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Mergulhando nas entranhas do futebol brasileiro
Há cerca de quinze dias, o Brasil parou para assistir bestificado a saga de um Rubro-Negro que, após vencer o primeiro e o segundo turnos do campeonato estadual, sagrou-se antecipadamente campeão, superando a necessidade de uma final. Não, não estamos falando o Flamengo que foi campeão da Guanabara, mas eliminado da Taça Rio. O Rubro-Negro em questão é o Sport Club do Recife.
O time sagrou-se campeão pernambucano duas rodadas antes do final da competição e com uma campanha invejável: invicto e ostentando 100% de aproveitamento na segunda fase. Uma trajetória que enche os olhos do torcedor e nos alerta, ainda que por frações de segundos, de que existe vida futebolística longe dos chamados “grandes centros” do futebol nacional.
Atualmente a pátria aplaude orgulhosa a campanha de “seu” Santos na Taça Libertadores da América (nada mais justo, afinal, são sete triunfos em sete confrontos), mas não se sente igualmente envaidecida com as surpreendentes vitórias dos também “seus” Ipatinga e Gama, que eliminaram, respectivamente, Palmeiras e Vasco da Copa do Brasil.
Salvo as devidas proporções de grandeza, reconhecimento e abrangência de ambas as competições, o fato é que a auto-superação dos pequenos nunca chegou a comover verdadeiramente os corações verde-e-amarelos. Como se a imponência da seleção canarinha – e mesmo das belíssimas exibições dos grandes clubes do país no exterior – fossem possíveis apenas com jogadores surgidos à frente dos holofotes que iluminam o eixo Rio-São Paulo-Sul e abandonam à penumbra o ‘restante’ do país.
O torcedor no país do futebol sabe que o Grêmio supera em quinze pontos o vice-líder do Grupo B no Gauchão, o Esportivo-RS, mas desconhece a supremacia do América-RN no Potiguar (o time é nada menos que o que mais venceu, menos sofreu revezes, mais balançou as redes adversárias, menos sofreu tentos e exibe o maior saldo de gols). O espectador tupiniquim acompanha a disputa acirrada pela última vaga para as semifinais do Paulistão, mas é alheio à liderança folgada do Brasiliense na competição homônima e aos seus onze jogos de invencibilidade no estadual, sendo a única equipe invicta no país ao lado do Sport. O entusiasta brasileiro fica apreensivo com a expectativa do milésimo gol de Romário e torce para que seja registrado no Carioca, mas não faz a menor idéia de que o atual campeão alagoano Coruripe impera absoluto no torneio regional, o Atlético é superior ao Goiás no Goianão e o River impera no Piauiense. Porque o Brasil não tem olhos para eles.
O Pentacampeão mundial não consegue enxergar futebol onde não há estrelas, medalhões, grandes investimentos, salários milionários, badalações. Uma pena, porque se enxergasse para além de suas vistas míopes, poderia se esbaldar com jogos repletos de gols e arquibancadas lotadas. Poderia se deliciar com as mais variadas loucuras cometidas por torcedores para acompanhar o time e por jogadores, para subsistir em um esporte tão exclusivista. Poderia reviver os bons momentos, se recordando de quando o futebol ainda era bem mais inocente e inusitado do que é hoje.
Mas um dia o Brasil ainda mergulha em suas próprias entranhas e descobre que em cada metro quadrado, em cada canto escondido, em cada extremo desse seu imenso solo, o futebol faz mesmo a alegria de multidões. Um dia a gente aprende que o gol é transcendente e acontece do Oiapoque ao Chuí. Eu tenho certeza.


Ofensas e gentileza, as duas faces de uma mesma moeda: o machismo
No empate entre Santos e São Paulo, pelo Campeonato Paulista, o que me saltou aos olhos não foi a categoria com que ambas as equipes trataram a bola e, tampouco, o vandalismo desenfreado com que se comportaram os torcedores. O jogo foi bonito, é verdade, e a violência lamentável, é certo, mas esses dois itens foram ofuscados pela bandeirinha Ana Paula da Silva Oliveira. Ou melhor, foram secundarizados pelas duas formas antagônicas - mas essencialmente entranhadas – com que ela foi tratada dentro e fora de campo.
Mas algumas pessoas são mais sutis. O técnico santista Vanderlei Luxemburgo que o diga. A imagem exibida pelas TVs dizem tudo quando mostram um treinador enraivecido se levantando para protestar mas, logo em seguida, recolhendo toda a sua ira ao constatar quem está bandeirando é... Ana Paula.
Oras, quanta gentileza! Ou Luxemburgo perdoou o gol anulado porque considera o erro natural, vindo de uma mulher, ou ele estava galanteando uma pessoa no exercício de sua função. E, como desconfio que sejam os dois, já vou logo apontando: não há diferença entre xingar e sorrir, se a motivação for a distinção sexual.
Afinal, qual é a mensagem subliminar do 'cavalheirimo' de Luxemburgo? No fundo, esses excessos de gentileza, de zelo, de compreensão à falha da assistente – oras bolas, quem não se engana? - traduzem um machismo disfarçado. Um preconceito implícito, discreto, maqueado. Uma diferenciação fingindo ser outra coisa. E, mais que isso, um sentimento opressor de se sentir no direito de assediar impunemente o sexo feminino.
Apesar deste contratempos, porém, que tendem a diminuir na medida em que as mulheres forem deixando de ser 'novidade' (assim espero), fico feliz em constatar que o sexo feminino está ocupando bravamente o seu espaço. O que não significa em medida alguma tomar o espaço masculino, já que mulheres e homens podem compartilhar irmanamente o futebol, assim como compartilham o mundo.
Sendo assim, aplaudo em pé essas figuras corajosas que, mesmo que não se dêm conta disso, estão se expondo para abrir caminho as próximas que virão. Para que um dia as mulheres possam desfrutar impunemente do futebol, sem que sejam olhadas de rabo-de-olho ou vistas como intrusas. A história da emancipação feminina é repleta de personagens como este: que se sacrificaram para que um dia ninguém mais precisasse se sacrificar.

O 12° jogador
Em fila indiana, os jogadores entram em campo. Um-a-um. Quando se voltam para as arquibancadas, porém, a surpresa: está completamente vazia. Cadê os torcedores? Não vieram. Assustados, os atletas se entreolham. E agora, para quem eles vão jogar? Quem vai fazer a festa do outro lado do alambrado? Quem vai vibrar quando a equipe marcar o gol? Quem vai “empurrar” o time, quando o adversário estiver mais forte? Quem é que vai, afinal, fornecer energias para os craques dentro de campo?! Cabisbaixos, os jogadores abandonam o gramado: não haverá mais jogo. Sem o torcedor, o espetáculo não existe.
A torcida é tão importante em um partida de futebol, que convencionou-se chamá-la de 12º jogador. Sua presença é tão forte, que passa a impressão de estar dentro de campo, e os boleiros garantem que ela é capaz de reverter o placar de um jogo. Dois jogos – coincidentemente ou não, das duas maiores torcidas do Brasil – ilustraram, neste final de semana, o quão decisiva pode ser a massa, quando toma as arquibancadas decidida a ajudar o time.
No Maracanã, mais de 40 mil flamenguistas compareceram para dar as “boas-vindas” ao eterno ídolo Sávio que, depois de quase dez anos, retorna ao time da Gávea disposto reviver os momentos de alegria. Após um jogo disputado, aos 44 minutos do segundo tempo, Obina marcou e corou a festa da torcida, ajudando o time a suspirar aliviado. A massa rubro-negra foi embora feliz, e com a certeza de ter batidoum bolão.
Do outro lado da Dutra, a nação corinthiana também marcou um golaço e foi, sem dúvida alguma, a melhor jogadora em campo na vitória alvinegra contra o Atlético-PR, quebrando o jejum de oito jogos sem conquistar os três pontos. Além de “enterrar” os responsáveis pela má campanha do clube, os 35 mil fiéis que ocuparam o estádio mais corinthiano do país não se calaram um segundo sequer, cantando e gritando palavras de incentivo ao time – nem mesmo a falha grotesca de Sebá, no lance do gol atleticano, desviou a massa do seu propósito de empurrar o time.
Aliás, eu havia dito aqui no Futeblog que sou contra a proibição das organizadas, porque esta é uma forma artificial e ineficaz de se combater a violência nos estádios - já que ela está na sociedade e apenas se reflete no futebol, assim como em qualquer outro contexto social. Agora, eu vou mais longe: defendo as uniformizadas porque elas são fundamentais no esporte bretão, seja para organizar os gritos de guerra e coreografias, seja por ser o – único! – mecanismo de reivindicação do torcedor que, por pagar o ingresso e apoiar sempre o time, tem pleno direito de cobrar-lhe melhores atuações.
OBS: as torcidas de São Paulo e Internacional-RS também têm cumprido exemplarmente o seu papel de 12° jogador, sobretudo nas partidas pela Libertadores, assim como os palmeirenses foram decisivos na heróica recuperação pós-Copa.