar – até atingir a meta. O recordista anterior, o alemão Gerd Muller, precisou de apenas dois (1970-74). E, dezesseis anos antes dele, o francês Just Fontaine balançou a rede treze vezes, este sim em uma Copa só.

    Mas isso não tira o brilho do feito de Ronaldo. Se foi convocado para representar o país em três oportunidade, é porque teve lá o seu mérito. Se conseguiu marcar nas três oportunidades, é sinal de que conhece bem o caminho do gol. Infelizmente, desta vez, o triunfo não veio. E, para Ronaldo, nem o reconhecimento. Injustiça.

         Mas tudo bem, Fenômeno, a História ainda vai te redimir.
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 18:43:03