Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)

Futeblog-Penélope Toledo

Um blog com informações, discussão e desabafos sobre futebol, que tenta pensar o esporte e não apenas descrevê-lo. Tudo isso, claro, com a linguägem apaixonada do torcedor. "O pior cego é o que só vê a bola" (Nélson Rodrigues)
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Terra Blog

Categoria: ÍDOLO

05.08.07

O FUTEBOL FEMININO

O dia seguinte


           Nunca vi o Maracanã bonito daquele jeito. Os mais antigos juram – e os números atestam – que já esteve mais cheio e, quem sabe, até mais colorido. Mas os tempos, e o mundo, eram outros. Devido às brigas, aos horários, à evasão de nossos craques e a conseqüente má qualidade dos campeonatos, ao conforto do sofá da sala e próprio valor do ingresso, há tempos o Maraca não recebia tanta gente. E o mais fascinante é que aquele espetáculo mágico de bandeiras, bexigas, cantos, palmas e coreografias oriundo das arquibancadas reverenciava a seleção brasileira de futebol... feminino.


            E como jogam aquelas meninas! Jogam pra frente, com audácia, mais preocupadas em balançar as redes do que em não sofrer gols – e podem jogar ofensivamente porque perder, para quem é desacreditado, também não prejudica demais. Driblam, gingam, dão toques de efeito - e precisam jogar bonito, porque ainda estão convencendo aquela platéia de que o futebol também é feminino. Jogam como se brincassem, com irreverência, de forma alegre e espontânea - e estão certas em se divertir, porque afinal estão desfrutando de um prazer que foi negado às suas antecessoras. O futebol delas é tão brasileiro que contagia até mesmo os estúpidos que torcem o nariz para reconhecer que elas sabem tratar bem a bola.


           Pena que o jogo acabou (se bem que com uma bonita goleada por 5 a 0 e a medalha de ouro no peito). O Maracanã esvaziou, e pode demorar muito tempo para ficar bonito daquele jeito outra vez. A festa terminou, e possivelmente só se repita daqui há um ano, nas Olimpíadas, três, na Copa do Mundo, ou quatro, no próximo Pan. As pessoas foram embora para as suas casas e talvez nem se lembrem no dia seguinte – ou não se permitam lembrar - de que as mulheres protagonizaram naquela tarde o futebol mais bonito que suas retinas testemunharam nos últimos tempos. Pena que depois de todo êxtase, existe o dia seguinte.


(é como se, ao se curar de um porre, perceber que preferia estar entorpecido porque o mundo real é bem mais desconexo; por incrível que pareça).


           Mas um delírio pode mudar a vida das pessoas; ou não. Se mudar, elas vão entender que já está mais do que na hora do Brasil criar ligas e federações de futebol feminino; de realizar regularmente campeonatos; dos clubes possuírem departamentos específicos, montarem equipes e profissionalizarem as suas atletas; dos patrocinadores investirem e nos ajudarem a manter aqui no país as nossas craques; da imprensa transmitir, divulgar e informar sobre as competições; do torcedor lotar as arquibancadas para prestigiar as belíssimas exibições, não apenas quando a vitória vale a medalha de ouro.


            Se não mudar... bem, aí as pessoas vão continuar fazendo pouco caso da habilidade incontestável dessas meninas, a dar ouvidos para os ignorantes que estufam o feito para repetir a bestialidade de que "futebol pé coisa para macho" e ser jogadora de futebol no Brasil continuará sendo um ato isolado de otimismo; ou de amor.

 

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  • Postado em 14:38:26

20.04.07

O GOLAÇO

categorias: COPA DO MUNDO, MUNDO, ÍDOLO


A redenção de Maradona

“Foi um gol com a marca do gênio. Poucos jogadores no mundo seriam capazes de fazer, como Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Maradona e Pelé. Misturou talento e criatividade” (Carlos Alberto Parreira)

        Um jovem craque argentino recebe a bola no lado direito de seu campo de defesa e arranca imponente em direção ao gol adversário. Como se tivesse um compromisso inadiável marcado com as redes rivais, vai deixando para trás todos aqueles que tentam inutilmente obstruir-lhe a passagem: um, dois, três, quatro... Não, nem o arqueiro e suas infinitas mãos poderiam conter-lhe naquele ímpeto fulminante, quase que predestinado. A arquibancada toda se silencia abestalhada, como que duvidando da cena que suas retinas acabarm de testemunhar. Uma verdadeira pintura! Ao final da exibição de gala, o habilidoso hermano estufa o peito com satisfação: acabara de assinar a autoria de um dos gols mais bonitos da História do futebol mundial.

    Não, apesar das evidências a descrição não é do inesquecível gol de Maradona nas quartas-de-finais da Copa de 1986, contra a Inglaterra, e sim de Messi na vitória do seu Barcelona sobre o Getafe por 5 a 2, na Copa do Rei. Quero dizer, não é o mesmo gol para quem se prende à lógica terrestre que considera impossível que um mesmo tento seja registrado duas vezes, quaisquer que sejam as conjecturas. Para quem se desprendeu das amarras da concretude e já desconfia que o futebol extrapolha a razão, a coerência, a obveidade, o bom senso, a moral e os bons costumes, porém, aquele gol foi marcado por Dieguito. Afinal, quem arrisca tentar nos provar que aconteceu de verdade e não foi um delírio de Maradona no hospital Güemes, onde se encontra internado?

         Porque o futebol tem destas coisas: traz o passado à tona. Nos faz engolir o antagonismo entre o que foi e o que poderia ter sido. Me custa crer que ao assistir à obra prima de Messi pela televisão, Maradona não deve ter se remetido, nem que seja por frações de segundos, ao seu prórpio gol – e à sua prórpia vida. Não teria ele em algum momento, mesmo que de relance, se arrependido das opções que fez e os rumos que tomou? Não teria ele preferido, ainda que num relapso, envelhecer com a dignidade a que tem direito um herói nacional? Talvez ele tenha desejado voltar no tempo e fazer diferente; ou não. Pouco importa, o fato é que algo no meu íntimo martela dizendo que é muita coincidência o gol brotar justamente no momento em que rumores atestam que o ídolo argentino teria tentado suicídio.

          Para mim Deus quer dar-lhe outra chance. Porque o futebol também tem destas coisas: dar a oportunidade de tentar de novo, ainda que não seja através de experiências vividas por nós mesmos. Se Messi brilhar como promete, e se envelhecer como merece, Maradona terá se redimido da vida. E há de aplaudir em pé o companheiro – e a si mesmo. Seja lá onde estiver: aqui, no céu ou em algum outro lugar do universo. Sendo assim, torço para que tenha mais juízo desta vez o craque Diego Armando Messi.


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  • Postado em 15:37:07

28.02.07

A IRONIA

Travessuras


          As cortinas do espetáculo futebolístico se abrem. A luz se faz. No centro do palco verde, o artilheiro e a bola. Outros jogadores estão a sua volta, mas não passam de meros coajuvantes. Todos os olhares estão voltados para os pés d’Ele. Que está pronto para brilhar e representar o seu melhor papel: o de goleador. Na platéia, a torcida ovaciona.

           Mas eis que um passo em falso, uma pisada mal calculada, um tropeço e... a tragédia se instaura. O ídolo se contundiu. Vai ficar fora por seis meses. No clímax de sua atuação, ele é obrigado a sair de cena. Agora serão seis meses à sombra dos holofotes. Seis meses sem aplausos, sem show, sem glórias, sem gols.

        Quando assisti ao lance que resultou na lesão de Obina, o xodó da nação rubro-negra, fiquei pasma. Muito menos pela forma boba com que aconteceu do que pelo azar em ser justo agora. Bem no auge de sua identificação com a torcida e afinidade com a bola.

         Fiquei pensando o quão é injusto é o futebol, que permite que um atleta se machuque no melhor momento de sua carreira, enquanto tantos outros pernas-de-pau esbanjam saúde e boa forma física irritando os torcedores.
  
          E essa busca por respostas me cresceu assustadoramente depois que Nilmar, regente da Fiel torcida corinthiana, se machucou outra vez. A promessa de alegria com o retorno do ídolo, que amargou longos meses fora dos gramados e distante da nação alvinegra, transbordou nas lágrimas de desconsolo do atleta ao ser retirado de campo. Não tem jeito, as duas maiores torcidas do país estão órfãs.

         Por isso é que eu acuso: o futebol é mesmo irônico. Parece que acontece de propósito, uma maldição que assola os boleiros que estão em evidência ou em sintonia com as arquibancadas. Exemplos não faltam na História do esporte bretão. Ídolos que, por capricho do destino, tiveram que interromper seu estrelato e adiar a sua coroação.

         Nem o Rei escapou. Na Copa de 62, na segunda partida (contra a Tchecoslováquia), Pelé sofreu uma distensão e disse adeus ao mundial. Bem, se o drama atingiu até majestade do mundo da bola, não seria diferente com os súditos.

          Alguns se recuperam a tempo de acertar suas contas com o esporte. É o caso do próprio eterno camisa 10 da seleção brasileira, que reinou soberano quatro anos depois, no México. Ou do “fenômeno” Ronaldo, que ressurgiu das cinzas em 2002 e nos trouxe o quinto caneco. E mesmo de Eto’o (aquele, que os flamenguistas juram que Obina seja melhor...).

         Mas não consigo parar de me questionar de onde vem essas contusões. Por que fatalmente acontecem? Quem se diverte com elas?

         A figura que tenho na minha cabeça é a um gigantezinho mimado e travesso, cujo brinquedo favorito é um tapete verde, onde estão dispostos onze homenzinhos e uma bola, como se fosse um enormíssimo campo de botão. E ele fica brincando com as pecinhas, tirando-as e recolocando-as no lugar, segundo as suas vaidades.

        Agora, se não for isso, então eu não sei mais o que pode ser...

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  • Postado em 16:42:40

26.01.07

O PATRIMÔNIO

categorias: CARIOCA, VASCO, ÍDOLO
Deixa o homem marcar gols!


             A Fifa decretou: Romário não pode disputar o Estadual do Rio de 2007, porque o regulamento proíbe que um mesmo atleta defenda mais de dois clubes no prazo de um ano. Como o atacante atuou pelo Miami FC e pelo Adelaide, da Austrália, não pode vestir oficialmente a camisa do Vasco, seu atual clube, fato que o distancia enormemente do sonho de alcançar o milésimo gol da carreira.

           A decisão aparentemente tem respaldo legal, pois se fundamenta em regras claras e aplicáveis a qualquer jogador. Mas há uma falha conceitual, que passou despercebida à vista míope da entidade máxima do futebol, mas nunca deixou de ser captada pelos olhos pulsantes do torcedor: não estamos falando de “qualquer jogador” e sim de Romário. Que, na pior das hipóteses, é gênio e não apenas esportista.

           “Jogador de futebol” é um termo muito genérico, incabível à biografia do Baixinho. Equipará-lo aos mortais que povoam o esporte bretão mundo afora seria demasiada ingratidão com os pés abençoados que, dentre outras artimanhas, salvaram a seleção canarinha do fiasco de ficar fora de uma Copa do Mundo - e, de quebra, ainda conquistaram o tetracampeonato para o Brasil. Seria, definitivamente, uma grosseria irremediável com aquele que conhece tão bem o caminho do gol que sagrou-se artilheiro do Cariocão por cinco anos consecutivos e, não bastasse, foi o maior goleador do Brasil aos 39 anos.

     Romário e a bola mantêm uma relação profunda de cumplicidade, como se já se conhecessem de vidas passadas. Como se um dia tivessem formado um único ser – uma criatura meio andrógina, sendo a bola uma extensão dos pés do Baixinho - e estivessem condenados a perseguir eternamente a metade separada pela fúria dos deuses (que provavelmente detestavam futebol). Assim, o atacante e a redondinha se procuram incansavelmente, pois só assim se completam para fazerem a alegria das arquibancadas.

         Por tudo isso é que eu discordo da Fifa. Ele quer fazer gols? Pois então que os faça, e em grande quantidade! O torcedor quer isso mesmo: ver as redes balançando. Não pode haver mal em um jogador que anseia chegar ao milésimo tento (ainda que os números sejam contestáveis). Antes todo atacante estabelecesse para si semelhante meta. Aí pouparia os dirigentes de buscarem soluções para a miserabilidade de gols nas competições.

        Claro que em um time o jogador tem que priorizar a colaboração com o grupo, em detrimento de alcançar recordes pessoais. Mas já destacamos aqui que Romário não é boleiro e sim patrimônio esportivo do país. E, ademais, prejudicial mesmo ao futebol é o atacante que não marca, que não afunda as redes. Romário tá com fome de bola? Então, d
eixa o homem marcar gols!

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 08:48:38

22.07.06

O TORCEDOR


Representante das Arquibancadas

    Quando escrevi aqui que o uniforme do goleiro nunca é o que o torcedor usa nos estádios de futebol, (“A Redenção dos Goleiros”, em A MURALHA), algumas vozes se levantaram em defesa de Rogério Ceni, alegando que ele é o grande ídolo do são-paulino. Não contestei, porque é a mais absoluta verdade, mas argumentei que ele é uma exceção, já que não se prende aos limites da área.

 

        Procurei ilustrar minha opinião destacando que são os gols que ele marca – de pênalti ou falta – e não as defesas, o que enche os olhos do torcedor. Não é que eu ignore que o arqueiro tricolor seja um dos melhores do Brasil, porque isso é incontestável, mas achava que sua condição de ícone derivava do fato dele ser o “show man” do time. De representar, ele mesmo, um espetáculo à parte nos jogos. 

 

           Assistindo à disputa em pênaltis que garantiu o time do Morumbi na semifinal da Libertadores, porém, percebi que tinha sido demasiado simplista em meu raciocínio. O que torna Rogério Ceni a personificação do sentimento são-paulino é bem mais do que o meu coração corinthiano – e, portanto, incapaz de tomar a dimensão exata desta paixão tão antagônica à minha – poderia supor. 

 

          Quando ele se adiantou na cobrança de pênalti e defendeu o chute do jogad or do Estudiantes, retomando assim o empate nas finalizações (já que o meia Danilo não marcou o gol), entendi o que garante a este goleiro um lugar tão especial no coração tricolor: a identificação. Rogério fez o que cada um dos 13,3 milhões de são-paulinos teriam feito se tivessem a chance de estar debaixo daquela trave: garantir a vitória a qualquer custo.

 

             Claro que acho que se as regras existem, elas devem ser cumpridas e que, portanto, Ceni deveria ter esperado para escolher um dos lados. Mas o que me chamou a atenção foi que a atitude desesperada do goleiro era aboslutamente o reflexo do sentimento de pavor das arquibancadas. E é justamente esta sintonia dele com o torcedor o que mais me admira, mesmo sendo eu corinthiana.

 

            É a constatação de que ele é movido pelo mesmo feitiço e pela mesma devoção de que quem está do outro lado do alambrado. É a percepção de que sua emoção não poderia ser menos intensa do que a de nenhum são-paulino no mundo, assistindo ao time do coração dando um passo a frente na competição. Desconfio que Rogério Ceni, quando vê a festa nas arquibancadas, sente uma pontinha de inveja: é lá que, no fundo, ele deseja estar.

 

           Ele é uma espécie em extinção no futebol dos dias de hoje: o jogador-torcedor. O jogador que atua pelo time que torce e que, por isso, se entrega sem pudores, sabendo que qualquer resultado adverso machucará não apenas os outros, mas também a si mesmo. Com ele a torcida se sente representada em campo, como se fosse uma espécie de delegado eleito para ajudar o time. Qualquer torcedor, seja lá de que time for, se fosse retirado das arquibancadas e lançado ao gramado, se dedicaria como ele, sofreria e vibraria de forma igual e faria as mesmíssimas declarações diante dos microfones. Ele é, portanto, o torcedor a quem foi concedido o direito de entrar em campo.

 

            Muitos foram os exemplos de jogadores com este perfil na História do futebol. Uma figura marcante na minha infância foi o goleiro Ronaldo, que me permitia a ilusão de estar eu mesma em campo. Era um dos poucos goleiros a cumprir suspenão automática, tamanha era a sua devoção ao time. Nunca o consegui imaginar defendendo outra equipe, embora acredite que seu profissionalismo o levaria a fazê-lo da melhor maneira possível.

 

           Baseado neste meu exemplo, sou capaz de compreeder a admiração incondicional do são-paulino a Rogério Ceni. Eu já fui tomada pela mesma sensação de identificação. Além disso, Ceni merece o carinho que lhe é atribuído. Só que, sem querer ser desmancha-prazer, me sinto na obrigação de alertá-los: aproveitem bem, porque vai demorar pelo menos dez anos para vocês acharem outro goleiro assim.

  • criado por  petoledo criado por petoledo
  • Postado em 20:37:10