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O dia seguinte
Nunca vi o Maracanã bonito daquele jeito. Os mais antigos juram – e os números atestam – que já esteve mais cheio e, quem sabe, até mais colorido. Mas os tempos, e o mundo, eram outros. Devido às brigas, aos horários, à evasão de nossos craques e a conseqüente má qualidade dos campeonatos, ao conforto do sofá da sala e próprio valor do ingresso, há tempos o Maraca não recebia tanta gente. E o mais fascinante é que aquele espetáculo mágico de bandeiras, bexigas, cantos, palmas e coreografias oriundo das arquibancadas reverenciava a seleção brasileira de futebol... feminino.
E como jogam aquelas meninas! Jogam pra frente, com audácia, mais preocupadas em balançar as redes do que em não sofrer gols – e podem jogar ofensivamente porque perder, para quem é desacreditado, também não prejudica demais. Driblam, gingam, dão toques de efeito - e precisam jogar bonito, porque ainda estão convencendo aquela platéia de que o futebol também é feminino. Jogam como se brincassem, com irreverência, de forma alegre e espontânea - e estão certas em se divertir, porque afinal estão desfrutando de um prazer que foi negado às suas antecessoras. O futebol delas é tão brasileiro que contagia até mesmo os estúpidos que torcem o nariz para reconhecer que elas sabem tratar bem a bola.
Pena que o jogo acabou (se bem que com uma bonita goleada por 5 a 0 e a medalha de ouro no peito). O Maracanã esvaziou, e pode demorar muito tempo para ficar bonito daquele jeito outra vez. A festa terminou, e possivelmente só se repita daqui há um ano, nas Olimpíadas, três, na Copa do Mundo, ou quatro, no próximo Pan. As pessoas foram embora para as suas casas e talvez nem se lembrem no dia seguinte – ou não se permitam lembrar - de que as mulheres protagonizaram naquela tarde o futebol mais bonito que suas retinas testemunharam nos últimos tempos. Pena que depois de todo êxtase, existe o dia seguinte.
(é como se, ao se curar de um porre, perceber que preferia estar entorpecido porque o mundo real é bem mais desconexo; por incrível que pareça).
Mas um delírio pode mudar a vida das pessoas; ou não. Se mudar, elas vão entender que já está mais do que na hora do Brasil criar ligas e federações de futebol feminino; de realizar regularmente campeonatos; dos clubes possuírem departamentos específicos, montarem equipes e profissionalizarem as suas atletas; dos patrocinadores investirem e nos ajudarem a manter aqui no país as nossas craques; da imprensa transmitir, divulgar e informar sobre as competições; do torcedor lotar as arquibancadas para prestigiar as belíssimas exibições, não apenas quando a vitória vale a medalha de ouro.
Se não mudar... bem, aí as pessoas vão continuar fazendo pouco caso da habilidade incontestável dessas meninas, a dar ouvidos para os ignorantes que estufam o feito para repetir a bestialidade de que "futebol pé coisa para macho" e ser jogadora de futebol no Brasil continuará sendo um ato isolado de otimismo; ou de amor.







Representante das Arquibancadas
Quando escrevi aqui que o uniforme do goleiro nunca é o que o torcedor usa nos estádios de futebol, (“A Redenção dos Goleiros”, em A MURALHA), algumas vozes se levantaram em defesa de Rogério Ceni, alegando que ele é o grande ídolo do são-paulino. Não contestei, porque é a mais absoluta verdade, mas argumentei que ele é uma exceção, já que não se prende aos limites da área.
Procurei ilustrar minha opinião destacando que são os gols que ele marca – de pênalti ou falta – e não as defesas, o que enche os olhos do torcedor. Não é que eu ignore que o arqueiro tricolor seja um dos melhores do Brasil, porque isso é incontestável, mas achava que sua condição de ícone derivava do fato dele ser o “show man” do time. De representar, ele mesmo, um espetáculo à parte nos jogos.
Assistindo à disputa em pênaltis que garantiu o time do Morumbi na semifinal da Libertadores, porém, percebi que tinha sido demasiado simplista em meu raciocínio. O que torna Rogério Ceni a personificação do sentimento são-paulino é bem mais do que o meu coração corinthiano – e, portanto, incapaz de tomar a dimensão exata desta paixão tão antagônica à minha – poderia supor.
Quando ele se adiantou na cobrança de pênalti e defendeu o chute do jogad or do Estudiantes, retomando assim o empate nas finalizações (já que o meia Danilo não marcou o gol), entendi o que garante a este goleiro um lugar tão especial no coração tricolor: a identificação. Rogério fez o que cada um dos 13,3 milhões de são-paulinos teriam feito se tivessem a chance de estar debaixo daquela trave: garantir a vitória a qualquer custo.
Claro que acho que se as regras existem, elas devem ser cumpridas e que, portanto, Ceni deveria ter esperado para escolher um dos lados. Mas o que me chamou a atenção foi que a atitude desesperada do goleiro era aboslutamente o reflexo do sentimento de pavor das arquibancadas. E é justamente esta sintonia dele com o torcedor o que mais me admira, mesmo sendo eu corinthiana.
É a constatação de que ele é movido pelo mesmo feitiço e pela mesma devoção de que quem está do outro lado do alambrado. É a percepção de que sua emoção não poderia ser menos intensa do que a de nenhum são-paulino no mundo, assistindo ao time do coração dando um passo a frente na competição. Desconfio que Rogério Ceni, quando vê a festa nas arquibancadas, sente uma pontinha de inveja: é lá que, no fundo, ele deseja estar.
Ele é uma espécie em extinção no futebol dos dias de hoje: o jogador-torcedor. O jogador que atua pelo time que torce e que, por isso, se entrega sem pudores, sabendo que qualquer resultado adverso machucará não apenas os outros, mas também a si mesmo. Com ele a torcida se sente representada em campo, como se fosse uma espécie de delegado eleito para ajudar o time. Qualquer torcedor, seja lá de que time for, se fosse retirado das arquibancadas e lançado ao gramado, se dedicaria como ele, sofreria e vibraria de forma igual e faria as mesmíssimas declarações diante dos microfones. Ele é, portanto, o torcedor a quem foi concedido o direito de entrar em campo.
Muitos foram os exemplos de jogadores com este perfil na História do futebol. Uma figura marcante na minha infância foi o goleiro Ronaldo, que me permitia a ilusão de estar eu mesma em campo. Era um dos poucos goleiros a cumprir suspenão automática, tamanha era a sua devoção ao time. Nunca o consegui imaginar defendendo outra equipe, embora acredite que seu profissionalismo o levaria a fazê-lo da melhor maneira possível.
Baseado neste meu exemplo, sou capaz de compreeder a admiração incondicional do são-paulino a Rogério Ceni. Eu já fui tomada pela mesma sensação de identificação. Além disso, Ceni merece o carinho que lhe é atribuído. Só que, sem querer ser desmancha-prazer, me sinto na obrigação de alertá-los: aproveitem bem, porque vai demorar pelo menos dez anos para vocês acharem outro goleiro assim.