Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
<  Abril 2008  >
S T Q Q S S D
  1 2 3 4 5 6
7 8 9 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28 29 30        
Receba os posts
Terra Blog

Categoria: OUTROS TIMES

10.04.07

O BRASIL

 



Mergulhando nas entranhas do futebol brasileiro


      Há cerca de quinze dias, o Brasil parou para assistir bestificado a saga de um Rubro-Negro que, após vencer o primeiro e o segundo turnos do campeonato estadual, sagrou-se antecipadamente campeão, superando a necessidade de uma final. Não, não estamos falando o Flamengo que foi campeão da Guanabara, mas eliminado da Taça Rio. O Rubro-Negro em questão é o Sport Club do Recife.


 

     O time sagrou-se campeão pernambucano duas rodadas antes do final da competição e com uma campanha invejável: invicto e ostentando 100% de aproveitamento na segunda fase. Uma trajetória que enche os olhos do torcedor e nos alerta, ainda que por frações de segundos, de que existe vida futebolística longe dos chamados “grandes centros” do futebol nacional.


        Atualmente a pátria aplaude orgulhosa a campanha de “seu” Santos na Taça Libertadores da América (nada mais justo, afinal, são sete triunfos em sete confrontos), mas não se sente igualmente envaidecida com as surpreendentes vitórias dos também “seus” Ipatinga e Gama, que eliminaram, respectivamente, Palmeiras e Vasco da Copa do Brasil.


 

        Salvo as devidas proporções de grandeza, reconhecimento e abrangência de ambas as competições, o fato é que a auto-superação dos pequenos nunca chegou a comover verdadeiramente os corações verde-e-amarelos. Como se a imponência da seleção canarinha – e mesmo das belíssimas exibições dos grandes clubes do país no exterior – fossem possíveis apenas com jogadores surgidos à frente dos holofotes que iluminam o eixo Rio-São Paulo-Sul e abandonam à penumbra o ‘restante’ do país.


 

         O torcedor no país do futebol sabe que o Grêmio supera em quinze pontos o vice-líder do Grupo B no Gauchão, o Esportivo-RS, mas desconhece a supremacia do América-RN no Potiguar (o time é nada menos que o que mais venceu, menos sofreu revezes, mais balançou as redes adversárias, menos sofreu tentos e exibe o maior saldo de gols). O espectador tupiniquim acompanha a disputa acirrada pela última vaga para as semifinais do Paulistão, mas é alheio à liderança folgada do Brasiliense na competição homônima e aos seus onze jogos de invencibilidade no estadual, sendo a única equipe invicta no país ao lado do Sport. O entusiasta brasileiro fica apreensivo com a expectativa do milésimo gol de Romário e torce para que seja registrado no Carioca, mas não faz a menor idéia de que o atual campeão alagoano Coruripe impera absoluto no torneio regional, o Atlético é superior ao Goiás no Goianão e o River impera no Piauiense. Porque o Brasil não tem olhos para eles.


         O Pentacampeão mundial não consegue enxergar futebol onde não há estrelas, medalhões, grandes investimentos, salários milionários, badalações. Uma pena, porque se enxergasse para além de suas vistas míopes, poderia se esbaldar com jogos repletos de gols e arquibancadas lotadas. Poderia se deliciar com as mais variadas loucuras cometidas por torcedores para acompanhar o time e por jogadores, para subsistir em um esporte tão exclusivista. Poderia reviver os bons momentos, se recordando de quando o futebol ainda era bem mais inocente e inusitado do que é hoje.



       Mas um dia o Brasil ainda mergulha em suas próprias entranhas e descobre que em cada metro quadrado, em cada canto escondido, em cada extremo desse seu imenso solo, o futebol faz mesmo a alegria de multidões. Um dia a gente aprende que o gol é transcendente e acontece do Oiapoque ao Chuí. Eu tenho certeza.


 

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 10:08:43

17.03.07

O SACRIFÍCIO

 

Ofensas e gentileza, as duas faces de uma mesma moeda: o machismo


      No empate entre Santos e São Paulo, pelo Campeonato Paulista, o que me saltou aos olhos não foi a categoria com que ambas as equipes trataram a bola e, tampouco, o vandalismo desenfreado com que se comportaram os torcedores. O jogo foi bonito, é verdade, e a violência lamentável, é certo, mas esses dois itens foram ofuscados pela bandeirinha Ana Paula da Silva Oliveira. Ou melhor, foram secundarizados pelas duas formas antagônicas - mas essencialmente entranhadas – com que ela foi tratada dentro e fora de campo.

         O tratamento mais recorrente é a crítica exacerbada, afinal, a assistente errou ao anular um gol legítimo do Santos. Pronto, motivo suficiente para despertar a fúria machista que abriga o íntimo masculino. Como se ninguém antes dela jamais houvesse cometido tal equívoco - que, discussões de gênero à parte, não foi gritante a ponto de justificar tamanha revolta. Imaginem se ela tivesse a atuação de Marcelo Venito Pacheco, no primeiro jogo das finais da Taça Guanabara...

          Mesmo correndo o risco de parecer feminista devo dizer que a sensação que tenho é que muitos homens ficam à espreita, 'secando' as mulheres numa partidade futebol com sangue nos olhos, torcendo por um tropeço. Estão ali, só esperando um deslize, menor que seja, para se levantarem em côro contra a 'invasão' feminina ao que consideram seu território de propriedade privada. Quando amaldiçoam assim desproporcionalmente o erro, é como se dissessem: “onde já se viu uma mulher se meter em futebol?”.
 


        Mas algumas pessoas são mais sutis. O técnico santista Vanderlei Luxemburgo que o diga. A imagem exibida pelas TVs dizem tudo quando mostram um treinador enraivecido se levantando para protestar mas, logo em seguida, recolhendo toda a sua ira ao constatar quem está bandeirando é... Ana Paula.


 

       Oras, quanta gentileza! Ou Luxemburgo perdoou o gol anulado porque considera o erro natural, vindo de uma mulher, ou ele estava galanteando uma pessoa no exercício de sua função. E, como desconfio que sejam os dois, já vou logo apontando: não há diferença entre xingar e sorrir, se a motivação for a distinção sexual.


 

 

           Afinal, qual é a mensagem subliminar do 'cavalheirimo' de Luxemburgo? No fundo, esses excessos de gentileza, de zelo, de compreensão à falha da assistente – oras bolas, quem não se engana? - traduzem um machismo disfarçado. Um preconceito implícito, discreto, maqueado. Uma diferenciação fingindo ser outra coisa. E, mais que isso, um sentimento opressor de se sentir no direito de assediar impunemente o sexo feminino.


         Apesar deste contratempos, porém, que tendem a diminuir na medida em que as mulheres forem deixando de ser 'novidade' (assim espero), fico feliz em constatar que o sexo feminino está ocupando bravamente o seu espaço. O que não significa em medida alguma tomar o espaço masculino, já que mulheres e homens podem compartilhar irmanamente o futebol, assim como compartilham o mundo.


          Sendo assim, aplaudo em pé essas figuras corajosas que, mesmo que não se dêm conta disso, estão se expondo para abrir caminho as próximas que virão. Para que um dia as mulheres possam desfrutar impunemente do futebol, sem que sejam olhadas de rabo-de-olho ou vistas como intrusas. A história da emancipação feminina é repleta de personagens como este: que se sacrificaram para que um dia ninguém mais precisasse se sacrificar.



  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 22:24:00

18.09.06

A PERGUNTA



Extrapolando a Lógica

    Quase 50mil baianos tomaram as arquibancadas da Fonte Nova, no último domingo, para prestigiar o Bahia vencendo o Ananindeua-PA por 1 a 0. O clube, embora tenha figurado entre os grandes do país e ostente um título Brasileiro (1988), disputa atualmente a série C do campeonato nacional. Ainda assim, reuniu um público bem acima da média na série A que, segundo a CBF, é de 11.395 pessoas.

    No grupo B a torcida também tem cumprido exemplarmente o papel de devoção e festa. Para se ter uma idéia, há sete dias uma legião de mais de 22mil apaixonados se espremeu atrás do alambrado, no Castelão, para assistir ao pífio empate de 1 a 1, entre Ceará e Remo. Detalhe, o jogo confrontava o último e o antepenúltimo colocados na tabela de classificação.

    Justiça seja feita, a elite do futebol nacional não fica atrás quando o assunto é arrastar multidões. Apesar das baixas médias no campeonato principal – favorecido, em muito, pela crescente violência nos estádios e o alto valor dos ingressos, - 57.554 pessoas, entre colorados e são-paulinos, marcaram presença na final brasileira da Libertadores. Mais de 40 mil rubro-negros saudaram o retorno do ídolo Sávio, no Maracanã. E cerca de 35 mil fiéis corinthianos se uniram para enterrarar seus dirigentes, patrocinadores e, por que não?, a má fase que o time atravessava.

    Os exemplos de Bahia, Ceará, Remo, Flamengo e Corinthians, dentre tantos outros, evidenciam que não são os resultados prorpiamente ditos que impulsionam o torcedor. O amor ao clube não é proporcional ao número de títulos ou a beleza de suas campanhas. Senão, como explicar que clubes em divisões inferiores encham os estádios? Como explicar que times na zona de rebaixamento – ou aspirando alcançá-la – atraiam tanta gente a seus jogos?

    Se o torcedor é movido apenas por vitórias, o que justifica a gigantesca massa flamenguista, em que nada menos do que 33 milhões de corações são regidos pelo mesmo sopro? Afinal, a agremiação carioca não é o que se pode chamar de colecionadora de títulos; com todo o respeito. Mesmo o alvinegro paulista, que orquestra a pulsação de 24 milhões de vidas humanas, possui um único - e equivocadamente contestado – título internacional de expressão. Sem falar que, curiosamente, o crescimento de sua torcida coincide com os 23 anos em que o time esteve na fila. Qual seria a razão desta nação aglutinar tantos corpo e almas?

    Seria a identificação com o sofrimento? Não, não pode ser simples assim. Senão, por outro lado, porque o São Paulo, que merecidamente conquistou três vezes o Mundial Interclubes, no Japão, (isso sem falar nos campeonatos nacionais e estaduais), é o terceiro mais querido do país? Por que o Inter-RS, que dentre outras glórias é o atual campeão da Libertadores, esbanja 40 mil sócio-torcedores? O que, afinal, o torcedor venera?!? Os jogadores? O hino? A camisa? O distintivo? O nome do clube? Ou tudo isso junto?

    São tantas perguntas... Que dificilmente encontrarão uma resposta lógica, plausível, coerente ou razoável, como se busca. Torcer é um ato de paixão e, como tal, se caracteriza pela ausência de nexo.

    Não importa mesmo porque tanta gente foi assitir à Bahia X Ananindeua, o importante é que foram. Não faz diferença entender por que dois times que estão na zona da degola lotam as arquibancadas, desde que lotem. O importante não é compreender o motivo do sentimento, é sentí-lo. E quem definiu isso com prorpiedade foi Clarice Lispector, ao nos lembrar que "viver ultrapassa o entendimento".
  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 14:46:14

06.08.06

O APOIO



O 12° jogador

    Em fila indiana, os jogadores entram em campo. Um-a-um. Quando se voltam para as arquibancadas, porém, a surpresa: está completamente vazia. Cadê os torcedores? Não vieram. Assustados, os atletas se entreolham. E agora, para quem eles vão jogar? Quem vai fazer a festa do outro lado do alambrado? Quem vai vibrar quando a equipe marcar o gol? Quem vai “empurrar” o time, quando o adversário estiver mais forte? Quem é que vai, afinal, fornecer energias para os craques dentro de campo?! Cabisbaixos, os jogadores abandonam o gramado: não haverá mais jogo. Sem o torcedor, o espetáculo não existe.

 

      A torcida é tão importante em um partida de futebol, que convencionou-se chamá-la de 12º jogador. Sua presença é tão forte, que passa a impressão de estar dentro de campo, e os boleiros garantem que ela é capaz de reverter o placar de um jogo. Dois jogos – coincidentemente ou não, das duas maiores torcidas do Brasil – ilustraram, neste final de semana, o quão decisiva pode ser a massa, quando toma as arquibancadas decidida a ajudar o time. 

 

        No Maracanã, mais de 40 mil flamenguistas compareceram para dar as “boas-vindas” ao eterno ídolo Sávio que, depois de quase dez anos, retorna ao time da Gávea disposto reviver os momentos de alegria. Após um jogo disputado, aos 44 minutos do segundo tempo, Obina marcou e corou a festa da torcida, ajudando o time a suspirar aliviado. A massa rubro-negra foi embora feliz, e com a certeza de ter batidoum bolão. 

 

         Do outro lado da Dutra, a nação corinthiana também marcou um golaço e foi, sem dúvida alguma, a melhor jogadora em campo na vitória alvinegra contra o Atlético-PR, quebrando o jejum de oito jogos sem conquistar os três pontos. Além de “enterrar” os responsáveis pela má campanha do clube, os 35 mil fiéis que ocuparam o estádio mais corinthiano do país não se calaram um segundo sequer, cantando e gritando palavras de incentivo ao time – nem mesmo a falha grotesca de Sebá, no lance do gol atleticano, desviou a massa do seu propósito de empurrar o time. 

 

       Aliás, eu havia dito aqui no Futeblog que sou contra a proibição das organizadas, porque esta é uma forma artificial e ineficaz de se combater a violência nos estádios - já que ela está na sociedade e apenas se reflete no futebol, assim como em qualquer outro contexto social. Agora, eu vou mais longe: defendo as uniformizadas porque elas são fundamentais no esporte bretão, seja para organizar os gritos de guerra e coreografias, seja por ser o – único! – mecanismo de reivindicação do torcedor que, por pagar o ingresso e apoiar sempre o time, tem pleno direito de cobrar-lhe melhores atuações.

            

OBS: as torcidas de São Paulo e Internacional-RS também têm cumprido exemplarmente o seu papel de 12° jogador, sobretudo nas partidas pela Libertadores, assim como os palmeirenses foram decisivos na heróica recuperação pós-Copa.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 18:42:15

20.07.06

O EXEMPLO



Derrubar mitos: a fórmula da vitória

    “O clube está priorizando o outro campeonato, por isso está tão mal neste”. Que atire a primeira pedra o torcedor que nunca recorreu ao argumento para justificar a má campanha do time. Nada mais natural, afinal, convencionou-se no futebol que a equipe que disputa simultaneamente dois torneios deve, necessariamente, priorizar um. O que é um absurdo.

    Um jogador não deve entrar em campo, se não for para dar o melhor de si. E se a equipe não tem condições físicas ou emocionais para duas competições, que reconheça isso publicamente: “Nós não temos estrutura para disputar dois campeonatos, então nos inscreveremos em apenas um”. É melhor do que desrespeitar a torcida, com uma campanha pífia. E o pior de tudo é que o torcedor engole a desculpa da prioridade, e ainda se utiliza dela - ao invés de questioná-la.

    Mas como toda verdade absoluta um dia se mostra insustentável, São Paulo e Internacional estão aí derrubando este mito. O time gaúcho venceu bem na Libertadores da América – 2X0, contra o equatoriano LDU – e se clasificou para as semifinais, além de estar em terceiro lugar do Brasileirão – colocação que lhe garante nova vaga na Libertadores. O tricolor paulista passou à proxima fase do torneio Sul Americano com um pouco mais de dificuldade – nos pênalitis, contra o argentino Estudiantes – mas em contrapartida é o líder do campeonato nacional. Em comum entre as equipes, além de estarem na briga pelos dois títulos, sem hierarquizá-los, está o fato de não se re renderem ao comodismo das desculpas esfarrapadas. Situação rara no futebol hoje em dia.

    É claro que uma rodada pode modificar tudo isso, e que Sampa e Inter podem “morrer na praia” e voltar para a casa sem nenhuma das duas taças. Nem todas as equipes que disputam um torneio sagram-se campeãs, isto é evidente. Mas seus torcedores saberão reconhecer o empenho e o profissionalismo dos atletas, que vêm atuando como se todos os jogos fossem decisivos, independente de sua visibilidade no cenário esportivo.

    Na última rodada do Brasileiro, Vasco e Flamengo - acobertados pelo o discurso de “poupar” os jogadores para a final da Copa do Brasil - entraram em campo com o time misto, e protagonizaram uma partida sem brilhos. Os agora semifinalistas da Libertadores, ao contrário, não fizeram corpo mole e jogaram com os titulares. O resultado das duas filosofias de trabalho tão antagônicas é facilmente perceptível na tabela de classificação do campeonato.

    O rival Corinthians também tem muito o que aprender com a administração são-paulina, afinal, os “copistas” Rogério Ceni e Mineiro se incorporaram imediatamente ao time, quando voltaram da seleção na Alemanha. No Parque São Jorge a situação foi bastante diferente... E agora os corinthianos têm que amargar a vice-lanterna, enquanto assiste ao time do Morumbi figurando na liderança, com 100% de aproveitamento como mandante de campo. Ao invés de amaldiçoar o tricolor, a Fiel deveria exigir de seu clube o mesmo profissonalismo e de seus jogadores, a mesma determinação em buscar a vitória. Porque quem acha que garra não se aprende, não deveria jogar futebol.


  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 12:42:10